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Mostrando postagens de dezembro, 2025

A Euforia Pós-sexo (34 - Final)

Infelizmente, sem a plateia, o fascínio pela “noite”, que outrora me consumia, desapareceu, deixando apenas a incompreensão. Lá dentro, o bar seguia apático, até que uma voz rompeu o murmúrio constante: — Tudo bem, a gente faz do seu jeito. Aquela frase me lembrou de todas as vezes em que disse “sim” quando deveria dizer “não”; das opiniões que engoli calada depois de aprender, da pior maneira, que o amor exigia sacrifícios. E eu, criatura dócil, me aprimorei no sacrifício de mim mesma. Durante anos, fui moldada pelas expectativas dos meus pais. Cada uma delas representou uma parte que precisei suprimir ou modificar. Sentada ali, sob as lâmpadas amareladas, entendi que o mundo antigo, aquele no qual aprendera a amar através da subtração, já não me servia. Me arrumar no espelho havia se tornado um exercício de arqueologia emocional, uma tentativa de encontrar quem eu poderia ter sido. E reconhecer isso custou caro: significava admitir que desperdiçara anos cultivando uma versão que ex...

A Euforia Pós-sexo (33)

No ônibus da volta, os assentos se encontravam, impregnados do cansaço alheio. As janelas riscadas mostravam apenas vultos rápidos demais para serem reconhecidos. O celular vibrou. Ted queria saber por que eu tinha ido trabalhar com a camiseta dele. Não estava irritado; pelo contrário, parecia se divertir com a ideia, mas deixava claro que preferia ter mantido tudo entre nós. Fiquei olhando as palavras na tela. A camiseta ainda colada na pele, uma prova de que a noite não terminara. Não havia culpa, tampouco orgulho; apenas uma vontade de prolongar a sensação de ser observada por um sistema maior que nós dois. Quando entrei em casa, ignorei a solidão da sala e fui direto para a cozinha. As chaves do carro da minha mãe estavam sobre a mesa, misturadas à correspondência. Peguei-as sem fazer barulho e fugi. Dirigi sem rumo, sem mapa, sem qualquer expectativa de saída. O trânsito rareava conforme eu avançava entre muros pichados e vitrines vazias. Parei num bar sem nome, com mesas grudenta...

A Euforia Pós-sexo (32)

Ted ainda dormia quando me levantei. Nossas roupas espalhadas pelo chão forneciam um mapa silencioso do que havia acontecido. Contornei a cama sem fazer ruído e o observei uma última vez antes de abrir sua bolsa. Meus dedos encontraram o tecido macio e limpo de sua camiseta reserva. Dobrei-a rápido, escondendo-a no fundo da minha mochila. Um furto pequeno, mas necessário. Enrolei de propósito esperando que Ted saísse apressado para o trabalho. Quando ele desceu, me vi finalmente sozinha. Vesti a camiseta devagar, sentindo o tecido abraçar meus seios ainda sensíveis. No espelho manchado, encarei uma versão provisória de mim mesma; alguém que existiria apenas por algumas horas antes de se dissolver no caminho de volta para casa. Já na rua, acendi um cigarro. Fumei com calma, deixando a fumaça impregnar a malha roubada. Uma confissão silenciosa que eu carregaria no corpo. No trabalho, as luzes frias não perdoavam. O ar era neutro, controlado, inodoro. Caminhei pelos corredores sentindo o ...

A Euforia Pós-sexo (31)

A segunda vez foi ainda mais ritualizada. Ted conduziu cada movimento; suas mãos exploravam minha pelve em sincronia com o ritmo da fumaça que eu exalava. Ele me posicionou contra a cabeceira, pernas esticadas, segurando meus antebraços e forçando-me a manter o cigarro preso apenas pelos lábios. Inclinou a cabeça entre minhas coxas. Língua e fumaça no mesmo compasso. — Mais devagar... — murmurou ele, quando minha respiração acelerou. — Deixa que “ele” tome conta de você. Eu me entregava, permitindo que a sensação se estendesse até a beira do insuportável. Depois, levou-me ao chuveiro. A água morna caía em fios irregulares e a pressão fraca criava uma chuva hesitante sobre nossos corpos entrelaçados, mas Ted conseguia fazer até aquilo parecer intencional. Num impulso, saí do box apenas para resgatar o maço na beira da cama e acender um. Voltei para a água e, entre uma carícia e outra, pousava-o na borda da pia, esticando o braço para fora do jato. O vapor se misturava à fumaça, criando...

