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Mostrando postagens de setembro, 2025

Aprendendo a Tragar (50)

Ted respirou fundo.  A mão foi até o copo de cerveja, mas não bebeu. A banda agora tocava Yesterday . A ironia era quase cruel. Contou que viu a ex no caminho para o evento.  Vomitou, sem aviso.  Seus novos amigos o ampararam. Sabiam de toda a história. Ele quis ir embora. Eles não deixaram.  Durante o evento ficaram propositadamente o mais longe possível dela, mas ela dava um jeito. Se aproximava. Ria perto. Dançava com os novos amigos, completamente desconhecidos para ela.  Como se dela fosse aquele território. Me inclinei sem perceber. Queria entrar nesse território com ele. Ted suportou o máximo possível. Até que, num rompante, pediu a uma das amigas novas que colocasse um colar. Um colar de prata que ele mesmo tinha dado à ex. No fim do namoro, fizera questão de que ela devolvesse. Guardou por raiva. E, naquela noite, levou no bolso. A amiga topou. Dançou perto da ex, se virou de frente, passou a mão pelo colar, lenta, provocativa. A ex viu. Reconheceu. Sai...

Aprendendo a Tragar (49)

Voltei para dentro ainda com o gosto amargo da raiva entre os dentes. O cheiro de cigarro tinha se enroscado no meu cabelo como um lembrete. Me sentia deixada de lado. Estava ali por ele: toda minha encenação, o cigarro, a roupa, o batom, tudo por ele. E ele simplesmente me largara do lado de fora, como se eu fosse só mais uma distração.  Caminhei até a mesa sem sorrir. Sentei. Ted estava lá, os olhos vidrados no palco. Notou meu silêncio e tentou suavizar com um beijo no rosto. Virei o rosto. A banda tocava Let It Be , como se o universo soubesse exatamente onde doer. Então ele se inclinou até minha orelha, a voz baixa, quase íntima: — “Sabe, shows de Beatles cover são importantes pra mim.” Virei devagar, surpresa pelo tom. Ele me olhava sério, sem o tom zombeteiro que usava quando me provocava. Havia algo afundado nele, e senti isso antes mesmo das palavras. Ted quase nunca falava do passado; era como se sua vida tivesse começado no dia em que nos conhecemos. Disse que conheceu a...

Aprendendo a Tragar (48)

A área externa era uma grade de ferro fundido direto pra rua. A fumaça de outros cigarros pairava no ar, misturada ao cheiro de cerveja e perfume barato. Não era romântico. Mas eu não estava ali para romantismo. O olhei com raiva e desejo. E o desejo dele estava claro no olhar. Eu era a fantasia dele em carne e vinil. Aproximei meu rosto do dele. Traguei, sem engolir, ainda. Soprei a fumaça perto da boca dele. Ele fechou os olhos por um instante, como quem recebe um presente sagrado. E então me beijou. Foi um beijo úmido, quente, cheio de dentes e língua. A mão dele apertava minha cintura como se quisesse me deixar ali para sempre. Me empurrei contra ele, rindo entre os beijos, testando os limites. O cigarro quase caiu da minha mão, mas consegui manter o gesto elegante. Beijei o queixo, a mandíbula, soprei fumaça em sua pele. Ele gemeu baixinho.   As mulheres ao lado pararam de fumar seus cigarros, olhando espantadas. Seria inveja? Ted se afastou, ofegante, olhos turvos. "Precis...

Aprendendo a Tragar (47)

A banda começava a tocar Come Together quando eu disse que ia ao banheiro. Ted fez que sim com a cabeça, distraído pelo som e pelas luzes que se acendiam no palco. Havia algo em mim, uma urgência performativa, uma necessidade de entrega, que não cabia mais na cadeira estreita do mezanino.  Eu queria vê-lo tremer. Queria ser a imagem que ele guardaria na memória depois do último acorde. O banheiro era pequeno, com um espelho manchado e o som abafado da bateria atravessando as paredes. Me encarei com atenção. Meus olhos estavam mais escuros do que eu lembrava, pensei será que é o delineador? Passei os dedos pelos lábios, ajeitei o batom.  A excitação me deixava elétrica, viva, feroz. Queria ser desejada com violência. Queria que Ted sentisse o que eu começava a sentir por mim mesma. Abri a bolsa. Peguei o maço. O cigarro deslizou entre os dedos, tornando-se uma extensão do meu gesto.   Acendi.  A primeira tragada foi encenada. Falsa. Apenas fumei com a boca, igual já...

