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Postagens

Matinta-Perera (4)

Explicou que a canção era de Tunai , um compositor mineiro que tinha estudado na Escola de Minas em Ouro Preto. Disse que ali também havia passado o irmão mais velho dele, João Bosco . Contou que durante a faculdade costumava viajar para Ouro Preto. Ficava em repúblicas cheias de estudantes. Violões circulavam pela casa. Cerveja barata. Conversas até tarde. Uma vez tinha entrado na república Sinagoga, onde João Bosco havia morado. Nunca soube se Tunai também tinha vivido ali. Ele falava de um jeito que supunha algum conhecimento da minha parte. Disse que Tunai e o irmão tocavam violão de um modo que escapava da disciplina da formação clássica. Havia ali uma recusa em ser elegante da maneira esperada. Enquanto ele falava, tirei o maço do bolso da jaqueta. Escolhi um cigarro e o coloquei entre os lábios. Quando acendi, Ted interrompeu a frase por um instante. A chama iluminou meu rosto. Puxei a primeira tragada e senti o tabaco descer. Ele retomou a história, mas o olhar voltava se...
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Matinta-Perera (3)

Tudo isso era novo. Não a presença de Ted, pois ele sempre havia estado lá, mas a qualidade dessa presença e a maneira como ocupávamos o tempo. Antes, havia sempre um cálculo. O horário pensado. A atenção dividida entre a conversa e o risco. Meus pais sempre estavam entre nós. Naquela semana, esse receio desapareceu. Não havia mais uma terceira pessoa. Percebi isso sentada em um banco da praça. Antes de me acomodar, havia dobrado a jaqueta e a colocado sob as coxas. O ar da noite estava parado. Na esquina um rapaz cantava “Certas Canções” em voz e violão. Ted segurava o copo de chope com as duas mãos. Ficou alguns segundos observando a espuma antes de falar que gostava muito daquela música. Eu disse que não conhecia. Isso bastou para ele começar. "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Matinta-Perera (2)

Naquela semana, Ted veio me buscar todos os dias. Era novo não ter que me esconder. No início da noite ele aparecia no portão. Eu descia e saíamos sem rumo definido. Às vezes seguíamos até a praça. Em outras noites caminhávamos em direção ao centro e nos demorávamos diante das vitrines fechadas. Andávamos bastante, a mão dele na minha. O ar da noite e o movimento dos carros acompanhavam nosso percurso. Eu falava das vagas de emprego que havia encontrado durante o dia. Ele escutava. Em algum momento entrávamos em um bar. Eu fumava enquanto dividíamos algumas cervejas. Ficávamos ali até sentir que a noite já havia avançado o suficiente. Depois ele me acompanhava de volta até o portão. Quando eu entrava, minha tia estava na sala, sentada diante da televisão. Ela levantava os olhos, estendia o maço na minha direção e perguntava como tinha sido a noite. Pegava um cigarro e me sentava ao seu lado. Entre uma tragada e outra, contava-lhe alguma coisa pequena que havia acontecido na rua ou ...

Matinta-Perera (1)

Nos primeiros dias, a gente se estranhava pelos cantos. Eu acordava cedo, antes dela, e ficava na cozinha sem saber se podia fazer café. Quando ela acordava e me via ali, parada, dizia que o pó estava no armário. Passávamos a manhã cada uma em um cômodo. Ela via sua novela; eu ficava no quarto, vasculhando a internet atrás de emprego. Depois vinham os ônibus, as ruas que eu não conhecia, as cópias do currículo. Eu sempre voltava com os pés doendo e com o suor na testa. Certa vez, uma recepcionista disse para eu voltar na manhã seguinte para falar com o gerente. Quando retornei, ele avisou que a vaga já havia sido preenchida. À tarde, minha tia me chamava para almoçar. Ela cozinhava, eu secava a louça. Foi nesses momentos que começamos a nos conhecer. Falávamos sobre o tempero do feijão, sobre o carteiro que não passava há dias ou sobre a novela que repetia os mesmos personagens. Aos poucos, surgiam fragmentos maiores: os homens que passaram por sua vida; o bonde que a levava para...

Degredo (11 - Final)

Acordei de bruços. O travesseiro estava úmido. Demorei alguns segundos para reconhecer o quarto. A primeira coisa que me chamou a atenção foi uma cadeira encostada na parede, num ângulo ligeiramente torto, distante demais para ser útil. Fiquei olhando para aquilo por algum tempo. Rolei de lado. A lembrança voltou inteira: ela viu tudo. Permaneci na cama, imóvel, tentando perceber algum som no apartamento. Água correndo. Uma porta de armário. Algo pousado sobre uma superfície dura. O corredor permanecia silencioso. Ela me vira; agora sabia que eu não passava de um ser sem transição digna, sem qualquer compostura. Um fardo para ombros cansados. Um cheiro seco de amêndoa torrada com petricor atravessou o corredor. Canela, havia um toque de canela. O dejejum estava posto. Imaginei o momento em que teria de sair do quarto. O café sendo servido, o som dos copos na mesa. Tentei prever o olhar dela. Virei o rosto para a parede; o quarto tinha poucos objetos. Perguntei-me se ela tinha...

Degredo (10)

A casa estava quieta. Fui até a sala e percorri os dedos pelas lombadas na estante, sem pressa, até encontrar Elis & Tom, 1974 . Tirei da capa com cuidado, segurei o disco pelas bordas e o encaixei no eixo. Baixei a agulha devagar até sentir o momento exato em que ela afundou no sulco: primeiro o chiado quente; depois os estalos; só então a música. O violão, o contrabaixo e a voz de Elis entrando fundo, ferindo o silêncio do recinto. “É pau, é pedra, é o fim do caminho.” A batida do violão e o piano subiram, e logo a voz de Elis começou a desfiar os versos. Fechei os olhos. Deixei que o ritmo circular me envolvesse. O som não vinha apenas das caixas; ele parecia vir do chão, subindo pelas solas dos meus pés. Meus ombros cederam. Inclinei a cabeça para trás, sentindo o peso do cabelo contra a nuca, e permiti que a música ocupasse espaço. Sorri sozinha na meia luz da sala, sentindo o relevo analógico de cada nota. O celular vibrou no chão. A tela do celular iluminou o ambiente ...