A Euforia Pós-sexo (30)

Ted se recostou na cama estreita, o lençol mal esticado deslizando de seu peito. Eu sentia seus olhos fixos em mim. Sempre havia uma breve hesitação quando eu levava o isqueiro à boca e ouvia o clique seco da chama. O brilho efêmero da brasa, quando eu tragava, o mantinha imóvel, temendo que qualquer gesto banal pudesse quebrar o instante. Aspirei devagar, sentindo a fumaça raspar a garganta, e deixei escapar um fio fino em direção ao teto. Ted seguia cada mínimo gesto meu: o levantar do ombro, a curva dos dedos, as pequenas centelhas caindo quando bati as cinzas no chão. Ele se aproximou. Deixei a fumaça acumular entre nós antes de soprá-la devagar contra seu rosto. Seus olhos se fecharam por um instante; senti sua mão firme no meu quadril. O ar tornava-se mais denso a cada tragada, desacelerando cada movimento. A brasa o roçava ocasionalmente numa proximidade calculada que me fazia estremecer. O gosto do tabaco que eu infundira em sua boca era intenso, quase medicinal, misturando-se ...

A Euforia Pós-sexo (29)

O hotel parecia existir apenas na memória de quem o olhava. A fachada, desbotada, ignorava o mundo com sua porta sempre fechada, indiferente à transição entre o dia e a noite. Ted pagou o quarto antecipadamente, passando as notas amassadas para a mão da mulher na recepção. O som da sua televisão, abafado e constante, competia com o ruído da nossa conversa fragmentada. Atrás do balcão, ela nem sequer ergueu os olhos; apenas deslizou a chave sobre a superfície enquanto a luz fluorescente piscava, intermitente. No interior, um quarto de paredes finas e janela sem cortina deixava o frio entrar sem resistência; feitas, apenas para ouvir, não para proteger. Não havia silêncio, apenas uma suspensão inquietante de ruídos. A luz amarela expunha a tinta descascada, fazendo o ambiente parecer mais antigo do que realmente era. Os poucos móveis tinham o ar exausto de quem já serviu a muitos corpos que nunca voltaram. Nada ali existia para confortar. Não sei dizer quando a noite começou a se desmanc...

A Euforia Pós-sexo (28)

O dia inteiro foi um incômodo. O telefone, o arrastar de cadeiras, o bater do teclado; tudo irritava. Mas nada feria mais que a lembrança de Sofia cruzando o corredor. Empurrei a porta do banheiro feminino. O eco bateu contra as cabines vazias. Escolhi a última. A fechadura girou com um clique seco. Ninguém precisava saber de Ted e de mim. Mas se soubessem, talvez ela recuasse. Ou talvez não. Talvez transformasse o conhecimento em um palco ainda maior. Na minha cabeça, cada gesto dela se repetia: o riso com a cabeça jogada para trás, o lábio preso entre os dentes quando falava. E, sobretudo, os dois botões a menos na blusa quando sabia que ele chegava mais cedo. O maço pesava no bolso, junto ao isqueiro novo, vermelho. O cigarro deslizou para os lábios com familiaridade. A chama surgiu tímida, mas furou o ar estéril do banheiro; dançou por dois segundos antes de tocar o tabaco. Uma pequena transgressão.  A nicotina afrouxou meus ombros. Por alguns minutos, aquele espaço era um sant...