Aprendendo a Tragar (46)

Nos encontramos na praça.  Ted estava lá, esperando com um sorriso ansioso e encantadoramente deslocado. Seus olhos mostravam que o mundo era simples. E por um segundo, quase acreditei. O beijei com firmeza. Ele me tocou de leve na cintura, um toque breve, quase distraído, mas que me incendiou por dentro.  Sentamos num banco de madeira sob a árvore. E antes que ele dissesse qualquer coisa, abri a bolsa. Meus dedos encontraram o maço.   Tirei um cigarro com cuidado. Ted me olhou, atento.  Levei o cigarro à boca com a lentidão estudada de quem tenta parecer espontânea.  Acendi .  Inalei como podia. Senti a fumaça preencher minha boca, era  uma presença estranha que não sabia se devia engolir ou expulsar. Expirei pela lateral dos lábios, tentando parecer natural.  Ele sorriu.  Um sorriso de quem foi tocado no lugar exato. Quando chegamos ao pub, o ar mudou. O lugar era uma cápsula de outra realidade. Paredes de tijolo aparente, palco de ferro fu...

Aprendendo a Tragar (45)

Agora estava trancada no banheiro, encarando o espelho.  A luz fluorescente deixava meu rosto mais pálido, mais exposto. Passei a mão pelo cabelo, pela nuca. As mãos estavam frias. A pia, salpicada de gotas, cheirava a sabonete. Como pode alguém se sentir tão velha e tão crua ao mesmo tempo? Abri o armário do espelho. Dentro dele, o batom que quase nunca usava. Passei devagar. Testei, não gostei. Tirei. Testei outro. Nenhum parecia real, mas todos pareciam possíveis.  Vesti a roupa escolhida com uma lentidão ensaiada: blusa preta justa, calça escura de vinil, botas de cano curto. O tecido abraçava meu corpo de um jeito que me fazia sentir, exposta e poderosa, ao mesmo tempo. Por cima, joguei uma jaqueta de veludo vinho escuro. Passei batom pela terceira vez. Limpei. Passei de novo. Minha boca nunca havia recebido tanta atenção.  Mesmo tendo idade suficiente para ler nas entrelinhas da vida, eu ainda não sabia como me mover dentro do corpo que habitava, muito menos como re...

Aprendendo a Tragar (44)

O sábado chegou disfarçado de leveza.  Ted havia me mandado mensagem cedo , animado, quase adolescente. Havia um pub que ele adorava. Tocaria uma banda cover dos Beatles.  Sorri para a tela como se meu rosto pudesse responder por mim. Disse que sim, que estava empolgada. Mentira parcial.  A empolgação era real, mas não nascida do evento, nascida dele . O espelho do banheiro me devolvia uma imagem que eu ainda não reconhecia completamente.  Três semanas de namoro com Ted, e eu já estava aprendendo a mentir para os meus pais com a naturalidade de quem sempre soube que um dia precisaria.  Disse que sairia com algumas colegas do trabalho. Mencionei nomes neutros, inventados na hora. Eles assentiram com aquela indiferença típica de quem só se importa com a aparência da coisa.  Seja prudente, disse minha mãe, sem olhar nos meus olhos. Se ela soubesse que essas "amigas" eram uma única pessoa, um homem que me pedia para fumar enquanto me observava com olhos que de...

Aprendendo a Tragar (43)

Ela continuou, me examinando com aquela intensidade que me fazia sentir um espécime defeituoso. — Você está muito magra. Está comendo direito? Essa era a contradição central da minha educação: eu deveria ser magra o suficiente para ser atraente, mas não tanto que parecesse doente. Deveria comer o bastante para demonstrar saúde, mas não tanto que perdesse a forma.  Era uma equação impossível. Uma fórmula que nunca se equilibrava. Encolhi-me por dentro.  Minha mãe se levantou, foi até a estante e voltou com uma revista.  Folheou até uma página específica, já sabendo exatamente o que procurava. Apontou para uma mulher sorridente em um vestido floral e explicou, com orgulho, que era assim que uma mulher de família devia se apresentar. — Eu não sou assim, mãe. Seus olhos estavam carregados de acusação. Afirmou que eu é que estava de má vontade. Insistiu: se fosse preguiça, ela poderia ajudar. Mas se fosse teimosia, o problema era meu.  Expliquei que não era preguiça nem t...

