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Mostrando postagens de março, 2026

Mentor Imperfeito (22)

Terminei o bolo e comecei a juntar os copos para levar à pia, mas minha tia fez um gesto com a mão, pedindo para eu deixar pra lá. Apoiou-se no balcão, alcançou o maço de cigarros, puxou um e o prendeu entre os lábios. Um clique seco. A chama cintilou e tocou a ponta, que acendeu num brilho laranja intenso. Ela tragou e soltou a fumaça devagar, inclinando a cabeça para trás. O rastro cinza subiu reto no começo, para depois se desfazer em espirais preguiçosas. Fiquei ali, sentindo o cheiro se espalhar. Meu corpo reagiu antes de qualquer decisão; levei a mão até minha pequena bolsa e tateei o meu próprio maço. Minha tia sorriu levemente, levantou-se e, com afabilidade, chamou-me para a varanda, comentando que o ar da tarde estava parado e que um pouco de vento nos faria bem. Eu me levantei e a segui pela sala. O gato na cadeira esticou-se preguiçosamente, ignorando nossa passagem. Minha tia olhou para ele e disse que devia ser de algum vizinho, mas que não adiantava pô-lo para fora: ...

Mentor Imperfeito (21)

Comecei a falar, e as palavras saíram misturadas com a vontade de chorar, que eu vinha segurando desde a casa dos meus pais. Contei que minha mãe não tinha nem aberto o portão. Que ela ficou parada, fria, me olhando pelo vão, uma estranha indesejada à sua porta. Minha tia estendeu o braço e segurou minha mão por cima da mesa. Apertou meus dedos, aguardando minha respiração serenar. Sua palma era quente e áspera, cheia de calos, mas o toque era gentil. Com a voz mansa, afirmou que eu ficaria ali pelo tempo que fosse preciso. Garantiu que daríamos um jeito nos documentos, que eu não estava sozinha, que não fizera nada de errado e, principalmente, que não havia motivo para vergonha. A desordem aconchegante da cozinha ao nosso redor exibia potes de vidro espremidos na prateleira: alguns com etiquetas escritas à mão, outros revelando o conteúdo somente pela própria transparência. Um pano de prato com bordado pendia torto no forno e, em cima da geladeira, uma caixa de remédios, mistura...

Mentor Imperfeito (20)

Retornei para a casa da minha tia no início da tarde. O sol estava morno naquele horário. Os documentos haviam ficado na casa dos meus pais, trancados junto com tudo o que eu tinha sido um dia. Saí do elevador e encontrei a porta do apartamento aberta. Ao lado dela, um vaso de jasmins. Entrei devagar, fechei a porta. A sala tinha cores quentes e aquele cheirinho de bolo assando e café fresco. Parei na porta da cozinha. Minha tia puxou uma cadeira e me serviu um copo. Ela disse que eu tinha chegado bem na hora, que o café tinha acabado de ficar pronto. Puxei a cadeira e sentei. Tomei um gole. Estava forte. Enquanto o bolo esfriava na bancada, em sua forma velha de alumínio, observei a luz que vinha da janela e batia na louça no escorredor. Enquanto enxaguava uma colher, minha tia me perguntou se eu achava que a orquídea que estava sobre o aparador combinava com o vaso de jasmins lá fora, na porta. Ela estava na dúvida se trocava ou não. Levantei e fui até a sala para ver melhor. A o...

Mentor Imperfeito (19)

Deixei a casa da minha tia com uma única certeza: a de que precisava recuperar minha identidade civil. Pelas vitrines do caminho, via meu reflexo amarrotado, incompleto. Caminhei devagar, precisava de tempo, desejava que o esforço físico atrasasse o inevitável. Ao chegar à portaria, parei diante da portinhola de metal, pintada de um cinza-claro, que dava direto para a calçada movimentada. Era baixa, inexpressiva. Toquei o interfone. Esperei. Nada. Toquei novamente, desta vez segurando o botão por mais tempo, insistindo na minha existência. Ao todo, foram quatro vezes. A voz da minha mãe finalmente saiu pela caixa de som, perguntando quem era. Identifiquei-me e expliquei que precisava subir apenas para pegar meus documentos, lembrando que ela tinha ficado com minhas chaves no dia em que me expulsou. A resposta veio rápida e seca, afirmando que não havia nada para mim ali e dizendo que eu devia ir embora. O estalo do desligamento cortou a conversa antes que eu pudesse argumentar. N...