A Euforia Pós-sexo (27)

Na manhã seguinte, a umidade pairava no corredor do trabalho, onde a luz artificial empalidecia o ambiente. Sob o silêncio fosco, o som dos passos morria no piso e as vozes baixas ficavam presas às paredes. Percebi Sofia antes de vê-la. O perfume se impunha ao nariz. Depois veio a figura: minissaia de lã escura acima dos joelhos, meia-calça grossa e passos que mal tocavam o chão. O sorriso, que era só lábios, sem boca. Os olhos dela encontraram Ted através do vidro; não o homem distraído entre os papéis, mas o Ted refletido, multiplicado pelo brilho da vidraça, onde cada gesto dele se repetia com um leve atraso. Ela entrou com naturalidade. O som dos saltos era calculado, impondo um ritmo próprio ao ambiente. Senti a sala mudar de textura, o tempo desacelerar. Sofia encostou no batente e riu de algo que não ouvi. A risada não tinha direção, apenas se espalhou. Vi o ombro dela se inclinar, a cabeça pender para o lado e o dedo percorrer a borda da mesa dele com suavidade. Ted ergueu os o...

A Euforia Pós-sexo (26)

O corredor do meu prédio tinha o cheiro estagnado de desinfetante preso em um ciclo sem ar fresco. Subi devagar, calculando o intervalo entre os meus passos para que não soasse como pressa. A porta do apartamento estava entreaberta. Um detalhe mínimo, mas suficiente para acender um alerta no estômago. Entrei. A sala me recebeu com a disposição imutável de sempre: o sofá voltado para a televisão desligada, o tapete gasto formando sulcos onde os pés dos meus pais se fixavam noite após noite, e a cristaleira cheia de copos que nunca eram usados. Minha mãe estava na poltrona, folheando uma revista velha, as páginas marcadas por dobras irregulares. Meu pai, ao lado, girava o relógio no pulso, ajeitando-o e desajeitando de novo, até levantar os olhos quando fechei a porta. — Onde você estava? — perguntou ele, sem rodeios. Eu disse que tinha ido ao sebo. Percebi que meu tom estava um pouco mais agudo. Minha mãe baixou a revista devagar, olhando por cima das páginas com um sorriso tênue. — Até...

A Euforia Pós-sexo (25)

Tentei comentar algo sobre o enredo, mas minha voz saiu mais baixa do que pretendia. Ted não pareceu notar. Continuou falando sobre o fascínio que tinha por lugares isolados, onde o tempo se dobra e o resto do mundo desaparece. Eu lhe perguntei se ele imaginava que poderíamos viver assim também, protegidos de tudo. O problema é que não estávamos. Eu carregava escondido um mundo inteiro que nunca coube nas nossas conversas. Levei a mão disfarçadamente ao bolso, segurei o celular e fechei os olhos. A lembrança do bar voltou; o riso que talvez ele tivesse dado ao vê-la. Eu fingia que aquilo não me incomodava, mas ainda doía. Quando saímos do sebo, ele ainda falava do livro. Eu respondia com frases curtas, algumas até deslocadas. Tentava me esquivar. Ele apertou minha mão e eu deixei, imóvel, como se fosse só um gesto protocolar. No fundo, tinha medo de que ele percebesse o espaço que crescia entre nós. Seguimos até uma praça silenciosa, onde o sol começava a se inclinar. Sentamos lado a l...

A Euforia Pós-sexo (24)

A melancolia daquela noite não se dissipou com o passar dos dias. Quando Ted me ligou, sua voz alegre e a promessa de uma tarde tranquila me pareceram uma chance de fuga. Eu me agarrei à ideia de um café e uma conversa, mas, assim que o encontrei, senti que o mal-estar me seguia. Ted me falava distraído sobre "Horizonte Perdido", tentando explicar por que detestava finais ambíguos. Caminhávamos devagar, sem destino, deixando que a tarde se estendesse no compasso dos nossos passos. Eu o escutava, mas a atenção oscilava entre a cadência da sua voz e a amargura com que a vida me tratava. Havia algo no rosto de Ted que me perturbava. Uma assimetria quase imperceptível no sorriso. Era nesses momentos que eu sentia o impulso de interrompê-lo com um beijo. Ele gesticulava, explicando como James Hilton havia construído Shangri-La. As mãos desenhavam arcos no ar morno da tarde enquanto falava sobre a diferença entre escapismo barato e utopia genuína. Eu mantinha o olhar fixo nele, ass...