Aprendendo a Tragar (42)

A porta da frente se fechou atrás de mim. A sala cheirava a cera de móveis, enquanto o odor de sabão em pó se espalhava pelo corredor.  A televisão estava ligada em alguma novela qualquer que ninguém assistia. Minha mãe veio da cozinha, limpando as mãos no pano de prato. Seus olhos me percorreram dos pés à cabeça. — Que postura é essa? Parece uma mendiga entrando na casa dos outros. Endireitei os ombros automaticamente. Sorri, um gesto rápido, disfarçado de bom humor. Tirei os sapatos com cuidado e os alinhei no canto da porta. — Não encosta nas paredes com essa blusa suada. Vai encardir. Ela apontou a cozinha. Na pia, a louça já estava lavada. Na mesa, um prato com sobras de bolo estava coberto por uma pequena toalha. Quando passou por mim, apontou com o queixo enquanto mandava que eu me sentasse direito. "Não cruze as pernas assim, parece moça de rua. Pés paralelos, mãos no colo. Olha a postura." — Oi, mãe. “Oi, mãe, o quê?” Ela disse enquanto me perguntava onde estava o m...

Aprendendo a Tragar (41)

A lembrança se dissolveu e se recompôs em outro momento. Estávamos no parque, eu, minha mãe e meu pai flanqueando-me como guarda-costas discretos. Havia um grupo de crianças brincando de pique-esconde entre as árvores, correndo, gritando, caindo e levantando com os joelhos ralados e sorrisos enormes. Eu as observava com fascínio. Elas pareciam operar segundo leis diferentes das minhas. — Posso brincar com elas? — perguntei, o coração acelerado com a própria ousadia. Meus pais trocaram aquele olhar que eu conhecia bem. O olhar da conferência silenciosa, onde pesavam minha segurança contra minha vontade. — Não conhecemos essas crianças, amor — disse minha mãe, a voz gentil, mas definitiva. — E se elas forem muito brutas? E se você se machucar? Fiquei ali, assistindo àquela festa de liberdade da qual eu era eternamente plateia. Uma das meninas tropeçou e ralou o joelho. Em vez de chorar, ela riu, limpou o sangue com a mão e continuou correndo. Eu senti algo que só muito mais tarde aprendi...

Aprendendo a Tragar (40)

O ônibus balançava com uma regularidade hipnótica. Sentei ao lado de Ted. A luz dourada da tarde escorria pelas janelas empoeiradas, projetando manchas trêmulas sobre as poltronas. Ted estava com os fones enfiados nos ouvidos e o olhar preso em algo além da janela. Uma música que eu não ouvia. Um mundo que eu não habitava. Nossos joelhos se tocavam discretamente a cada curva. Recostei-me na poltrona e deixei o corpo seguir o movimento. Olhei pela janela e me vi refletida no vidro: a Joyce-do-trabalho se dissolvendo lentamente, preparando-se para a metamorfose em Joyce-de-casa. Era uma alquimia exaustiva, essa transmutação diária entre versões de mim mesma.  Com Ted, eu era um elemento em estado de descoberta, volátil, reativa, viva. Em casa, voltava a ser o composto estável que meus pais haviam sintetizado ao longo de décadas de controle cuidadoso.  As duas existiam. Mas não no mesmo corpo. A vibração do motor me embalou de volta a uma lembrança que chegou sem aviso. Vi de no...

Aprendendo a Tragar (39)

O jardim dos fundos era pouco usado. Quase sempre vazio. Um corredor estreito de sombra entre a lateral do prédio e o muro alto da instituição. Ali, entre samambaias, era possível esquecer o ruído do resto. Sentei-me encostando as costas na parede áspera.  O vento trazia o cheiro de terra seca e folhas queimadas de sol. O silêncio ali era bem-vindo. Ted apareceu minutos depois, como sempre, sem pressa. Veio sem palavras, sentou-se ao meu lado. Perto o bastante para que nossos ombros quase se tocassem, longe o suficiente para manter a ilusão de casualidade.  Ele não me olhou; eu também não. — Café ruim hoje? Olhei para as minhas mãos, onde ainda sentia o fantasma da textura do copo de plástico. — Do pior tipo. Sua voz era baixa. Sem fúria, sem urgência. Como tudo nele. Disse a ele que não precisava falar sobre aquilo. Que eu não queria. Mas ele insistiu com delicadeza, não com perguntas, mas com um pensamento. — Chico Xavier tem uma bela frase, da qual eu sempre gosto de me lem...