Mentor Imperfeito (18)

Quando terminei, ela pousou o copo sobre a mesa e ficou olhando para o fundo do vidro por um momento . O rádio continuava tocando baixinho, agora com Meu Primeiro Amor de Cascatinha & Inhana , preenchendo as lacunas da conversa. “Você nem sequer se lembra / De ouvir a voz desse sofredor / Que implora por seu carinho / Só um pouquinho do seu amor.” Com os olhos ainda na mesa, ela falou que eu precisava tentar reaver meus documentos, que devia voltar lá e tentar, já que não tinha nada a perder. Então perguntei por que ela estava me ajudando. Ela ficou em silêncio por um instante antes de responder. “Nesta solidão / Sem ter alegria, o que me alivia são meus tristes ais / São prantos de dor que dos olhos caem / É porque bem sei, quem eu tanto amei não verei jamais.” Então, olhou para mim e disse apenas que o fazia porque ninguém tinha feito por ela. Não ousei acrescentar nada. Não havia espaço para explicações ou drama. Era uma verdade entregue com sobriedade. Terminamos o...

Mentor Imperfeito (17)

Acordei mergulhada em um silêncio inquieto. Um cheiro quente de café recém passado insinuava-se pelo quarto, misturado à voz baixa da minha tia que acompanhava a música do rádio. “O carro de boi lá vai, gemendo lá no estradão / Suas grandes rodas fazendo, profundas marcas no chão / Vai levantando poeira, poeira vermelha, poeira / Poeira do sertão.” Aquela estrofe de Poeira na voz de Pena Branca e Xavantinho bastou para eu entender que já não estava na casa dos meus pais. Ali, cada detalhe anunciava uma rotina nova, ainda sem forma. Fiquei deitada por alguns minutos, tentando reconhecer meu corpo naquele espaço estranho. Quando finalmente me levantei e saí do quarto, ela estava na cozinha, de costas, mexendo uma colher dentro da pequena panela onde esquentava leite. O vapor subia e se desfazia assim que tocava a luz pálida que entrava pela janela. Ela virou o rosto de leve apenas para confirmar que eu havia acordado. Avisou que o café estava quase pronto e indicou que eu me senta...

Mentor Imperfeito (16)

Caminhei até o quarto e deitei na cama alheia. Fiquei olhando o teto, ouvindo os sons que vinham de fora. Vizinhos discutindo em algum apartamento próximo. Um ônibus passando na rua. O zumbido constante da vida que ignora as tragédias individuais e segue seu curso indiferente. Apanhei o telefone sobre a mesa de cabeceira. Ensaiei mentalmente um pedido de desculpas por existir do jeito que existia. Pensei em dizer que estava bem, que tinha encontrado um lugar para ficar. Mas não fiz nada disso. Larguei o telefone de volta e virei de lado. Minha tia bateu à porta com duas pequenas batidas antes de entrar. Trazia lençóis limpos e os colocou aos pés da cama. — Você fez a coisa certa — disse. Saiu antes que eu pudesse responder. Fiquei muito tempo olhando para a porta fechada, repetindo mentalmente aquelas palavras, tentando acreditar nelas. Quando a noite lá fora se aquietou, levantei e fui até a janela. O céu urbano era uma abóbada escura, pontilhada pela luz que vinha dos poste...

Mentor Imperfeito (15)

No início da noite, minha tia sugeriu que eu tomasse um banho. Fiquei parada no batente da porta enquanto ela abria o armário e retirava uma toalha azul, com um perfume suave de lavanda. Depositou-a sobre a pia, e o tecido felpudo se acomodou ali. Abri a torneira. Deixei a água correr antes de tirar a roupa que vestia há dois dias. O barulho do chuveiro virou a única coisa concreta naquela casa estranha, o novo abrigo do meu corpo expulso. Observei o vapor subir, embaçando o espelho até apagar o meu reflexo. Fiquei diante dele por um instante, na expectativa de que a ausência da minha imagem me permitisse existir de outro modo. Despi-me lentamente, sentindo o ar frio arrepiar a pele, e entrei na água. O calor envolveu minhas pernas, meu ventre, meu busto, numa tentativa de dissolver a tensão que se instalara. Redescobria minha própria nudez agora que era a única proprietária da minha carne. A esponja passou pelo pescoço e desceu pelo colo; toquei-me com firmeza, confirmando que as ...

Mentor Imperfeito (14)

Quando terminei, ela apagou o cigarro. Disse que não entendia a violência do meu pai. Que ele havia feito comigo, o mesmo que havia sido feita a ela. Aos quinze anos engravidou. Seu pai, meu avô, expulsou-a na mesma noite em que descobriu. Chamou-a de vergonha. Disse que não queria mais vê-la. Naquela noite dormiu na rua. Depois, uma amiga a acolheu. Poucos parentes ajudaram. Meu pai não foi um deles. Ela trabalhou limpando casas, teve o bebê sozinha, criou o menino sozinha. Disse que meu pai sabia de tudo. Ele vira o que acontecera com ela. E, mesmo assim, repetia a história, como se fosse natural, como se fosse certo. Enquanto ela falava da surpresa amarga de ver o irmão reproduzir a violência que destruíra sua juventude, senti algo se “rearranhar” dentro de mim. A ferida do abandono não desapareceu, mas encontrou ali um espaço para respirar sem medo. Minha tia não oferecia conselhos. Oferecia abrigo. Acolhia sem perguntas, reconhecendo em mim a cicatriz que ela também carregava....

