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Mostrando postagens de outubro, 2025

Coisa de Pele (19)

O banco era duro, o couro áspero. O volante, gasto nas bordas. Ali o tempo estava suspenso. Ted entrou do outro lado e o espaço dentro do carro se estreitou. Seu joelho encostou no meu, seu braço roçou meu ombro. Ele não se afastou. Pegou minha mão com naturalidade e a conduziu até o volante, guiando meus dedos pelos contornos do couro velho. Não explicou nada. Apenas deixou que eu sentisse. O gesto, embora contido, trazia uma intimidade que o tornava quase indecente. Seu toque era lento, deliberadamente demorado. Sua mão permaneceu sobre a minha mais tempo do que o necessário; desejei que ficasse ali para sempre. O clique da câmera passou despercebido. Fiquei com as mãos no volante, sentindo o calor do corpo dele irradiar pela lateral. O mundo exterior havia se dissolvido. Ele então levou minha mão ao câmbio. — “Nunca tenha medo de errar. O erro é parte do aprendizado.” Eu estava ali, atenta à sua proximidade, à forma como sua voz ficava mais rouca quando falava baixo, e ao jeito como...

Coisa de Pele (18)

Enquanto andávamos pelo evento, a banda tocava Elvis, com seu contrabaixo acústico e figurinos dos anos 50. A voz rouca do vocalista embalava a noite e nos transportava para outra época. Paramos diante de um Chevy 57 azul-metálico . Contei a Ted que não tinha familiaridade com câmbio manual, já que havia aprendido a dirigir no carro automático da minha mãe. Pouco depois, um Ford Thunderbird preto nos fez silenciar. O carro era imponente, com curvas amplas e detalhes reluzentes que capturavam a lua nascente em cintilações dispersas. Passamos por um Porsche 356 conversível, por um Buick vinho com teto branco. Mas foi diante de um Corvette conversível V8 1956, preto , que ele parou. Pequeno, porém expressivo. Um carro com ares de segredo. O dono permitia fotos no interior. Ted me olhou. Não pediu. Não sorriu. Apenas esperou. Quando me aproximei, ele já conversava com o senhor grisalho ao lado do carro. Explicava que queria uma foto da "namorada" ao volante. A palavra veio com...

Coisa de Pele (17)

Sentamos num banco de madeira, atrás de um Chevrolet 150 de 1955. O carro de Harrison Ford no filme. De acordo com Ted, cada personagem estava ali, naquela noite, tentando decifrar seu próprio fim. Uns queriam partir, outros resistiam a sair do lugar. Havia quem buscasse respostas no amor, no sexo, na velocidade. E as corridas, seriam rituais de passagem. Um último gesto simbólico antes da maturidade. A juventude presa à ilusão da eternidade, mesmo sabendo que estava prestes a acabar. Isso, dizia ele, era a forma mais pura de desespero. E também de beleza. Colocou o copo de chope sobre uma das ripas do banco enquanto olhava para o chão.  O filme havia sido lançado apenas onze anos depois da época retratada, mas já carregava uma nostalgia desesperada, fazendo parecer que tinham se passado décadas. A obra intuía que os anos 60 não seriam apenas outra década, mas o fim de uma era. A Guerra do Vietnã, os assassinatos de Kennedy e de Martin Luther King. A contracultura e os sonhos parti...

Coisa de Pele (16)

Paramos diante de um Ford Deuce Coupe 1932 amarelo , com um motor V8 sob o capô e os plugues de cabeçote removidos. O brilho âmbar do céu refletia-se nas curvas largas e anacrônicas da lataria. Ted comentou sobre um filme em que aquele carro aparecia: American Graffiti. Falou da atmosfera do filme, das ruas estreitas iluminadas por néon, da sensação de flutuar entre uma adolescência que se despede e uma vida adulta que ainda não se sabe como viver. Havia uma melancolia suspensa naquele universo, um pressentimento de que o tempo estava à beira do fim, mas ninguém ainda tivesse percebido. A incerteza, a música, os carros, os encontros casuais, as conversas que duram uma noite inteira. Um tempo em que tudo era possível, mas nada era certo. Ted mantinha os olhos fixos no carro amarelo. Disse que o filme era, no fundo, sobre o fim. O ser-para-a-morte, nunca esqueci daquelas palavras. Uma despedida disfarçada de festa. Os personagens viviam a última noite antes de cruzarem a fronteira invis...

