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Mostrando postagens de novembro, 2025

A Euforia Pós-sexo (3)

As manhãs começaram a se encher de significados novos. Eu andava com mais firmeza, os olhos encontrando os de estranhos sem hesitação. Já não me bastavam os beijos apressados, nem as carícias escondidas entre quatro paredes. Queria ser vista por inteiro, não em fragmentos. Queria intimidade fora do quarto, mãos dadas no meio da rua, olhares cravados em mim no meio da tarde. Bastou um olhar para Ted entender o que estava acontecendo. Ele me levou a um bar onde a música era alta e a luz, pouca. Nos cantos escuros, encostou o corpo no meu, beijou minha nuca e sussurrou coisas que me fizeram estremecer. Na mesa ao lado, uma mulher de cabelos vermelhos nos observava. Sua mão subiu devagar pelo próprio braço. Eu não sabia que podia gostar tanto de ser vista. Sustentei o olhar até que ela desviasse primeiro. Agora, eu tocava mais, demorava mais, queria mais. E ele gostava disso. Me deixava ir, me instigava, me devolvia a intensidade com um brilho nos olhos. Comecei a me arriscar mais....

A Euforia Pós-sexo (2)

Eu andava diferente. Não era um salto visível, mas algo no andar, no jeito como os ombros não pesavam mais, na maneira que os quadris balançavam com leveza involuntária. O mundo tinha ganho outra textura. As esquinas eram menos ameaçadoras. Os espelhos, mais cúmplices. Pensava em Ted com uma frequência nova. Não mais uma presença externa, mas algo que já morava em mim. Lembrava do peso do corpo dele sobre o meu, da respiração descompassada, e sentia o sangue pulsar de novo. Fumava todo dia: no caminho de volta da padaria, do supermercado, do trabalho. Tinha prazer em esconder, em disfarçar o cheiro. Era um jogo, e eu gostava de jogar. Tragava fundo, sentindo a fumaça se espalhar com uma autoridade que antes não reconhecia em mim mesma. O cigarro era meu. O prazer era meu. Fantasiava com situações onde meu desejo era comando. Sonhava acordada durante o banho, o corpo ainda úmido, olhando meu reflexo no espelho com a sensação de que, por alguns minutos, eu era dona de tudo. Meus pais not...

A Euforia Pós-sexo (1)

Comecei a fumar antes de entrar no trabalho. No começo, era só para respirar. Chegava alguns minutos mais cedo e ficava ali fora, sob a sombra torta de um poste, entre o ronco dos carros e o som abafado da cidade acordando. Não foi uma decisão consciente, aconteceu naturalmente. Primeiro foi um dia, depois outro, até virar um hábito. Acendia o cigarro devagar. A primeira tragada era mais leve. Depois, o corpo se rendia. Era o único momento do dia em que ninguém me pedia nada. O único em que eu também não me pedia. Só existia o gosto amargo e doce da fumaça, o calor se espalhando pelo peito, a brasa viva me lembrando que eu ainda estava ali. Observava meu reflexo no para-brisa de um carro estacionado na rua. A mulher que me olhava de volta parecia diferente da que eu conhecia. Algumas manhãs me perguntava quem era essa pessoa. A boca entreaberta, o cigarro nos dedos, o olhar sem disfarces. O cigarro queimava devagar entre meus dedos enquanto eu observava os passantes. Figuras apressadas...

Coisa de Pele (44 - Final)

Ao fim daquele dia exaustivo, a cidade inteira se arrastava. Lenta, indiferente. Mas então vi Ted subir no ônibus. Sentou-se ao meu lado. Os ombros duros, o olhar cabisbaixo. Eu soube que havia algo errado antes mesmo de ele se virar. E então contou: a recepcionista do hotel ligara para o trabalho naquela manhã. Disse que a pernoite não havia sido paga por completo. Ele pensou, por um instante, que a ligação fosse sobre o short que eu tinha deixado no quarto, mas não. Na noite anterior, Ted me entregara o dinheiro para pagar a pernoite. Fui até o balcão sozinha. A recepcionista cobrou apenas o valor de um hóspede, talvez imaginando que ele desceria depois para acertar a parte dele. Eu, confusa, pensei que estivesse pagando pelo quarto inteiro. Tentei explicar, dizer que me confundira, que não entendi direito. Mas as palavras saíam curtas, ansiosas, inúteis. Ele me olhava com estranheza. Disse que, mesmo que o valor tivesse ficado menor, eu devia ter contado, devolvido a diferença. Que ...