A Euforia Pós-sexo (23)

O sonho me perseguiu. Caminhei pela casa em silêncio, buscando acalmar-me com o atrito dos pés contra o chão frio. Parei diante da estante. Os olhos deslizaram pelas lombadas até que os dedos encontraram o volume gasto de “O Amante”. A capa, áspera e marcada pelo tempo, tinha um tom indefinido. Sentei-me à mesa, mas não consegui abrir o livro de imediato. Passei os dedos pela textura áspera da capa, sentindo as bordas amareladas onde meus dedos deixaram sua pátina. O cheiro do papel me deslocou da sala, levando-me para aquela tarde no sítio, onde o jornal sobre o peito do meu pai subia e descia ao ritmo da respiração. As palavras que um dia escondi entre as pernas cruzadas na varanda dos fundos agora me vinham com outro peso. Naquele tempo, eu não entendia tudo. Hoje, entendia mais do que queria. Eu sabia o que era chegar atrasada a algo que começou cedo demais. Eu lia, e o corpo da menina de pés frios, inclinada sobre o livro, respondia diferente. As mesmas palavras que antes me parec...

A Euforia Pós-sexo (22)

Acordei com o peito arfando, parecia que tinha corrido por corredores intermináveis. O quarto estava mergulhado em silêncio, coberto pelo pesado tecido da escuridão. O lençol grudava na pele úmida; a respiração seguia acelerada, e um suor frio escorria pelas minhas costas. O sonho ainda vibrava, latejando por trás da memória. Eu estava diante do espelho do meu quarto, ou, pelo menos, de algo que se fazia passar por ele, e via minha mãe ali. Não exatamente como a lembrava, não no corpo que reconheço. Vestia minha blusa azul, a mesma que Ted já arrancara de mim com uma impaciência quase terna. Tragava um cigarro com uma calma ensaiada. Nela, havia uma autoridade silenciosa. A fumaça, em vez de subir livre, espalhava-se lenta e densa, criando uma atmosfera própria. No reflexo, ela me encarava com um olhar resoluto. Não era o olhar de mãe; era outro, insondável. E então, já não havia quarto: eu estava diante de um espelho d’água, sozinha no deserto, enquanto o vento esvoaçava minhas vestes...

A Euforia Pós-sexo (21)

Deixei o celular de lado e fiquei alguns segundos olhando o teto. Levantei devagar. Pisei nas bordas dos chinelos, deslizando-os pelo corredor, sem fazer barulho. A luz branca do banheiro acendeu com um estalo seco, revelando o armário do espelho com a porta entreaberta. Dentro, encostada no canto, avistei a vela aromática da minha mãe. O vidro era fosco, a tampa de madeira, e o rótulo tinha as letras já meio apagadas. Fechei a porta sem pensar e continuei minha higiene noturna.  Na cozinha, procurei por um copo de água. A luz fraca sobre a pia revelou uma xícara no escorredor. Ainda havia uma mancha escura no fundo, vestígio da disciplina que minha mãe mantinha todas as noites: café, oração e, depois, a ronda para verificar se estávamos "seguros". Peguei-a para lavar; era automático. Ao aproximá-la do nariz, senti o aroma residual do café.  Foi então que percebi: o cheiro do bar ainda estava em mim. No cabelo, na pele, nas roupas. Uma mistura de fumaça, suor e cerveja. Meu o...