Coisa de Pele (15)

O encontro de carros antigos transformara o lugar em um mosaico vibrante de cor, som e memória. Fileiras ordenadas de automóveis ocupavam o gramado: Fuscas em tons pastel, Mercedes reluzentes, Packards restaurados com um zelo quase religioso. Cada veículo parecia conter uma narrativa, um relicário de histórias pessoais, guardado por proprietários que falavam sobre motores, carburadores e curvas de design com a paixão e dedicação. Caixas de som espalhadas tocavam músicas dos anos 70 e 80. A trilha sonora nostálgica se misturava ao burburinho de vozes animadas, ao barulho súbito de um motor sendo testado, ao som crocante de pipocas estourando em bancas improvisadas. Crianças corriam entre os carros, vigiadas de longe por adultos distraídos com suas bebidas e celulares usados como câmeras. Debaixo das árvores, famílias estendiam toalhas, criando pequenas ilhas de intimidade em meio ao ruído. Ted se movia com familiaridade. Cumprimentava organizadores, trocava acenos com motociclistas, con...

Coisa de Pele (14)

Por um instante, parei. Ainda a poucos passos dele. Abri a bolsa com a ponta dos dedos. Retirei o maço. Escolhi um cuidadosamente. O coloquei na ponta dos lábios, calmamente. A ponta do indicador deslizou até a lateral metálica do isqueiro. O som do clique pareceu romper o tecido da tarde. A chama ergueu-se, a brasa acendeu, viva, obediente. Traguei. Levei o cigarro novamente à boca sem pressa, em uma cadência lenta e cálida, provando o próprio gesto. A fumaça saiu pelos lábios em um sopro preciso, envolvente, quase íntimo. Vi os olhos de Ted estreitarem-se por puro desejo. Um reconhecimento silencioso. Ali, entre fumaça e batom, me desnudei. Quando me viu assim, com o cigarro aceso entre os dedos, sorriu. Um sorriso diferente. Mais lento. Me vendo pela primeira vez. — Você está... diferente — disse, me puxando pela cintura para perto dele. Senti o sangue subir para as bochechas. Sorri. Não por charme, mas por resposta. Eu estava. E ele tinha percebido. Lhe disse que era a mesma roupa...

Coisa de Pele (13)

O entardecer tingia tudo de dourado. O céu, limpo nas bordas, refletia nas vitrines e nos capôs polidos. A luz incidia sobre os carros parados, dando-lhes uma aura serena e intocável, um brilho quieto de uma era que não voltava. O ar era espesso, cheio de sons sobrepostos: risos, o ronco esporádico de um motor, e alguma música antiga escapando de alto-falantes escondidos, com seus violões e metais, e vozes que pareciam gravadas em fita cassete. Cada passo se arrastava, pesado e deliberado, no ritmo da cidade que respirava por dentro da praça. Ted me esperava perto do coreto, encostado num carro que parecia ter saído de um filme antigo: cromado, estofado vermelho, curvas que demonstravam uma ousadia que o presente não se atreve a lembrar. A camisa henley preta, com os botões de madeira fechados sobre o peito atlético, moldava os ombros. Os cabelos curtos e bem aparados complementavam a barba escura e cheia, meticulosamente desenhada no rosto. Vestia calça jeans preta, jaqueta de couro p...