Coisa de Pele (43)

A luz da manhã atravessava a fina cortina, invadindo o quarto com uma claridade difusa, de um tom branco-acinzentado. O despertar veio primeiro pelo tato: o calor da pele dele colada às minhas costas. Logo em seguida, a percepção de algo dolorido e viscoso entre as pernas. Mexi-me devagar, tentando não acordá-lo, enquanto buscava a confirmação de que havia sido real. Meus dedos encontraram o elástico frouxo do short que vestira antes de adormecer e, ao deslizarem para dentro, sentiram o tecido áspero no centro. Era sangue seco. Um traço escuro e íntimo, uma assinatura involuntária selando minha primeira vez. Sentei na beira da cama. O quarto ainda em silêncio. O short claro, estampado com desenhos ingênuos, agora trazia uma mancha que eu não teria como explicar em casa. Não queria levá-lo. Era pequeno demais para disfarces e grande demais para o esquecimento. Pedi que Ted levasse para mim. Que desse um jeito, qualquer coisa. Mas ele franziu o rosto. Disse que não fazia sentido. Que era...

Coisa de Pele (42)

Sob a luz do abajur, eu era tingida de um vermelho ritualístico. Deslizei a mão por dentro de sua calça e senti o peso, a firmeza, a resposta crua de seu corpo ao meu controle. Eu era avesso de mulher. Puro instinto. Deixei de ser espectadora do meu desejo. Agora, eu era ele. Quando finalmente entrou em mim, o mundo parou. Não foi dor. Foi expansão. O corpo se abrindo para algo maior que ele mesmo. Meus quadris o acolheram em reconhecimento imediato. Pressão e preenchimento. A respiração flutuava no quarto, um véu entre mundos. O prazer surgiu sutilmente, uma percepção crescente que se insinuava à medida que o corpo se adaptava. Eu o recebia com as pernas bem abertas, firme, os cabelos colados na testa, os seios oscilando sob o tecido frouxo. A respiração dele ainda era acelerada quando os movimentos cessaram. Ficamos ali, colados, suados, silenciosos. A luz do abajur perdeu a intensidade, repousando exausta. Meu coração ainda pulsava, desacelerando em ondas que reverberavam pelo vent...

Coisa de Pele (41)

Meus dedos seguravam o cigarro aceso, tremendo levemente. Quando ele se aproximou, meus lábios se abriram. Traguei; profunda, lenta. A brasa brilhou e o calor subiu pelo meu peito. Ele se inclinou mais, o rosto tão perto que eu podia sentir o cheiro da pele, do suor fresco. Encostei minha boca na dele. Nossos lábios se tocaram pela primeira vez, e então soprei. A fumaça saiu de mim e nele entrou. Um beijo cheio de fumaça. Um gesto de posse e de entrega ao mesmo tempo. Ele fechou os olhos. Meus dedos tremiam com a pulsação do momento. Sua palma subiu pela minha coxa, parando no elástico da calcinha, testando a materialidade da minha pele. Eu era, ali naquele quarto, inteira. Meus seios se erguiam sob o tecido fino, arfando com a respiração entrecortada. O cigarro tocou meus lábios outra vez; um segundo beijo, desta vez mais íntimo. Traguei de novo. E beijei de novo. Ele me deitou com cuidado. Minha cabeça afundou no travesseiro duro. O cigarro se apagou no chão enquanto seus láb...

Coisa de Pele (40)

Meu corpo, quase nu, recostado na penumbra, emitia calor. A camisola solta mostrava mais do que escondia. O cigarro aceso entre os dedos fazia do meu silêncio um espetáculo íntimo, deliberado. Eu sabia o que fazia. Sabia o que mostrava. A fumaça pairava entre nós, um convite. Ele ainda estava deitado, o corpo estendido sobre o lençol, uma perna dobrada, a mão sob a nuca. A luz do abajur desenhava contornos no peito coberto de sombra. Os olhos dele estavam em mim. Traguei outra vez, mais fundo. Mantive a fumaça nos pulmões enquanto me levantava. O baby doll roçava a pele, tecido aderente a cada movimento preguiçoso. Senti o cigarro queimando entre os dedos. Fui até a janela. Abri apenas uma fresta. A brisa noturna invadiu o quarto, tocou minhas coxas nuas e colou a malha leve na curva dos quadris. Soprei a fumaça para fora, o corpo arqueado. O frio entrou, minha pele se arrepiou, fechei a janela novamente. Virei-me devagar. Meus olhos encontraram os dele. E sorri. Um sorriso pequeno, en...