Mentor Imperfeito (13)

Ela surgiu no vão da porta. Mais alta do que eu imaginara. Cabelos curtos, tingidos de um castanho avermelhado. A blusa larga, a calça jeans desbotada. O cigarro aceso equilibrado entre os dedos iluminava o rosto por instantes, revelando uma surpresa atônita que se dissolveu rápido, substituída por algo que eu reconhecia, e me reconhecia. Os olhos escuros percorriam meu rosto, desciam pelo meu corpo, voltavam, conferindo cada detalhe com a lembrança que ela guardava. Deu um passo à frente e me puxou para um abraço longo. Senti o peito dela subir e descer contra o meu. Não soltou. Fiquei ali, rígida primeiro, depois me rendendo àquela proximidade que eu não sabia receber. Quando enfim me soltou, murmurou que eu estava igual à minha avó. Uma constatação viva, carregada de memória. Havia ali um passado que me antecedia, e do qual eu fazia parte sem entender. Ela me conduziu para dentro. A casa tinha uma vitalidade discreta. Luz entrando pelas janelas, cortinas amarelas meio abertas. U...

Mentor Imperfeito (12)

Parei diante do prédio. Sua fachada alta erguia-se em fileiras de janelas idênticas, escalando o concreto bege e branco. O térreo, porém, era uma barreira sólida de tijolos marrons, separando a vida privada da rua. Abriguei-me sob o toldo escuro e curvado que protegia a entrada. As grades brancas do portão, verticais e rígidas, impunham um limite que eu hesitava em cruzar. Estendi a mão até o interfone preto fixado na parede de tijolos. Meu dedo pairou sobre o botão. Trêmulo. Paralisado. O simples receio de anunciar minha presença bastou para me congelar. Fiquei ali. Parada. Olhando. O silêncio do trânsito preenchendo o vazio da minha inércia. Pressionei o botão. O som fraco do interfone cortou o silêncio antes de se perder no corredor interno do prédio. Esperei. Uma voz calma, direta, perguntou quem eu era. Por um instante, hesitei. Disse meu nome. A palavra pairou no ar. Estranha e insuficiente. Carregava apenas um fragmento daquilo que eu fora. Ou daquilo que eu temia ser. Q...

Mentor Imperfeito (11)

Quando Ted terminou de falar, pousei a xícara de café na mesa e peguei o livro. Quando li Não Me Abandone Jamais, senti algo de insuportavelmente familiar naquele mundo de cópias programadas para morrer, fingindo viver na esperança de que o simulacro bastasse. Na doçura devastadora de Kathy, agarrando-se a cada pequeno momento, tentando preservá-lo para sempre na linguagem. A ingenuidade de Kathy me destruiu, ao testemunhar sua crença de que o amor seria suficiente para adiar a morte. Assisti-la agarrar-se a esta fé inabalável, nessa necessidade cega de acreditar que o amor vale alguma coisa diante do inevitável. No entanto, essa crença é apenas um mecanismo de defesa. Uma ilusão necessária para suportar o fardo da finitude. O subconsciente cria essa fantasia para proteger a mente diante de um colapso iminente, saciando nossa necessidade profunda de conexão enquanto segurança existencial fantasiosa.  Por isso, o seu pedido — " não me abandone jamais " — não é um apelo...

Mentor Imperfeito (10)

Ted fez uma pausa. A ponta do dedo deslizou pela porcelana da xícara antes de continuar. O que mais o incomodava no livro era, justamente, a passividade dos personagens. Eles conhecem o destino que os espera e, ainda assim, não se rebelam. Consideram a fuga, falam sobre isso, mas nunca partem. Essa resignação não é um defeito da narrativa; mas sim o seu coração. Os doadores foram condicionados desde crianças a aceitar seu papel. Mesmo que tentassem escapar, não teriam para onde ir: não possuem documentos, família ou vínculos com o mundo exterior. Sua educação não os preparou para trabalhos comuns; a sociedade que os criou também os teme e os desumaniza. Ninguém os ajudaria. A submissão dos doadores é um espelho da nossa. Quantas vezes aceitamos regras que nunca escolhemos? Estudar, trabalhar, pagar contas, seguir uma trajetória pré-estabelecida. Convencemo-nos de que não há alternativa, de que o mundo simplesmente funciona assim. Somos ensinados, desde cedo, a não questionar certas est...