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Mostrando postagens de agosto, 2025

Aprendendo a Tragar (20)

Na volta pra casa, peguei o ônibus sozinha. Ted tinha ficado até mais tarde, nossos horários nem sempre batiam, e no trabalho a gente fingia que era só coincidência quando saíamos juntos.  O ônibus parecia mais lento que o normal. A cidade se arrastava pelos vidros embaçados. Fiquei imaginando como era possível aprender a ser mais... tudo. Mais mulher. Pesquisei no celular durante o trajeto: como se portar com mais confiança, como uma mulher sexy se move, o que elas dizem, onde colocam as mãos, como acendem um cigarro. Assisti vídeos em silêncio, encolhida no banco do fundo. Atrizes. Influenciadoras. Mulheres com saltos altos e olhos afiados. Elas falavam devagar. Sorriam sem mostrar os dentes. Deixavam pausas onde a maioria preenchia com nervosismo.  Anotei mentalmente tudo. Desci no centro, mesmo sabendo que ainda faltavam duas paradas até em casa. Precisava de um lugar. Um momento. Entrei numa praça quase vazia, com bancos de madeira e buganvílias. Os postes já estavam ...

Aprendendo a Tragar (19)

Na quinta-feira, Sofia chegou com uma blusa que deixava os ombros à mostra. Estava frio, mas ela tremia com orgulho. A pele arrepiada parecia dizer: sim, estou sentindo, e é de propósito. Na copa, enquanto conversava com duas colegas riu mais alto que o necessário, falando sobre um filme que tinha visto no fim de semana. Ted estava ali perto, quando ela disse com exagerada naturalidade: — Ah, o Ted também gosta desse tipo de filme. — A frase ficou no ar. Uma isca, delicada e óbvia. — Sério? Qual foi? Eu tô sempre procurando indicação boa. — ele disse. Eles começaram a falar sobre cinema, ele conhecia até os pormenores mais obscuros que ela mencionava, fazia piadas que só ela entendia. Riam juntos. E eu ali, observando aquela conversa fluir com tanta naturalidade, percebi que eu não fazia parte daquele mundo onde eles habitavam. Quando ela jogou o cabelo e virou o pescoço para trás que percebi: Sofia não queria só um homem. Sofia queria o mundo. Queria ser notada, falada, ad...

Aprendendo a Tragar (18)

Na quarta-feira, ela passou duas vezes por mim no corredor. O salto dos sapatos batia no chão com precisão irritante, e cada passo parecia querer marcar território. Usava o perfume que Ted uma vez elogiara, eu lembrava, porque ele havia dito que cheirava a pêssego, e ela respondeu que era “ só um body splash barato ”. Não combinava com ela. Mas talvez fosse essa a intenção: provocar um estranhamento, deixar um rastro. Fingiu não me ver. Mas seus olhos me atravessaram de canto, procurando algo no meu rosto. Na volta pra casa, andei a esmo por algumas lojas, sem saber bem o que procurava. A cidade era fria, e o vento cortava as ruas igual a navalha. Passei os dedos pelos tecidos, na busca por um corpo que não tenho. Blusas com decotes fundos. Saias que pareciam pedir olhares. Provei vestidos que não diziam nada sobre mim, mas insinuavam tudo. Cada peça era uma pergunta: é assim que se olha uma mulher desejável? As luzes dos provadores eram impiedosas, e por um instante desejei n...

Aprendendo a Tragar (17)

Na terça-feira, levei café para ele. Um gesto pequeno, doméstico. O modo como segurei a xícara um segundo a mais, o quase toque dos nossos dedos. Era suficiente. Vi quando ele pegou o café. Vi também quando, num movimento automático, sem hesitação ou curiosidade, apenas o levou até a mesa. Nem me olhou. Nem agradeceu. Sofia fingiu não ver. Continuou digitando, olhos fixos na tela, corpo imóvel. Mas um leve tremor percorria a rigidez de suas costas. Havia uma tensão no modo como cruzava as pernas. Parecia que seu corpo inteiro, de repente, se lembrara de ser mulher num território de disputa. Na saída, ela retocou o batom. Agora mais escuro, mais definido. Despediu-se de Ted com um gesto educado e trivial, que, no entanto, pairou no ambiente. Não o tocou, mas o cercou. Na volta pra casa, a cidade parecia mais quente, mais barulhenta. Os carros que cruzavam as ruas, pareciam saber para onde iam. Eu, não. Após descer do ônibus, entrei direto na tabacaria. Pedi um Marlboro vermelho ....