Coisa de Pele (12)

O fim do dia chegou com o calor seco vibrando sobre o asfalto. Troquei de roupa três vezes, finalmente decidindo por um look rock-chique: jaqueta perfecto de couro preta, blusa vinho sensual de decote transpassado (com segunda pele invisível), minissaia rodada de couro, meia-calça arrastão sutil e botas de cano longo com salto grosso. Um cinto dourado queimado e uma bolsa tiracolo completavam o visual. O cabelo solto caía em ondas volumosas, e a maquiagem intensa nos olhos era arrematada por um batom vinho. Minha mãe comentou sobre a roupa com um olhar de desaprovação que não chegou a se transformar em palavras. Meu pai nem ergueu os olhos. Não sabiam sobre Ted. Não sabiam sobre os cigarros. Não sabiam sobre as rachaduras que começavam a me consumir. O relógio marcou a hora. Me fez pular da cadeira. Peguei a bolsa e desci correndo as escadas, gritando um “tchau” apressado antes de sair pela porta. "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicaçã...

Coisa de Pele (11)

Na sexta, assim que cheguei do trabalho, entrei correndo no meu quarto. Uma luz dourada atravessava a janela, iluminando as roupas espalhadas sobre a cama. Separei três conjuntos diferentes, todos rejeitados por serem “demais” ou “de menos”. Minha mãe bateu à porta perguntando se eu não ia tomar café. Respondi que depois. Que tinha coisas a fazer. Saí com tempo. Caminhei pelo centro com passos tensos. O endereço anotado num pedaço de papel que eu amassava e desamassava. O dia estava movimentado: senhoras com sacolas, homens em grupos nas calçadas, crianças correndo entre as pernas dos adultos. Tudo muito normal, muito comum. Mas eu me sentia sobre uma corda bamba. No caminho, os sinais da cidade se adensavam: faixas coloridas nos postes, picolés escorrendo nas mãos dos infantos, uma música antiga escapando de caixas de som escondidas. Elvis, Chuck Berry, alguma coisa que se dançava com os pés juntos e os quadris soltos. Os carros, já alinhados como soldados elegantes, exibiam curvas qu...

Coisa de Pele (10)

Na quinta, sentei na beirada da cama com a pele ainda marcada pelo lençol. O quarto cheirava a creme e desodorante fresco. Uma luz filtrada pela cortina branca dava ao espelho um ar cúmplice. Antes de qualquer coisa, abri o navegador do celular. Pesquisei o salão mais ousado da cidade. Liguei. Uma voz masculina atendeu, falando rápido sobre horários disponíveis. Marquei para sexta à tarde. Queria algo diferente. Algo moderno. Algo que fizesse diferença. O tipo de corte que faria minha mãe prender a respiração e olhar para o chão. O tipo de corte que parecia pedir outro corpo junto. O horário me pareceu solene, como se uma parte de mim estivesse, de fato, decidida. Desliguei o telefone com o coração disparado. Minha mãe perguntou para quem havia ligado. “Dentista”, menti. Ela assentiu, sem interesse. Meu pai nem ergueu os olhos. Passei a noite mergulhada em sites de cortes de cabelo, salvando imagens de mulheres com camadas assimétricas, franjinhas desfiadas, cores que fugiam do castanh...

Coisa de Pele (9)

O sol se escondia entre as nuvens altas, refletido nas vitrines, nos para-brisas e nas fachadas dos prédios. Ted me encontrou na saída do trabalho, correndo atrás de mim pela calçada com aquele sorriso torto que fazia meu estômago se contrair. Falou sobre o encontro anual de carros antigos. Disse que seria interessante, que me encontraria lá. Não houve um convite. Apenas uma menção solta, lançada no final de uma frase. Mas era o bastante. Não importava o que ele dizia, importava o que deixava em aberto. Divertido. A palavra ficou na minha cabeça durante o resto da semana. Quando foi a última vez que me permiti ser divertida fora dos braços de Ted? Quando saí para algum lugar que não fosse trabalho, supermercado ou biblioteca, sem que fosse com ele? Minha vida havia se tornado uma sequência de rotinas tão previsíveis que até o espelho do banheiro parecia refletir sempre a mesma imagem: cabelo preso, blusa discreta, expressão contida. Mas agora haveria Ted, novamente. E com ele, eu sabia...