Aprendendo a Tragar (38)

Ainda estava sentada quando ouvi a porta ranger. Sofia entrou sem pedir licença. Tinha aquele jeito de quem pertence aos espaços antes mesmo de chegar. Trazia um copo de café e o cabelo preso com um lápis. Sentou-se na mesa, fechando a porta atrás de si com naturalidade. Disse que tinha visto quando eu saí da copa. Comentou que aquele idiota não valia a pena. Baixei os olhos. Ouvir aquilo era mais incômodo do que o ataque em si. Irritava-me, embora não soubesse bem por quê. Talvez porque Sofia fosse o tipo de pessoa que sabia se mover no mundo. Sabia rir na hora certa. Sabia ser vista sem se mostrar vulnerável.  Não respondi. O suor escorria da nuca até a espinha. A blusa colava na pele. Ela perguntou se eu estava bem. Assenti, mas o gesto foi automático. Sofia se acomodou na borda da mesa, de frente para mim. Seus joelhos quase tocavam os meus. Empurrou o copo de café em minha direção. Não toquei. Quando ergui os olhos, vi que ela me observava com atenção. Havia sinceridade no olh...

Aprendendo a Tragar (37)

Na copa, o cheiro de arroz requentado e gordura velha pairava no ar. As garrafas térmicas, rotuladas com etiquetas desbotadas, “forte” e “fraco”, ofereciam variações igualmente ruins.  Escolhi o forte. Servi num copo de plástico já deformado pelo vapor. Encostei-me à parede, observando o movimento. Dei um gole. Morno, amargo, triste. Engoli assim mesmo.  A voz que veio em seguida era alta demais para a intimidade do espaço. Comentava sobre minha seriedade, sobre como eu raramente falava. Dizia que ninguém sabia ao certo se eu era metida ou só muda mesmo. O tom era de brincadeira, mas o alvo era claro. Reconheci o dono. Um homem de meia-idade, sorriso torto, cheiro de desodorante vencido. Estava sempre por perto. Esperava uma brecha. Achou. Continuou dizendo que eu parecia sempre sozinha, cara fechada. Gargalhou, seco. Comentou que eu devia odiar gente. Alguns riram. Outros fingiram não ouvir. Ninguém disse nada. Coloquei o copo no balcão com mais força do que pretendia. O café...

Aprendendo a Tragar (36)

Saí da sala menor do que entrei. Fui ao bebedouro. Inclinei-me sobre a pia de alumínio e deixei a água escorrer pela garganta, deixando um gosto metálico. Percebi Sofia encostada na parede, a poucos passos de mim. Braços cruzados, expressão neutra, levemente divertida. Não disse nada. Não precisava. Sua presença bastava para tornar o desconforto mais nítido.  Aproximou-se com um meio sorriso, o tipo de gesto que tenta suavizar o constrangimento coletivo, e comentou que também odiava aquelas dinâmicas. Tentei rir, mas meus olhos ainda ardiam. Ela me olhou de lado, me enxergando por um ângulo que os outros ignoravam. Foi então que ela disse que eu era inteligente demais para aquele lugar. E mencionou minha tese. A tese. A parte em que eu discutia os mecanismos de dormência e germinação sob condições extremas. Como certas sementes, mesmo esquecidas por décadas, ainda guardam vida dentro de si. “Afilado” , foi o termo que ela usou. Aquilo me imobilizou. Ninguém jamais havia mencionad...

Aprendendo a Tragar (35)

O dia seguia abafado. Mal havia me sentado quando a coordenadora surgiu pelo corredor com aquele entusiasmo automático, o tipo de energia que geralmente precede alguma exposição coletiva disfarçada de descontração. Anunciou que faríamos uma dinâmica de integração. "Uma atividade para o time se conhecer melhor", disse. Assenti com a cabeça, tentando parecer segura, mas por dentro, algo já se encolhia. O velho aperto no estômago. A sala de reuniões havia sido transformada numa arena improvisada. As cadeiras dispostas em círculo, uma cartolina colorida ao centro, canetinhas hidrocor espalhadas ao redor.  Ted não estava.   Mas Sofia, sim.  Sentada de pernas cruzadas, mexia no celular com um ar entediado. Seus olhos passaram por mim como se eu fosse apenas parte do mobiliário. Reconheci alguns rostos, mas os nomes ainda me escapavam. A coordenadora distribuiu palavras e explicou as regras do jogo: trabalho em equipe, liderança, escuta ativa, criatividade. Conceitos genér...