A Euforia Pós-sexo (20)

Caminhei devagar pela calçada deserta, tentando esticar cada passo, cada segundo da liberdade que ainda me restava. As janelas dos apartamentos se erguiam igual a olhos fechados acima de mim, e me perguntei como seria viver em qualquer um deles. Acordar sem precisar explicar onde estive na noite anterior. O prédio onde morava apareceu à minha frente. Subi as escadas pisando nas bordas dos degraus. No terceiro andar, encostei a orelha na porta antes de girar a chave na fechadura. Silêncio. Consegui chegar ao meu quarto sem acender as luzes do corredor. Deitei na cama sem tirar os sapatos. A vibração do celular no bolso era uma pequena provocação noturna, iluminando o teto escuro. Destravei a tela. A mensagem de Ted: “Olha só quem está aqui.” Logo abaixo, a imagem se abriu. A cena era familiar. O mesmo bar de luzes murchas, paredes manchadas de cartazes e vozes soterradas por um rock antigo. Mas agora, uma mulher sozinha ocupava o banco onde, pouco antes, eu estivera sentada. O c...

A Euforia Pós-sexo (19)

Foi então que ele comentou, sobre um pub que só abria às onze. Um lugar de fama antiga e fila na porta. Para ele, era simples, uma continuidade natural do nosso encontro. Sorri, mas já sentia meu corpo se retraindo involuntariamente. Dez e vinte. Fiz os cálculos: se saísse naquele momento, chegaria em casa antes das onze. Mas Ted parecia determinado a estender a noite. — Acho que hoje não vai dar… é meio caro. Ele sorriu de uma maneira desarmante e disse que cobria meus gastos. Meus dedos apertaram o copo ainda úmido. Havia algo de cruel naquela generosidade espontânea. Quis dizer que não era só o dinheiro, que não era o valor. Mas preferi outro atalho. — Não precisa… sem contar que o frio já está apertando, e minha jaqueta é fina. Ted tirou a blusa sem hesitar e me entregou. Peguei o tecido ainda morno do corpo dele, sentindo o cheiro que me envolveu e me fez imaginar acordando com aquele perfume no travesseiro. Como explicar que, aos vinte e sete anos, eu ainda precisava estar em cas...

A Euforia Pós-sexo (18)

Ted parecia um apóstata reconhecendo a sacralidade de seus templos. Eu ouvia sem comentar, tragando em silêncio meu L.A. Cereja , soltando a fumaça que se dissolvia entre nós. O gosto adocicado soava dissonante contra a rispidez da cerveja e a aspereza da história. Traguei mais uma vez, com o corpo ligeiramente curvado sobre o balcão, deixando que a nicotina amornasse meu sangue. A fumaça saiu pelas narinas, densa e lenta. Ele me observava enquanto falava, seus olhos acompanhando o movimento dos meus lábios, a forma como eu segurava o cigarro entre os dedos. Gestos que pareciam ter ganhado uma importância desproporcional na geografia íntima que se desenhava entre nós. Falei pouco sobre mim nessa noite, apenas que gostava de manhãs chuvosas. Disse a Ted que havia algo nelas que me acalmava, quando o mundo parecia desacelerar e ganhar uma melancolia doce. Que sentia algo em comum entre o bar e a música produzida pelo ruído das gotas de chuva no vidro da janela: a sensação de que o tempo ...

A Euforia Pós-sexo (17)

O bar nos engoliu numa lufada de vozes abafadas, fumaça e luzes cansadas, uma caverna morna que contrastava com o silêncio persistente do parque e o asfalto da rua que ainda se agarravam à minha pele. Sentei no balcão, a madeira fria sob minhas mãos. Um copo apareceu sem que eu precisasse pedir, e observei a espuma se dissolver devagar, formando anéis concêntricos na superfície dourada. As paredes, atulhadas de cartazes desbotados, sussurravam promessas de um rock antigo, cuja batida eu sentia, abafada. Ted falou de bandas antigas que eu não conhecia. Mencionou capas de discos e shows assistidos no YouTube às três da manhã. Os nomes soavam familiares, envoltos na voz baixa, embriagada de nostalgia. Eu o ouvia com atenção e a cabeça ligeiramente inclinada. Olhando para o fundo do segundo copo de cerveja, onde pequenas bolhas ainda subiam preguiçosas, falei que talvez aquele bar, com seus cartazes tortos e sua luz cansada, já tivesse assistido a muitas noites iguais a nossa. Ele riu e co...