Coisa de Pele (8)

Mas junto com o prazer veio a culpa, lenta, pegajosa, se enrolando ao redor da cintura. A culpa sussurrava com a voz do meu pai: “Menina de esquina.” E o pior: sussurrava que talvez ele tivesse razão. Que talvez eu gostasse disso, de me tornar exatamente o que disseram que eu não deveria ser. Traguei outra vez. Mais lenta. Mais fundo. O peito aquecia, os olhos marejavam. O cigarro não me anestesiava, me despertava. Do alto de uma árvore, um pássaro começou a cantar. A melodia simples ecoava entre os galhos. Aquele canto, naquele instante, soava bonito. Era um contraste com a minha pulsação acelerada, com o calor da carne e com a minha imagem, de boca levemente entreaberta, soltando uma espiral de fumaça no ar em uma praça pública. Estava com medo do vício. Do que me tornara. Pensei em contar a alguém. Ted, talvez. Sofia, nunca. Minha mãe, jamais. Respirei. Dividir esse receio com alguém era impensável, seria como desnudar minha alma. Não era um vício. Era uma semente. Algo que crescia ...

Coisa de Pele: Iniciando a Vida Sexual (7)

Virei à direita. Precisava passar pela tabacaria da esquina. O cheiro, o público contido, a sombra que se alongava desde a porta, tudo ali me confortava. Vi um maço pequeno, preto, fino, brilhando na prateleira. Pedi: Dunhill Nanocut. Era o maço mais bonito que já tinha visto. O parque se estendia generoso sob o sol, um oceano verde onde as árvores antigas faziam sombra como se abraçassem a cidade. Plátanos, paineiras floridas, palmeiras imperiais que observavam em silêncio. Guapuruvus cujas copas se entrelaçavam sobre os caminhos de pedras e flores pisadas. A luz filtrada atravessava a folhagem em manchas douradas e verdes, e tudo parecia suspenso, como se o tempo ali respirasse mais devagar. Escolhi um banco escondido, recuado, envolto por um véu de folhas que dançavam ao vento. Um santuário improvisado. Ali, naquela penumbra viva, respirei. No bolso do casaco, o maço. Os dedos já conheciam a forma exata. O hábito se adiantava ao pensamento, e o desejo, à culpa. Peguei meu isqueiro v...

Coisa de Pele: Iniciando a Vida Sexual (6)

Com as mãos pesadas pelas compras do supermercado, subi os degraus até o terceiro andar. A sacola de hortaliças balançava ao lado da perna, exalando cheiro de terra fresca, e, ao alcançar o patamar, percebi a porta do apartamento ao lado entreaberta. Minha mãe estava ali. O olhar dela encontrou o da vizinha e, sem cerimônia, disparou: — A blusa dessa menina está apertada demais para uma moça decente.  Vi o sorriso da vizinha se alargar, complacente.  A raiva me queimou as costelas, ardeu atrás dos olhos. Fiquei ali, parada, os dedos em torno da alça, esperando minha mãe me deixar entrar. Eu precisava desaparecer um pouco. Esperei que ela se perdesse nas tarefas domésticas. A cozinha já exalava gordura morna quando peguei minha bolsa e desci as escadas. "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Coisa de Pele: Iniciando a Vida Sexual (5)