Aprendendo a Tragar (34)

Respirei fundo, ajeitei a planilha, voltei a fingir que estava ocupada. Mas por dentro, eu tinha dezessete anos de novo. Sozinha num ginásio feio, de vestido azul-marinho, observando a vida passar por mim. Só que agora era pior. Porque agora eu sabia como era ser vista. Mesmo que por minutos. Mesmo que de forma confusa. E saber o gosto da coisa torna a ausência muito mais aguda. Levantei-me abruptamente da mesa, surpreendendo Sofia, que ainda organizava os seus papéis. Caminhei direto para o jardim, precisando desesperadamente de algo que me arrancasse daquela sensação de estar desaparecendo. O ar lá fora estava pesado; carregado de umidade e de promessas de tempestade. Acendi outro cigarro. Apenas puxava a fumaça para a boca e soltava, sem tragar.  Fechei os olhos e, de repente, estava de volta ao laboratório de biologia da escola. Quinze anos. Escondida atrás dos armários de reagentes segurando um cigarro. Não era meu cigarro. Era de um garoto que sentava na última fileira e se...

Aprendendo a Tragar (33)

Quando Ted se levantou para buscar café, Sofia não perdeu tempo. Em menos de um minuto, já caminhava ao lado dele, meio passo atrás, inclinando a cabeça sempre que ele falava, rindo de qualquer coisa que ele dissesse. Fiquei observando de longe, como sempre. Foi aí que me ouvi dizendo, quase sem pensar, jogando palavras ao vento: — Já te contei da minha formatura do ensino médio? O faxineiro passava pano ali por perto, nem sei se ouviu direito. Mas continuou ali, então continuei também. — Ginásio da escola, luzes piscando, papel crepom desbotado. Eu, de vestido azul-marinho que minha mãe escolheu. “Clássico e apropriado”, ela disse. Ele parou de esfregar o chão por um instante. Talvez tenha estranhado o rumo da conversa. Talvez tenha se interessado. Não sei. — Fiquei duas horas sentada numa cadeira de plástico, vendo os outros dançarem. Rindo. Se beijando.  Parecia que todos tinham recebido um manual de instruções que esqueceram de me entregar.  Meus pais disseram que eu...

Aprendendo a Tragar (32)

Sofia quis saber se eu já tinha trabalhado com relatórios daquele tipo. Respondi que sim, e quando ela perguntou se eu gostava da experiência, limitei-me a dizer que era apenas trabalho. Ela riu, um riso breve, que soou mais por obrigação que por graça genuína. Comentou que, às vezes, sentia que passava mais tempo na burocracia do que em algo realmente útil. Não respondi. Nunca soube distinguir se palavras assim vinham de uma tentativa de aproximação ou apenas da necessidade de preencher o silêncio. Interações sociais sempre me pareceram um idioma estrangeiro: sei dizer "olá", "obrigada", mas ignoro a gramática real, os subtextos, as cortesias disfarçadas, os jogos encobertos. Em algum momento, ela quis fazer uma pergunta pessoal. Meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar. Disse que dependeria da pergunta. Mais uma tentativa de manter algum controle.  Ela quis saber se eu sempre fui assim; reservada.  “Reservada”. Um eufemismo generoso. Queria dizer “estranha”....

Aprendendo a Tragar (31)

Voltamos para dentro. E, nesse retorno, algo em mim havia mudado de forma imperceptível, mas já pulsava. Não sabia exatamente o quê, mas era como uma possibilidade perturbadora, uma vibração tênue nas bordas da consciência, que abalava minhas antigas certezas. Instantaneamente, minha mente buscou refúgio na lembrança da faculdade, onde meu santuário era a biblioteca. Os livros de biologia me ofereciam o que o mundo real nunca foi capaz de oferecer: previsibilidade absoluta. Células se dividiam com lógica inabalável. Reações químicas obedeciam a regras imutáveis. Aquele universo era compreensível. Seguro. Passei tardes inteiras entre anatomias, fisiologias, atlas e tratados. O bibliotecário me conhecia pelo nome. Cheguei a ganhar um prêmio ridículo por ser a aluna que mais retirava livros. Guardei o certificado. Ainda o tenho. Naquele tempo, estar sozinha era uma escolha. Hoje, parecia uma condenação. A voz de Sofia me trouxe de volta ao presente. Tentei disfarçar o susto com um coment...