Aprendendo a Tragar (16)

Eu havia esquecido aquele livro. Até agora. — Você está bem? — A voz de Sofia me trouxe de volta ao presente. — Sim, só... pensando. Ela apagou o cigarro com um movimento deliberado, pisando a bituca com o salto como quem sela uma sentença. Levantou-se, alisou a saia com gestos lentos, calculados, e me olhou com algo que talvez fosse pena, ou pior, condescendência. Se afastou sem dizer mais nada, deixando-me sozinha com meu cigarro mal fumado e a fumaça arranhando a garganta. Lembrei do que Duras dizia, que seduzir não era uma questão de autenticidade, e sim de consciência. Saber o que se quer. E como conseguir. Levei o cigarro de volta aos lábios. Não traguei. Apenas deixei a fumaça pairar entre minha boca e o silêncio, repetindo os gestos que havia memorizado. Um teatro íntimo. Ted sabia que eu não sabia fumar de verdade. Mas isso não importava. O que importava era a imagem. A ideia. A versão de mim que o cigarro encenava. Ted era meu. Ele só não sabia ainda que eu ...

Aprendendo a Tragar (15)

Eu tinha doze anos.  Era uma daquelas tardes chuvosas de domingo que pareciam não acabar. Eu e meu pai estávamos sozinhos no sítio, e ele havia adormecido no sofá, com o jornal aberto cobrindo-lhe o peito. Entediada, eu vagava pela casa, tomando goles mornos de um chá que nem gostava. Foi quando vi, entre os livros de receita e os romances de banca da minha mãe, um volume discreto: "O Amante", de Marguerite Duras. O nome soava estrangeiro, sofisticado . Olhei ao redor, tirei o livro da estante e fui me esconder na varanda dos fundos, onde ninguém jamais ia. Era ali, atrás de vasos rachados e da samambaia seca, que eu me refugiava. O livro não era como os outros. Não tinha aquela doçura previsível dos romances baratos. Era sóbrio, inquietante. Comecei a ler entre as pernas cruzadas, devagar. Depois, como quem escorrega num barranco: rápido, sem controle. As palavras queimavam os olhos. Um calor estranho subia pelo pescoço. Aquilo era errado. Era intenso. Era vivo. A...

Aprendendo a Tragar (14)

Levei o cigarro de novo aos lábios, desta vez com mais cuidado. Ainda arranhava a garganta, mas consegui não tossir. — Melhor. Ted vai gostar — disse ela. O nome dele, dito assim, com casualidade, me atingiu como um soco seco no estômago. Sofia havia percebido. É claro que havia. Meu interesse por Ted não era exatamente discreto. — O que você quer dizer? — perguntei, tentando parecer desinteressada. — Ah, Joyce, por favor. Você fica vermelha toda vez que ele aparece. E ele... Bem, Ted tem uma coisa com mulheres que fumam. Sempre teve. Ela tragou mais uma vez, os olhos perdidos em algum ponto entre os galhos. Havia uma intimidade naquele comentário que me incomodou. Sofia conhecia Ted. Conhecia seus gostos, seus fetiches. Talvez melhor do que eu. — Vocês...? — comecei, mas ela me interrompeu. — Não. Nunca. Mas eu observo as pessoas, Joyce. É um hábito. E Ted... Ted é observável. A certeza dela me irritou. Mas também me fez pensar. Sofia não sabia que Ted e eu est...

Aprendendo a Tragar (13)

Mas Ted. Ted queria esconder. Ele era assim. Guardava sua vida pessoal como um país estrangeiro com fronteiras vigiadas. No trabalho, nunca me tocava. Nunca um olhar demorado. Nunca um sorriso fora do lugar. Quando falava comigo, era como se eu fosse qualquer uma. Ainda que, às vezes, sua voz vacilasse. Ele queria que eu fosse profissional. Discreta. Invisível. E aquilo me enlouquecia, devagar. Certa manhã, o sol batia na janela quando vi Sofia se aproximando da escada. Decidi descer com ela. O coração quase saltou do peito quando ela tirou o maço da bolsa ali mesmo , diante de mim. Seus dedos acariciaram o cigarro com a mesma delicadeza que eu costumava observar da janela. Por um instante, achei que fosse acendê-lo no corredor. A ideia me deixou tonta. — Você fuma? — perguntou, sem me olhar, alheia à minha presença. Eu fumava? — Às vezes. Ela sorriu. Um sorriso que carregava o peso de todos os cigarros que eu a havia visto fumar. De todas as manhãs que passei observando, invi...

Aprendendo a Tragar (12)

Nos dias que se seguiram, o ar tornou-se espesso. O trabalho, mais apertado. Os pensamentos ganharam peso, se tocando em silêncio pelos corredores. Sofia movia-se diferente. Uma nova coreografia, mais lenta, deliberada, para que cada passo deixasse um rastro. Os cabelos, antes sempre soltos, agora presos com uma preguiça estudada: um coque frouxo de onde escapavam fios rebeldes, mas não por acaso. Os lábios, antes nus, tingidos com um vermelho que não pedia licença. Um vermelho para ser notado. Havia algo na forma de ela segurar o cigarro que desafiava todas as convenções do trabalho. Não era o ato de fumar; outros também fumavam, escondidos na área externa, apressados e culpados. Era o ritual. A solenidade silenciosa com que ela transformava cada pausa em sacrilégio. Ela sempre escolhia o mesmo horário: quando a luz do sol entrava pelas janelas do segundo andar numa preguiça dourada. Levantava-se da mesa com uma lentidão medida. Os dedos longos escorregavam pela bolsa até encontrar o ...