Meu pai quebrou o silêncio apenas para concluir que garotas que se dão demais ao espelho perdem a decência, se deixam cair em tentação. Saboreou cada sílaba. Disse que aquilo era da minha natureza; culpa da idade. Eu nunca passara por um despertar; agora, só me restava ficar vulgar. Por fim, acrescentou que talvez eu estivesse me achando bonita com aquele olhar cansado, quando o que eu tinha era só falta de sono. E então voltou à sua poltrona, satisfeito. Eu fiquei. Um segundo a mais. Depois outro. O suficiente para sentir o chão se dissolver sob os pés. A casa inteira parecia me observar, cúmplice daquela humilhação cotidiana. Nada reagia. Nem os móveis. Nem o tempo. Nem ela. Sentei à beirada da cadeira pedindo desculpas pelo próprio corpo. Ouvia apenas o toque intermitente da aliança da minha mãe contra a borda da louça. Batidas ocas, ritmadas. Não falei. Fingir normalidade era meu único escudo. Já não buscava aprovação. Só sobrevivência. Deslizei os dedos pelas pernas nuas, onde ai...

Coisa de Pele: Iniciando a Vida Sexual (4)

O cheiro do café ainda pairava sobre os móveis limpos. O silêncio tinha uma espessura própria, preenchendo os espaços mais do que qualquer conversa. Meu pai passou pelo corredor com os passos regulares de sempre, mas hesitou à porta. Não bateu. Nunca batia. Apenas entrou com os olhos. Fitou-me com aquela expressão contida de quem procura por algo fora do lugar. Disse que eu andava me arrumando demais, e que me olhava tanto no espelho porque queria chamar atenção. O comentário caiu fundo. Não que fosse novo; o tom já me era familiar, mas havia algo de mais cortante naquela manhã. Deixei o tônico facial escorregar dos dedos. O impacto seco contra a penteadeira pareceu mais alto do que deveria. O espelho diante de mim devolveu apenas pedaços: olhos que, segundo ele, “pediam o que não deviam”. Eu era, em suas palavras, uma verdadeira menina de esquina. Respirei fundo, mas o ar veio raso. As paredes pareciam ter se aproximado. O quarto, cúmplice mudo de tantas descobertas solitárias, pareci...

Coisa de Pele: Iniciando a Vida Sexual (3)

Fui para a cozinha em silêncio. Meus pais já estavam acordados. Minha mãe mexia o café. O cheiro subia como um convite à normalidade. Ao cruzar o corredor, percebi: algo em mim havia perdido o direito àquela mesa. Ela me olhou por um segundo. E, como sempre, viu apenas o que queria ver. Sentei e tentei sorrir. Quando levei a xícara aos lábios, percebi o quanto meu paladar ainda estava anestesiado. O gosto do cigarro ainda ali, invadindo o café, deixava-o insípido, insosso. Açúcar demais. Amargor nenhum. Era um absurdo: pela primeira vez, o café parecia infantil. A cadeira parecia menor, desconfortável. Meu pai lia o jornal. Minha mãe mexia no celular. E eu, ali, tentando parecer igual, quando cada célula ardia com a novidade do que me tornara. Quando, a cada respiração, sentia a lembrança da noite anterior ecoar no peito. Terminei o café em silêncio. Voltei ao quarto com passos leves e a mente pesada. A janela ainda entreaberta deixava o vento entrar, suave, e, no entanto, frio. Vesti-...

Coisa de Pele: Iniciando a Vida Sexual (2)

Levantei devagar, com a língua pesada. No banheiro, o espelho me devolveu uma versão opaca de mim. Os olhos levemente vermelhos, como se eu tivesse chorado durante o sono. A pele do rosto parecia mais fina. Prendi o cabelo num coque alto, só para me ver melhor. Os olhos um pouco fundos, a pele pálida. Mas não era isso. Havia algo no meu reflexo que eu não reconhecia. Escovei os dentes três vezes. Gengivas sensíveis. Língua amarga. O hálito denunciava o segredo guardado entre os molares. Mesmo depois da terceira escovação, ainda havia um gosto metálico, discreto, mas insistente. A mácula do segredo que a água se recusava a apagar. "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Coisa de Pele: Iniciando a Vida Sexual (1)