Coisa de Pele (39)

Girei o registro. A água caiu morna, constante. Tirei a blusa devagar, sentindo o tecido colar nos ombros. O sutiã se abriu com um clique abafado. O espelho refletia minha pele marcada pelo dia, pelos olhares, pelas intenções contidas. Não me escondi, não desviei os olhos. A água escorria pelas clavículas, pelos seios, pelas costas. Eu passava as mãos com delicadeza, sem inocência. Reconhecia contornos, nomeava vontades. Fechei os olhos. A espuma descia, contornando o umbigo e a virilha. O som da água abafava o mundo. Os dedos acariciavam devagar a pele já quente, receptiva. Encostei na parede fria, arqueie levemente o corpo. Não buscava pressa. O vapor começou a subir, úmido, silencioso, inevitável. Os olhos fechados, a boca entreaberta, a respiração alterada. Terminei o banho com lentidão. Enxuguei o corpo em silêncio, sentindo a toalha áspera contra a pele viva. Vesti uma calcinha nova e um baby doll leve. Passei um hidratante com cheiro discreto: um toque nos pulsos, entre os seio...

Coisa de Pele (38)

Lembrei da primeira vez que ele falou desse hotel. Foi no meu primeiro dia, quando eu mal o conhecia. Disse que preferia dormir perto do trabalho quando ficava até tarde. Que economizava tempo, descansava melhor. Para ele, era apenas a solução de um problema prático, mas o efeito em mim foi outro. A ideia de passar a noite com ele, fora do controle dos meus pais e da rotina, era assustadora e excitante ao mesmo tempo. Normalmente, ficávamos em quartos separados, com um corredor entre nós. Naquela noite, não. Seriam apenas duas bolsas e um quarto. Subimos as escadas. A luz branca tornava tudo pálido. Quando a porta se abriu, ele entrou primeiro. O quarto era simples: duas camas, um armário, uma janela voltada para o estacionamento. Sentei-me à beira da cama e tirei os sapatos devagar, sentindo o piso frio sob os pés. O som da água no banheiro me fez estremecer. Ele já pertencia àquele espaço, enquanto eu ainda procurava onde deixar minhas mãos, minha ansiedade, minha roupa. Agora, com o...

Coisa de Pele (37)

Os dias que se seguiram foram rotineiros. No ambiente de trabalho, Sofia e eu nos cumprimentávamos com a cordialidade habitual. Ted, por sua vez, continuava o mesmo: atencioso comigo, estritamente profissional com Sofia, e completamente à parte da tensão que se instalava sempre que nós três dividíamos o mesmo ambiente. Em um desses dias, o expediente se estendeu além do previsto. Quando me dei conta, o relógio já havia avançado demais, e apenas Ted e eu havíamos ficado. Era tarde demais para o último ônibus. A cidade começava a se esvaziar: o palco era desmontado, as luzes das lojas se apagavam, os faróis rareavam e o silêncio se adensava nas esquinas. Eu sabia o que aquilo significava. Ted me olhou e disse:  – Vamos? "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Coisa de Pele (36)

Ali estava Sofia. Me contava sobre sua paixão pelo homem com quem eu estava me envolvendo. Pedia minha ajuda para conquistá-lo. E eu não podia dizer nada. Eu não podia contar que Ted já estava na minha vida. Que talvez eu também estivesse me apaixonando por ele. As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse detê-las. — Acho que entendi por que você gosta do Ted. Ela parou de falar, os olhos fixos em mim, atentos. Me arrependi imediatamente. De que maneira explicar que eu o conhecia bem o suficiente para compreender a atração dela? Tentei consertar, disse para ela esquecer o que eu tinha dito. Mas Sofia não era o tipo que deixava passar. Se inclinou ainda mais, e eu reconheci o tom na voz, aquela insistência que vinha carregada de certezas. Queria saber. Queria ouvir. Senti o coração acelerar. Olhei para ela, para a expectativa visível em seu rosto, e soube que qualquer resposta seria arriscada. Mas não dizer nada também seria. Falei sobre a forma como ela descrevia Ted. Da aten...