Aprendendo a Tragar (11)

Abri os olhos no ônibus, observando a paisagem urbana que desfilava pela janela embaçada. Ted. Mesmo agora, tempos depois, o nome dele provocava uma reação física. Um arrepio que começava na nuca e descia pela espinha, instalando-se no baixo ventre como uma promessa não cumprida. Ele surgira do nada. Tinha uma presença que contrastava brutalmente com a mediocridade do ambiente. Seus cabelos ralos nas têmporas conferiam-lhe uma distinção que eu associava aos professores das minhas fantasias adolescentes. — Perdida? — perguntara ele, com os ombros relaxados, a barba por fazer, a camisa amassada. Sua voz tinha uma qualidade aveludada que me fez estremecer. Ele me olhou como se já me conhecesse. E talvez, naquele momento, eu já tivesse decidido que queria ser conhecida por ele. Gaguejei uma resposta, sentindo-me ridícula em meu vestido novo, comprado especialmente para causar boa impressão. Ele se aproximou com naturalidade, fez uma piada qualquer sobre a burocracia, e eu ri. Ri...

Aprendendo a Tragar (10)

Lembro de chegar cedo demais, me sentar numa cadeira de plástico torta, as mãos cruzadas no colo tentando parecer firme, enquanto meu coração batia como o de uma criança no primeiro dia de aula. Esperava solenidade, tradição, o peso sobre os ombros como um manto de respeitabilidade. Mas encontrei corredores mal iluminados, salas com cadeiras desalinhadas, vozes dispersas por trás de portas fechadas e um cheiro de mofo que denunciava o abandono. Me senti pequena. Insignificante. Como uma impostora vestindo roupas emprestadas. Por um instante, havia me tornado Carrie no seu baile de formatura, pronta para o banho de balde. O diploma, que deveria ser meu passaporte para a maturidade, parecia, de repente, um documento inútil em mãos trêmulas. Nada ali era como nos meus sonhos. Foi então que Ted apareceu. Entre a fantasia que se desfazia e o cheiro de café requentado no fundo do corredor. "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação d...

Aprendendo a Tragar (9)

Naquela manhã, eu acordei mais cedo do que o necessário. O sol ainda não havia rompido completamente as janelas, mas meu corpo já vibrava com uma ansiedade nova. Enquanto escovava os dentes, imaginei minha foto no crachá, o som do salto nos corredores, o perfume leve que escolhi com cuidado. Vesti minha melhor roupa, ou o que, na época, eu acreditava ser minha melhor roupa, e a sensação de zíper subindo pelas costas me deu uma estranha dignidade, como se estivesse me fechando por dentro para suportar o mundo lá fora. O cheiro do café passado ainda estava no ar quando meu pai chamou da porta: “Vamos?”. Ele me levou de carro, em silêncio. O rádio baixo, a cidade ainda meio vazia. Eu via tudo pela janela com olhos de quem achava que estava finalmente entrando na vida adulta. Cada esquina parecia simbólica. Cada semáforo, um portal. O volante nas mãos dele, o motor vibrando sob meus pés, o banco de couro um pouco gasto: tudo ali era real demais. Meu coração batia alto, rápido, ...

Aprendendo a Tragar (8)

O ônibus se mantinha lento, balançando monótono pelas ruas matinais, vencendo as curvas sem pressa de chegar.  Eu também não.  A cabeça ainda encostada no vidro gelado, os olhos fixos em nada, e o corpo entregue a uma espécie de torpor sem nome. Parecia que a névoa que cobria a base dos morros estava também dentro de mim.  Eu me encontrava perdida entre o zunido constante do motor e o murmúrio abafado dos passageiros. Meus dedos tamborilavam nervosos sobre a bolsa de couro sintético , um tique que desenvolvera nos últimos dias, como se meu corpo procurasse um ritmo, uma cadência que fizesse sentido em meio ao caos que minha vida se tornara. Quando foi que tudo mudou? A pergunta martelava em minha mente desde que acordara, insistente, como se houvesse uma necessidade silenciosa de entender. Tentei localizar o ponto exato da virada, o instante em que deixei de apenas ouvir Ted para começar a desejá-lo. Fechei os olhos e deixei que minha memória me levasse de volta ao ...