Acordei antes do despertador, não porque o sono houvesse acabado, mas por uma sensação de ter sido expelida do próprio corpo. Não era ressaca, nem enjoo. Era um gosto amargo de ferrugem. A garganta arranhava, uma lixa entre o céu da boca e a base do pescoço. A saliva era espessa e amarga, como se um demiurgo tivesse depositado uma fuligem acre enquanto eu dormia. Tossi duas vezes. Não era forte, mas era o suficiente. Tossi uma terceira, só para confirmar. A sensação permanecia. O peito incomodava, não uma dor aguda, mas uma dor mansa, profunda, como se a fumaça da noite anterior ainda estivesse ali dentro, procurando por onde escapar. Sentei devagar na cama, com medo de que o movimento acordasse algo que dormia em mim mais profundamente do que eu mesma. Havia uma leve tontura. Levei a mão ao peito, tentando entender aquele peso. Respirava fundo, mas o ar parecia encontrar umidade demais no caminho. Como se os pulmões tivessem amanhecido encobertos. Um nevoeiro interno. ...

FUNERAL BLUES - W. H. Auden

Hoje, quero compartilhar este poema com vocês. Como nenhuma das traduções que já li me convenceu, decidi fazer a minha. Meu foco é na recriação poética que capte a essência, o espírito, em vez de seguir a letra. Quero que o poema soe completamente natural em português. Blues do Funeral. -  W. H. Auden Parem todos os relógios, desliguem os telefones, Previnam o choro do cão, trancando-o no porão. Emudeçam os pianos e que o tambor abafado Traga o caixão com os seus enlutados.   Que os aviões acima absortos anunciem aos céus: Ele está morto. Coloquem laços de luto nos pescoços brancos das pombas de rua E que as luvas negras dos guardas escondam suas mãos nuas.  Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste, Meu trabalho semanal e meu descanso dominical Meu meio-dia e minha meia-noite, minha fala e meu canto. Não julguem que o amor é eterno como eu fiz, é engano. As estrelas de nada servem agora, apaguem-nas todas Guardem a lua, desmontem o sol Derramem o oceano e devast...

Aprendendo a Tragar (59 - Final)

Seus lábios responderam ao meu impulso com uma doçura que me desmontou por dentro. Não houve pressa. Não houve mundo. Houve apenas aquele beijo. Meu coração disparou de um jeito quase ofensivo. Eu, que sempre me guardei de tudo, me vi entregue a um gesto que não controlei. A cabeça girava. Havia engolido uma estrela em combustão. O universo se comprimia naquele assento. No balançar do ônibus, nas curvas da estrada, nos soluços do motor.  Minha pulsação vibrava nas pontas dos dedos, entre as coxas, nos ouvidos. Nunca me senti tão viva. Nem tão desprotegida. Quando me afastei, ele ainda tinha os olhos fechados. Um leve sorriso na boca, o rosto de quem acabara de sonhar algo indecente. E eu estava assustada. Fiquei em silêncio. O coração tropeçava dentro do peito sem reconhecer o próprio ritmo. Ele me olhou sem dizer nada. E o mais assustador foi ver que ele não parecia surpreso, apenas calado. Disse bom dia , e sua voz tinha uma qualidade diferente: mais rouca, mais íntima. Respondi ...

Aprendendo a Tragar (58)

Senti o calor do crânio dele contra meu braço, o peso exato da sua confiança. Meu corpo ficou rígido por um segundo, tentando resistir.  Mas não havia perigo. Não havia malícia.  Só uma intimidade crua e inesperada.  Eu não sabia o que fazer com aquela invasão do meu espaço, com aquela delicadeza desarmante. Uma presença tão íntima invadindo meu espaço me desmontou por completo. E ali estava eu, sem manual de instruções, sem protocolo a seguir. A única coisa que eu sabia era que precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa. O desejo não irrompeu; insinuou-se lento e gradual. Virei o rosto devagar, até que meus lábios quase tocassem seu cabelo, e sem me dar a chance de recuar para o lugar seguro de sempre, o beijei.  Não foi no rosto. Não foi um beijo casto na testa. Foi na boca. Um beijo de verdade, sem nem mesmo olhar para os lados. Não sei como começou.  Só lembro do cheiro dele, um perfume quase ausente, misturado ao tecido da roupa, à pele, ao alvorecer. Vi...