Coisa de Pele (35)

Tudo mudou quando apareceu o Ted. Sofia contou que, numa madrugada, estavam voltando de um bar. Garoava. Ela usava um sapato que escorregava na calçada molhada e ria de si mesma, um riso meio envergonhado. Disse que sempre a mandaram ser mais contida, mais delicada, menos escandalosa. Que o riso dela incomodava porque era grande demais, fora de lugar. Mas naquela noite, Ted simplesmente deu um passo à frente. Não disse nada. Só abriu um guarda-chuva que ninguém sabia que carregava. Um gesto simples, quase imperceptível, mas que mudava tudo: se posicionou de modo que a chuva caísse sobre ele, não sobre ela. E ficou ali, uma proteção silenciosa entre ela e o desconforto. Quando se virou para ver se Sofia o acompanhava, sorriu. Não riu dela. Riu com ela. E isso fez toda a diferença. Sofia disse que naquele momento soube. Que aquele gesto simples era, na verdade, um sussurro dizendo: você pode ser quem é. E ser cuidada mesmo assim . Fiquei ouvindo em silêncio, tentando encontrar uma forma ...

Coisa de Pele (34)

Sofia se levantou da mesa num ímpeto abrupto, os olhos brilhando com uma determinação súbita que eu não soube decifrar. Virou o restante da cerveja em um único gole, estendeu a mão e me conduziu para fora do bar. Nossos passos ressoavam sobre o calçamento úmido, enquanto a neblina subia das águas quentes da praça e embaçava as luzes ao redor. Ela parecia saber exatamente para onde ia. O som nos alcançou antes da próxima esquina. Acordes de violão e uma voz rouca cantando Simon & Garfunkel . Então o vimos: um bar pequeno, de esquina, com as portas abertas derramando luz sobre a calçada. Um grupo se aglomerava na entrada, copos nas mãos, conversas entrecortadas pela música ao vivo que fluía para fora.  Sofia hesitou por um segundo, os olhos vasculhando a multidão. Respirou fundo e me puxou para dentro do cardume que se espalhava pela rua. O ambiente era outro. Mais cru, mais honesto. A luz do neon rosa tingia os rostos, e a fumaça dos cigarros criava camadas translúcidas que danç...

Coisa de Pele (33)

No bar seguinte, a luz âmbar desenhava sombras íntimas sobre o rosto de Sofia, e seus dedos, inquietos, brincavam com a borda do copo de cerveja. Quando começou a falar da ausência da mãe, sua voz diminuiu imperceptivelmente. Contou que o pai nunca a enxergara como filha, mas sim um fardo que a mãe deixara para trás. Lembrou-se de um Natal, aos cinco anos. Estava feliz por, naquele dia, ter a presença do pai e quis mostrar um desenho que havia feito. Era uma família: o traço infantil tentava contornar a ausência, e ela pintara a mãe com um vestido colorido. O pai olhou o papel, depois olhou para ela, e o que veio foi a voz dele, cortante. Ele disse que era hora de crescer e parar de dar trabalho, que estava com vergonha dela. Apenas uma fala entre tantas outras que se seguiram. Cada crítica, cada comentário sobre sua natureza barulhenta, desorganizada, excessiva, inadequada, tudo se empilhava. Com o tempo, o pai construiu ao redor dela um muro invisível de desaprovação. E ali ela ficou...

Coisa de Pele (32)

Sofia me esperava na tabacaria perto do meu prédio, recostada na parede com a mesma elegância displicente de sempre. Vestia uma blusa que realçava a pele e valorizava seu busto, mesmo sem apelar ao decote. Os jeans escuros moldavam suas curvas feito uma segunda pele. O batom, mais escuro do que o usual, acentuava a promessa ambígua dos seus lábios. Caminhamos até o bar. Seus dedos roçavam os meus sempre que gesticulava. Eu observava o balanço dos seus quadris, a forma dela se impor no espaço da calçada. O bar era jovem e excessivamente iluminado, com luzes de néon que alternavam cores sobre os rostos apressados. Sua mão repousava na curva da minha cintura enquanto serpenteávamos entre os corpos suados. O toque era firme, quente, persistente. Os dedos demoravam se mais do que o trajeto exigia. Eu me inclinava em sua direção quase sem perceber, atraída pelo perfume de flores e especiarias. Músicas de tempos passados vibravam com entusiasmo novo. Corpos dançavam em grupos dispersos, imers...