Aprendendo a Tragar (30)

Sofia apareceu pouco depois, carregando uma pilha de papéis e aquele perfume que sempre me dava vontade de abrir todas as janelas.  Puxou uma cadeira e se sentou perto demais.  Comentou que tinha ouvido dizer que eu precisava de ajuda. Continuei olhando para a tela, fingindo concentração, enquanto cada palavra dela me atravessava. Começou a falar de prazos e planilhas, mas eu mal escutava. Só conseguia me perguntar se havia intenção por trás de cada gesto. Se aquela proximidade era espontânea ou cuidadosamente ensaiada.  Se ela sabia de algo entre mim e Ted.  Mas como poderia?  Nem mesmo nós sabíamos o que éramos. Sugeriu dividir as tarefas. Imaginei que fizesse isso com todo mundo: divisões discretas, sempre a seu favor. Respondi que preferia entender o material, antes de dividir qualquer coisa. A firmeza da minha voz me surpreendeu , e, ao que parece, surpreendeu a ela também. Percebi quando ela piscou, um pouco confusa. Os olhos dela sempre me deram a impress...

Aprendendo a Tragar (29)

No domingo, Ted não falou comigo. Eu também não enviei mensagens. Estava hesitante. Tentava evitar a pergunta que latejava desde a noite de sexta. Passei o sábado inteiro tentando não formulá-la em voz alta. A segunda-feira chegou com uma chuva fina e um céu cor de chumbo. Peguei o ônibus de sempre. Nada de Ted. O trabalho ainda cheirava a café fresco quando entrei. Ajeitei alguns papéis, peguei o celular, verifiquei as mensagens. Nenhuma. Ted já deveria ter chegado. Quando entrou com cabelo ainda úmido da chuva, evitou me olhar. Murmurou um “bom dia” para o ar e foi direto ao armário. Esperei. Quando enfim passou por mim, nossos olhos se cruzaram por um segundo. — Perdi a hora — disse, como se eu tivesse perguntado. — Imagino — respondi, voltando a digitar. O dia se arrastava, até que a coordenadora apareceu com aquele sorriso forçado que ela reservava às pequenas desgraças burocráticas. A coordenadora deixou uma pasta sobre a minha mesa e anunciou, com aquele tom form...

Aprendendo a Tragar (28)

As calçadas refletiam os letreiros em neon. Havia fumaça no ar, risos altos, uma música abafada vindo de algum lugar indefinido. Minhas unhas escuras tamborilavam o couro falso da bolsa. Ted me olhava com desejo transparente, quase impaciente. Seus olhos se inclinavam em direção à minha bolsa com uma súplica muda. Ele queria ver. Abri a bolsa com calma. O maço estava logo ali. Retirei um cigarro com cuidado, encostei nos lábios. Guardei o maço. Fechei a bolsa. Ah, o isqueiro. Tinha esquecido o isqueiro. Ted revirou os olhos como quem diz “não acredito”. Abri a bolsa de novo, vasculhei até encontrar. Quando o peguei, ele soltou um “finalmente” aliviado. Ri com o cigarro ainda nos lábios. Acendi com certa hesitação. Ele não percebeu. Fumei sem tragar. Deixei que a fumaça fluísse pela boca num gesto calculado de charme. Ted, devoto, aproximou-se para contemplar uma deusa em transe. — Isso. Assim. — sussurrou, com os olhos acesos. — Você fica linda fumando. Ri baixinho. Joguei o cabelo p...

Aprendendo a Tragar (27)

Ainda era cedo. O bar continuava meio vazio. Pedi para darmos uma volta. Queria mais privacidade. A noite estava fria, mas recusei o casaco. Queria ser vista. Lembrada. Após pagarmos a conta, andamos até a saída. Passamos por um longo quadro protegido por vidro. Vi nosso reflexo ali. Por um breve instante, percebi. O vestido branco, o botão perolado, o tecido opaco, o comprimento contido, a meia-calça escura... Havia algo casto demais. Eu não parecia sensual. Eu parecia... salva. Já na calçada, Ted comentou com voz mansa, rindo: — Por um momento, quando você chegou... achei que tinha vindo direto do culto. Meu coração travou. — Como assim? — Sei lá... o vestido. O jeito. Parecia que tinha saído de uma vigília. Acho que todo mundo no bar pensou isso. Tava todo mundo olhando. Achei que fosse começar a pregar a qualquer momento. Na hora eu não entendi. Mas agora, lembrando do olhar dele, do jeito como seus olhos passaram brevemente pelo meu ombro, como se checasse se eu trazia u...