A Euforia Pós-sexo (16)

O calor se instalava de dentro pra fora. A noite seguia calma, solicita ao que acontecia no banco de madeira.  O L.A Cereja veio logo depois, e com ele, uma leveza debochada, doce. O gosto dançava na boca antes mesmo da fumaça chegar. E quando chegou, foi com a delicadeza de um beijo molhado. Traguei e deixei que o prazer falasse por mim. Ted se aproximou um pouco. Apenas o suficiente para que eu sentisse o calor do corpo dele sem o tocar. Meu joelho roçou na sua coxa e permaneceu ali, testando as fronteiras da decência. A fumaça agora saía mais fina, mais suave. Mas dentro de mim, tudo era pulso e tensão. O desejo não fazia barulho, apenas acontecia. Falávamos de bobagens, livros, lembranças vagas, a vez em que ele perdeu a carteira e jurou ter sido num lugar que nunca existiu. Mas cada palavra era pano de fundo para o que, de fato, acontecia: os olhos dele nos meus. A minha boca envolta em fumaça. O som da brasa crepitando calada. Eu ouvia mais do que respondia. Traguei de novo...

A Euforia Pós-sexo (15)

Caminhei devagar, sentindo a cidade com os tornozelos, com os ombros, com o ventre. A praça não era longe, o que me permitia o luxo de ir sem pressa. Luzes pequenas e douradas pendiam dos galhos, delicadas demais para o concreto ao redor. Aquele lugar parecia não se lembrar do tempo, um refúgio suspenso entre os dias úteis e as promessas dos fins de semana. Havia algo de encantado naquele pedaço de mundo, onde tudo respirava mais devagar. Era ali que ele me esperava. E eu sabia, mesmo antes de vê-lo, que eu já tinha chegado. O banco mais ao fundo, sob a árvore torta, nos pertencia por alguma razão. Ted me esperava ali, com as mãos nos bolsos. Ao me ver, ficou sem jeito e, sem saber onde pôr os olhos, sorriu. Eu retribuí, não com a boca, mas com os ombros, com o quadril, com os olhos ligeiramente semicerrados. Sentei devagar, sentindo a madeira fria contra a pele nua das coxas. Meu vestido subindo dois dedos acima do que a decência recomendava. E entre nós dois, o espaço necessário para...

A Euforia Pós-sexo (14)

Passei a tarde de sexta inquieta. O corpo parecia saber, antes da mente, o que a noite traria. Não era só ansiedade, era uma vibração leve, um tamborilar interno  à espera do tato . Testei com o espelho se ele dizia o que eu queria: que eu era, ao mesmo tempo, promessa e lembrança.  Na tabacaria perto do meu apartamento, havia comprado dois Djarum: o Black e o L.A Cereja . O primeiro era escuro, quase elegante demais para o meu humor daquela tarde. Mas foi exatamente por isso que o quis. O outro, mais doce e brincalhão, trazia algo de provocação no nome. L.A Cereja; soava um beijo com gloss, um riso antes de um arrepio. Guardei-os na bolsa com cuidado. Era o desejo travestido de cravo, a persona que eu ansiava que Ted visse. E o que eu queria que ele sentisse ao me ver. Esperei o tempo passar. Tomei banho tarde, deixei o cabelo secar ao natural, passei perfume nos pulsos e entre os seios. Maquiei-me com leveza calculada. Passei um batom matte marrom-avermelhado Marsala só par...