Coisa de Pele (31)

Sofia havia se infiltrado em meus pensamentos. Não conseguia expulsá-la. Não queria expulsá-la. Peguei o maço na bolsa. Sentei-me na cama. Segurei um cigarro entre os dedos da maneira que ela faria, tentando evocá-la. Não era exatamente desejo. Ou talvez fosse, mas em outra língua. Um chamado subterrâneo, morno, que subia pelas pernas e se instalava no ventre, uma lembrança que nunca foi vivida. Meus dedos se moveram sem pressa. Sabiam o caminho antes de mim. Nunca tinha pensado numa mulher assim. Nunca tinha deixado. Mas agora, cada curva que minha mente traçava era dela. A nuca. O pulso. Os ombros firmes sob o tecido. Sofia fumando e me olhando, sabendo de algo que eu mesma ainda não havia descoberto. Na cumplicidade da escuridão, deixei que a fantasia me consumisse. Imaginei Sofia me beijando. Seus lábios tinham gosto de transgressão. Suas mãos percorriam meu corpo com a mesma precisão com que segurava o cigarro. Cada toque era calculado, deliberado, certeiro. Minha mão livre desceu...

Coisa de Pele (30)

O quarto estava escuro. A luz do poste vazava pela persiana entreaberta, tingindo o chão de dourado. O lençol sob meu corpo ainda carregava as marcas da tarde: vincos, suor, silêncio. O abajur apagado, o livro virado de cabeça para baixo na cabeceira. A casa dormia. O zumbido da geladeira, o compasso do relógio, o rangido ocasional da madeira criavam uma sinfonia doméstica que eu conhecia de cor. Mas naquela noite, cada som parecia amplificado. A cama não ofereceu o conforto de antes, os travesseiros estavam duros, o colchão desconfortável. Pensei no jantar, no que meu pai havia dito. Pensei em Sofia. Na forma que me olhava, na forma que parecia confortável em sua própria pele, mesmo quando o mundo ao redor tentava fazê-la se sentir deslocada. Fechei a porta do quarto com cuidado. A chave girou no silêncio, em um clique quase imperceptível. Sofia apareceu primeiro como ausência: o espaço vago que deixava quando saía da sala, o silêncio depois do riso. Depois veio como sombra: as ...

Coisa de Pele (29)

O tempo ali dentro parecia mais lento do que no resto do mundo. O velho relógio de madeira marcava as horas com seu pêndulo; indiferente à nossa presença. Meu pai murmurou mais alguma coisa sobre mulher direita. Não sei se era sobre o cheiro, o cabelo ou a maneira que eu respirava. Não respondi. Ou talvez tenha respondido. Com um sorriso. Aquele que uso para atravessar corredores hostis ou para não chorar quando só quero desaparecer. Um riso sem som, só presença. Levantei antes que alguém dissesse mais alguma coisa. Levei o prato até a pia. Não lavei. Não pedi licença. O cheiro velho de verniz pairava pelo corredor. As fotos me acompanhavam como testemunhas silenciosas: eu pequena de fita no cabelo, o sorriso travado do meu pai, a juventude distraída da minha mãe. O piso rangia a cada passo que eu dava, mas não me dei ao trabalho de tentar silenciá-los. Entrei no quarto. Tranquei a porta. Tudo no lugar: o lençol rosado, os livros alinhados, o abajur bege. Nada mudava. Exceto eu. Abri a...

Coisa de Pele (28)

A televisão falava sozinha na sala, uma novela qualquer projetando vozes dramáticas sobre móveis gastos. O controle remoto repousava no braço do sofá, esquecido. A luz azulada piscava nas paredes, criando sombras que se arrastavam. Na cozinha, tudo seguia o protocolo: talheres alinhados com rigor, pratos sobre a toalha de crochê já desbotada. Minha mãe ajeitava as coisas com a meticulosidade de sempre. Guardanapos dobrados, o saleiro no centro, a pimenteira ao lado, simétrica, silenciosa. Sentei por último. A cadeira rangeu. A calça apertada demais para o padrão deles. Nenhum comentário. Apenas o som dos talheres batendo no prato e o roçar nervoso dos dedos da minha mãe no tecido do guardanapo. Aparentemente ela tinha esquecido onde deve colocar as mãos. Meu pai comia em silêncio, até não comer mais. Os olhos ainda fixos no prato quando deixou escapar, num tom neutro demais, um comentário sarcástico sobre meu cabelo.  Sorri. Polida. Contida. Um sorriso que poderia cortar se alguém ...