Aprendendo a Tragar (57)

... As auroras têm uma qualidade fantasmagórica; o mundo parece indeciso entre acordar ou continuar dormindo. Acordei cedo. Cedo demais para qualquer coisa parecer possível.  O céu ainda era uma mancha pálida quando o ônibus estacionou, suspirando vapor pelas narinas; resignado ao peso das mesmas rotas diárias. A viagem era longa, descendo curvas que pareciam jamais terminar, enquanto o mundo se desenrolava lentamente diante dos meus olhos. A névoa cobria tudo: árvores, postes, pastos silenciosos. A estrada se perdia entre penhascos e precipícios que surgiam de repente, abruptos, igual a pensamentos perigosos.  Pegávamos o mesmo ônibus, Ted e eu.  Primeiro, a coincidência: endereço, trabalho.  Depois, os acenos, as conversas tímidas, os olhares que não buscavam nada.  Sua fala era natural, desprovida de pressa. Eu respondia mais com gestos do que com palavras. Seu olhar me traduzia; em seus olhos, eu era um texto que não pedia interpretação. Aquilo me desconcert...

Aprendendo a Tragar (56)

A praça parecia um lugar tirado de outro mundo. A cidade respirava mais devagar ali. As árvores altas balançavam discretas, parecendo também embriagadas. Pequenas luzes pendiam entre os galhos, douradas, silenciosas, desenhando no escuro o contorno do que parecia um sonho. Bancos de madeira, grama úmida, o som distante de um carro passando, e nós dois, rindo baixo, meio altos, meio soltos. Ted se jogou no banco com um suspiro. Eu fui atrás, me sentando ao lado, mas não encostada. Havia felicidade no ar, e meu corpo parecia conduzir cada partícula até a pele.   O show ainda pulsava nos meus músculos. O som, a fumaça, os olhares dele . O beijo rápido no corredor. O toque na cintura. A história do colar. O chaveiro no bolso. Tudo nele me atingia com uma força que não cabia em palavras. — Foi perfeito — ele disse, olhando o céu.  — Foi — eu murmurei, mas já estava com a bolsa no colo, os dedos procurando o maço. Meu Marlboro vermelho .  Peguei um. Encostei nos lábios. Sen...

Aprendendo a Tragar (55)

Naquela noite, deitada na cama, olhei para o teto e me perguntei se havia algo de quebrado em mim.  Por que não senti nada? Por que meu corpo não respondeu? Por que tudo o que fiz foi observar e pensar? Comecei a acreditar que talvez houvesse um defeito oculto em mim . Um erro de fabricação que me deixava imune ao amor e ao prazer. Talvez eu tivesse sido feita para ser só cérebro. Sem corpo. Sem pele. Sem vontade. Na manhã seguinte, acordei com o barulho dos pássaros e o som de talheres sendo organizados na cozinha. A luz entrava pelas frestas das janelas de madeira e desenhava retângulos dourados no chão de cimento frio. Algumas meninas já circulavam pelo gramado, rindo, ajeitando os cabelos, cochichando sobre os momentos especiais da noite anterior. Vesti o casaco devagar, tentando atrasar o tempo. Lavei o rosto na pia externa, sentindo a água fria escorrer. Um lembrete físico de que eu ainda estava ali, de que aquilo tinha mesmo acontecido. A impressão do beijo já havia sumido. ...