A Euforia Pós-sexo (13)

Ted apoiou a xícara na mesa e deixou que um fio de lembrança se soltasse. Foi então que começou a falar da infância. Me contou que, uma vez, quando criança, acordou cedo em um sábado. Ligou a TV esperando ver os desenhos de sempre, mas não estavam passando os curtas usuais. Estava passando um longa: O Gigante de Ferro . Era sobre um robô gigante que caía do céu. Fiquei em silêncio. Ele continuou, com a voz leve, mas firme. No começo, o robô não sabia quem era. Só sabia que era grande, forte, e que todos pareciam ter medo dele. Mas ele era gentil. Curioso. Começou a aprender coisas com um garoto, palavras, gestos. Mas então ele descobre que era uma arma. E aquilo ficou na cabeça do robô. Porque ele podia destruir. Porque talvez tivesse sido feito para isso. Mas ele não queria ser isso. Ted olhou para mim. Os olhos sérios, calmos, limpos. No fim, o robô escolheu. Escolheu ser outra coisa. Escolheu não ser uma arma. Escolheu se destruir para que todos ficassem seguros. Porque, naquele mom...

A Euforia Pós-sexo (12)

Naqueles dias, acreditava, de verdade, que eu era aquilo que eu parecia ser. E em outros momentos, tudo me parecia um teatro. Uma encenação feita para que o mundo me aceitasse, ou, ao menos, me notasse. E eu me perguntava: quem seria eu sem plateia? Sem Ted, sem Sofia, sem o espelho? Quem era eu quando ninguém estava olhando? O sol atravessava os galhos da árvore e riscava minha pele com pequenas sombras.  Será que eu tinha me traído ao tentar ser o que esperavam de mim? Ou será que tinha me encontrado, finalmente, em meio àquilo que fingia ser? A ideia me doeu. Talvez eu tivesse fugido de mim ao me tornar aquela versão mais atraente, mais misteriosa, mais desejável. Talvez eu tivesse aceitado que ser vista valia mais do que estar segura. Mas na segurança só existe a menina que nunca fora tocada. Encostei a cabeça no tronco e fechei os olhos. Senti a brisa brincar com meu cabelo. Por um instante, desejei não ser nada.  O sol já estava baixo quando ouvi os passos. Um ritmo cal...

A Euforia Pós-sexo (11)

Saí da sala e caminhei pelo corredor vazio, atravessado pelo sol. O jardim estava deserto, apenas o barulho distante do trânsito e o som das folhas se movendo com a brisa. Escolhi uma árvore afastada do prédio, com sombra suficiente, e me sentei. Coloquei a mão no bolso da blusa, peguei o maço de cigarros e só então me dei conta do óbvio: o isqueiro estava lá dentro, entre os papéis de Ted. Uma ironia quase cruel. Eu havia saído para fumar e agora estava aqui, completamente inútil. A vontade do café, bem forte, bem quente, veio em seguida. Pensei em voltar, pegar uma xícara, mas isso destruiria completamente a dramaticidade da minha saída. Fiquei ali, incomodada, sem cigarro, sem café, refletindo sobre essa necessidade súbita de ter as duas coisas exatamente no momento em que não podia tê-las. Quando foi que me tornei essa pessoa? A Joyce de meses atrás nem fumava. Café, sim, sempre gostei. No início do ano eu jamais criaria situações como essa, nem sairia de uma sala de forma tão teat...

A Euforia Pós-sexo (10)

Esperei alguns minutos. Abri a bolsa devagar, capturei o isqueiro e o segurei de punho fechado. Levantei-me e fui até Ted. Apontei para a cadeira que Sofia havia deixado vaga. Ele assentiu, afastando alguns papéis para o lado. Observei o quanto ele parecia imerso na conversa anterior. Ele justificou o entusiasmo citando o encanto recente de Sofia pela obra de Salgado após o filme. Tentei capturar sua atenção mencionando que estava tentando entender uma coisa que ele havia comentado outro dia, sobre Proust . Uma ideia que não teria saído da minha cabeça. Quando Proust fala da busca do tempo perdido , comecei, ele não está falando de recuperar a oportunidade que passou, mas sim de encontrar momentos, cheiros, situações que nos tragam de volta à memória de um jeito tão vivo que o próprio evento parece acontecer de novo.  Se trata na verdade de uma ponte que atravessa o espaço-tempo, ligando momentos que não seguem uma linha reta, mas se sobrepõem uns aos outros. O passado não desap...