Coisa de Pele (27)

O ônibus balançava de leve. As luzes da cidade passavam pelas janelas; eu olhava pela vidraça, mas não via nada. Ted falava ao meu lado, comentava sobre um filme novo, algo retrô com garotas perigosas, e me convidava para o cinema. Respondi que não. Ele riu baixo, desconcertado. Não sabia se havia ouvido direito ou se era uma piada. Disse que tinha algo para fazer, mas era mentira. Pela primeira vez, eu dissera não a ele. Não por estar ocupada, nem por falta de vontade; acho que só não queria ceder. Ted não insistiu. Apenas assentiu, um pouco surpreso, e voltou o olhar para a frente. O resto do caminho seguiu em silêncio. Desci no ponto de sempre, mas não fui direto para casa. Cruzei a rua e entrei na praça quase deserta. As árvores se curvavam sob o peso da noite, e o frio fazia o asfalto parecer mais distante dos pés. No centro da praça, o gazebo de ferro fundido abrigava uma nascente de águas cálidas; vapores subiam em espirais tênues, se dissolvendo no ar. Sentei no banco de madeir...

Coisa de Pele (26)

A pergunta ficou pairando no ar, insistente. Meu corpo endureceu, meus pensamentos se atropelaram. Parte de mim ouviu uma armadilha, outra parte ouviu um chamado. Poderia ser tudo: ciúmes, provocação, manipulação ou curiosidade. Traguei outra vez, olhando para frente. A fumaça formou um véu entre nós e, por um momento, pensei que poderia me esconder ali, naquele espaço nebuloso onde as coisas não precisavam ser definidas. Podia parecer pouco, mas um bar é um campo de batalha, e aquela era uma guerra que eu não sabia vencer. Sofia me observava com uma intensidade que me fazia sentir devorada pelos olhos. Não havia pressa em seu olhar, apenas uma fome paciente. Soltei a fumaça, tentando imitar sua elegância, mas ela saiu desajeitada, amadora. Sofia sorriu. Olhei para ela, tentando decifrar. Havia algo por trás daqueles olhos que não era malícia, mas também não era inocência. — Por que você está me convidando? — Porque tenho vontade. A resposta era simples demais. Ou honesta demais. Eu nã...

Coisa de Pele (25)

Seus dedos tocaram os meus com uma delicadeza inesperada. O cigarro passou entre nós em um pacto silencioso. Soltei a fumaça pelo nariz, sentindo o corpo aquecer de dentro para fora. Uma onda de êxtase potente diluía os limites do corpo. Havia ali uma transgressão íntima. —Esse lugar pode ser mais bruto do que parece. Não soube o que responder. Apenas olhei para a fumaça, desejando que ela dissesse mais. Ou menos. Ou qualquer coisa que me desse um ponto de apoio no terreno que se abria sob meus pés. A fumaça escapava por entre meus lábios entreabertos, criando uma névoa sedosa que parecia envolver não apenas meu rosto, mas também meus pensamentos. — Você tem uma tese linda. Mas não é com tese que se respira aqui. É com outra coisa. Não soube se era elogio ou alfinetada. Mas a frase me atingiu. Quantas vezes eu havia me escorado naquele trabalho? Quantas vezes me refugiei no vocabulário técnico para não admitir que não sabia o que sentia? Ela me olhou de novo. E havia algo ali que não e...

Coisa de Pele (24)

Sofia aproximou-se sem que eu a notasse. Quando me dei conta, ela já estava ao meu lado, com um copo idêntico ao meu em uma das mãos e, na outra, o maço de cigarros. Vestia uma blusa preta de mangas longas, ajustada ao corpo, e uma calça de alfaiataria que marcava o quadril. O batom era claro. O olhar não. Cruzou as pernas com lentidão felina, tirou um cigarro e, por um momento, apenas me observou. Puxou o isqueiro. A chama lambeu a ponta do cigarro. Tragou devagar, deixando que a fumaça escapasse pelos lábios e subisse em um véu de rendas em dissolução. O ato inteiro parecia coreografado. Cada gesto havia sido ensaiado mil vezes. Mas não havia afetação. Apenas controle. A distância entre nós era breve. Eu sentia o calor do sol e, ao mesmo tempo, uma brisa que vinha dela. Um campo de presença, de provocação. Ela olhava para frente, mas eu me sentia atravessada. Aproximei-me em silêncio. O espaço compartilhado parecia pequeno demais para dois corpos e, ao mesmo tempo, vasto. Uma fina ca...