Aprendendo a Tragar (54)

À noite, todos estavam reunidos ao redor da fogueira quando um rapaz começou a tocar O Silêncio , da Catedral, no violão. A melodia se impunha a cada acorde. Alguém então sugeriu o Círculo da Verdade. Aquele jogo onde todos sentavam no chão e uma garrafa girava no centro. Quando parava, o escolhido devia responder a uma pergunta ou realizar um pequeno desafio. Risos nervosos preenchiam o ambiente. Quando a garrafa apontou para mim, senti o rosto queimar. Não tinha como escapar. Respondi desafio. Não havia nada em mim que valesse a pena contar. O grupo vibrou. Sugeriram que eu beijasse alguém. Foi aí que mencionaram o nome dele.  Daniel, Rafael, Gabriel, não importa.  Ele sorriu com mais insegurança do que entusiasmo. Era alto e magro. Os ombros arqueados carregavam o próprio constrangimento. Ninguém perguntou se eu queria. Apenas riram, incentivando e empurrando com os olhos. Levantamos e nos afastamos do círculo, sob uma chuva de risadinhas cúmplices. Estávamos prestes a cu...

Aprendendo a Tragar (53)

Foi antes de Ted. Antes até da pós. Em um daqueles encontros de jovens que minha mãe insistia em chamar de oportunidades para fazer amizades saudáveis. Eu ainda estava na graduação, me escondendo atrás dos livros de biologia e das roupas que não marcavam o corpo. Não usava maquiagem, falava baixo, evitava espelhos. Não tinha curiosidade sobre mim mesma. Eu estava cansada da minha própria solidão, mas não sabia como sair dela. Havia dias em que o som dos meus próprios passos pelos corredores da universidade me dava a impressão de que eu era feita de vidro, e que ninguém ousaria me tocar com medo de me estilhaçar. Em outros dias, eu mesma esquecia que estava ali. Vi o cartaz colado no mural da faculdade. Um folder em tons pastéis , com a imagem de jovens sorridentes de braços entrelaçados.  Retiro Espiritual Nossa Senhora da Soledade. Partilhas, dinâmicas e momentos de oração.  Li mais por tédio do que por interesse. Era o tipo de coisa que normalmente eu ignoraria sem culpa. ...

Aprendendo a Tragar (52)

Ficamos em silêncio por um tempo.  O som da banda parecia longe de novo. Eu observava Ted, os dedos dele ainda entre os meus, e pensei em tudo o que ele tinha compartilhado. Era raro vê-lo assim, sem defesas, vulnerável. E foi nesse espaço que algo se abriu em mim também. Pensei em como ele tinha me deixado ver aquela versão dele, quebrada, real, e tive vontade de fazer o mesmo. Virei o rosto em direção a ele, devagar. — “Você é o segundo homem que eu beijei.” As palavras saíram antes que eu as pensasse, pura confissão. Ele ergueu os olhos, surpreso, mas sem rir. Apenas esperou. Respirei fundo e me abri para ele. Meu primeiro em nada se assemelhava à história de Ted.  Nada em mim se parecia com ele. "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Aprendendo a Tragar (51)

A banda no palco tocava Here Comes the Sun agora.  Pela primeira vez na noite, Ted parecia realmente ali.  Realmente comigo. Olhei para ele com outros olhos.  Sua paixão pelos Beatles deixava de ser apenas gosto: era história.  Não era só música. Era sobrevivência. A raiva em mim já não tinha espaço. Só um tipo estranho de ciúme. Não da ex. Nem da história. Mas de não ter participado da versão de Ted que ainda não me conhecia.   De não ter sido a causa da cura. Ele olhou para mim com ternura. Disse que gostava de covers dos Beatles porque o lembravam de que existe vida depois do fim. Pousei minha mão sobre a dele. Ele apertou com firmeza. Mas, no fundo, mesmo tocada por tudo aquilo, algo me incomodava. Talvez porque, por mais que eu me esforçasse, eu ainda não sabia se seria lembrada como alguém “depois do fim” ou se seria apenas mais uma entre os intervalos. "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência A...