Coisa de Pele (23)

As frias manhãs voltaram com sua exatidão habitual, mas eu as recebia diferente. No trabalho, eu já não sabia disfarçar o desconforto. Aquele lugar exigia tanto e devolvia tão pouco. Esforçava-me, lia, tentava acompanhar. Mas sempre havia um detalhe esquecido, um nome trocado, uma espera longa demais depois que eu falava, algo em mim parecia estar, irremediavelmente, fora do compasso. Havia falhado em algo simples. De novo. Bastou um olhar atravessado para que eu me sentisse parte do mobiliário. Invisível, inadequada, fora de lugar. A rotina ali não era apenas cansativa: era um castigo disfarçado de maturidade. Tentei manter o sorriso, mas minhas palavras se embaralhavam, escorregavam pela língua sem formar nada sólido. Tudo o que fazia sentido na minha cabeça se desfazia no ar. Eu me sentia uma criança brincando de ser adulta.  Estudei demais para aquilo. E, mesmo assim, me sentia estrangeira no próprio ofício. A teoria nunca me preparou para o constrangimento de não sabe...

Coisa de Pele (22)

Nos próximos dias do evento, caminhamos entre os carros, comentando os detalhes: o banco gasto de um Mustang 1968, uma maçaneta em formato de asa, um espelho retrovisor que lembrava um brinco antigo. Ele falava com entusiasmo e eu ouvia com interesse real, não para agradá-lo, mas porque a paixão dele pelo assunto era contagiante. Cada curva de metal parecia conter uma história que ele sabia contar. Em certo dia, eu peguei na mão dele. Um gesto que dizia: você está aqui. E eu estou com você. Quando o último carro deixou o estacionamento e as barracas foram desmontadas, ainda estávamos de mãos dadas. O evento havia terminado. Voltamos à rotina. No trabalho, eu me pegava lembrando da sensação do volante entre as mãos, do metal aquecido sob os dedos, do jeito como Ted me olhava quando eu tocava aqueles objetos. "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais....

Coisa de Pele (21)

Acendi um cigarro. Traguei. Ele encostou um dedo nos meus lábios e, sem palavras, me fez soltar a fumaça pelo nariz. Nunca tinha feito isso antes. Foi ali que ele me beijou. Meu corpo inteiro se dilatou. Senti cada célula viva. Quando nos afastamos, lentamente, eu estava sem ar. Ted me observava com aquele olhar que parecia ler meus pensamentos mais secretos. O encontro de carros antigos continuava ao nosso redor, mas já não fazia parte da minha realidade. Eu estava em trânsito para um outro estado de ser. E Ted. Ted era o destino dessa jornada. "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Coisa de Pele (20)

Encostamos em um Bel Air. Ted se aproximou em silêncio, ficando perto o suficiente para que meu perfume o alcançasse. O silêncio entre nós era espesso, quase tátil. Toquei o capô com as pontas dos dedos; o metal ainda guardava calor. Ele me observava. Caminhei ao redor do carro, devagar, deixando a mão deslizar pela lataria. Ele me seguiu com os olhos, mas não se moveu. Parei do outro lado, de frente para ele. O Bel Air formava uma ponte dourada entre nós. Apoiei as costas no carro, cruzei os braços e sorri. Ele me olhou com desejo, mas permaneceu no lugar, parado, à espera. Naquele momento, o tempo era meu. Estendi a mão. Ele veio. Nos afastamos da multidão. A praça dava lugar a uma área mais densa, onde as árvores abafavam o som da festa. Ted encostou-se no tronco rugoso de uma paineira e me puxou devagar. Enquanto eu me acomodava a favor de seu corpo, senti o toque de sua mão descer pelo meu pescoço, lentamente. Minha respiração falhou por um instante. Olhei para e...