Aprendendo a Tragar (7)

Ted ficou ali. Presente demais para ignorar, ausente demais para confiar. A música insistia: “Why do you telephone?... I'm so sorry...”   A quilo me atravessou. Não como ofensa, mas como verdade. Uma confissão que eu também poderia ter escrito, sobre o desejo e o arrependimento. Parecia que a música expressava o que eu não tinha coragem de dizer. Nem para mim. Observei o rosto do Ted: calmo, bonito demais para o caos que deixava nos outros. A pele limpa. A boca ligeiramente entreaberta. O tipo de beleza que não se esforça. Que apenas existe.  Fumar tinha sido bom. Tinha sido melhor do que eu queria admitir. O ato de tê-lo aceso sozinha. O gosto forte, amargo, que ficou na língua. O calor que veio depois, subindo pelo corpo como um segredo partilhado só comigo mesma. E mesmo agora, naquele ônibus descendo pela névoa, eu ainda o sentia dentro de mim, fisicamente.  Passei a mão devagar pela minha coxa, só para sentir o toque sobre o tecido. Não por provocação. Mas por...

Aprendendo a Tragar (6)

Então fechei os olhos. Coloquei os fones de ouvido e, inspirada pelas roupas de Ted , escolhi Suedehead, do Morrissey . A guitarra entrou arrastada e melancólica, e logo a voz veio, suave, quase carinhosa, mas cheia de veneno: “Why do you come here, when you know it makes things hard for me?” O vidro gelado contra a minha testa parecia acalmar uma febre invisível. Mas, por dentro, a música mexia em nervos que eu não queria mais expor. Pensava no cigarro da madrugada. No gosto que deixara na boca. No jeito como minha mão tremia menos, mas o coração mais. O ônibus mergulhou na neblina. Eu entrava em outro mundo. Branco. Opaco. Suspenso. As janelas embaçaram por dentro. Meus pensamentos também. Ali, envolta por aquele silêncio úmido, eu me dei conta de algo que até então evitava: eu não sabia mais voltar. A antiga Joyce ficava para trás, curva após curva, como folhas secas soltas na estrada. Ted se mexeu ao meu lado. Não acordado, não consciente. O  corpo dele buscava o meu po...

Aprendendo a Tragar (5)

Lá embaixo, a neblina formava um tapete espesso e branco, cobrindo os vales como um lençol estendido sobre corpos adormecidos. Apenas os topos dos morros despontavam, ilhados, como se flutuassem no vazio. A luz azulada da manhã entrava pela janela, tornando tudo mais lento, mais distante. As casas pequenas, as rochas, os galhos secos, tudo passava com a delicadeza de um devaneio.  E eu ali, observando. Observando Ted.  Seu cabelo era curto nas laterais e na nuca, com um pouco mais de volume no topo. Macio, liso, obediente ao vento. A luz tocava seu rosto como se o esculpisse com calma. Ele vestia tons de outono suave: uma camiseta Henley de algodão sob um cardigã de lã, de botões discretos. Tudo sóbrio. Tudo passado. Sem uma ruga sequer. A calça de sarja, de corte reto, caía-lhe bem. Nos pés, botas de couro com cadarço, simples e sem alarde. Nenhuma tatuagem. Nenhum piercing. A pele jovem. Os traços definidos. A expressão tranquila. Dormia com uma elegância quase discreta, c...

Aprendendo a Tragar (4)

No vidro, o reflexo do meu rosto se misturava à paisagem. E, por um segundo, não soube dizer onde terminava o mundo e eu começava.  A garganta ainda coçava. Era como se minha pele não tivesse aceitado inteiramente a nova Joyce.  Uma parte de mim queria voltar para o quarto escuro da infância. A outra já caminhava por entre os campos altos daquilo que arde e transforma. Lá embaixo, a neblina parecia esperar. E o ônibus descia. E eu também. Ted chiava recostado no banco, como se o mundo tentasse impedi-lo de escapar.  Sentado ao meu lado, no fundo do ônibus, o lugar de costume dos que não querem ser notados, encostou a cabeça em mim, fria e úmida, e fechou os olhos por um instante, como se já não tivesse forças para continuar acordado. O ônibus descia a serra. A estrada era estreita, de curvas longas e encostas verdes que pareciam não ter fim.  Eu amava aquela paisagem: as araucárias que se erguiam solitárias entre os morros, esqueléticas, esguias, como sentinel...

Aprendendo a Tragar (3)

No ônibus, escolhi a janela do lado esquerdo. Sempre gostei da sombra da manhã batendo do outro lado. Mas, naquele dia, não era por conforto, era por silêncio.  Encostei a cabeça no vidro frio e fechei os olhos por alguns segundos. Ainda era cedo. O motorista dirigia com a lentidão resignada de quem já havia feito aquela viagem tantas vezes que o caminho parecia sonolento. Quando abri os olhos, a paisagem já começava a mudar. A estrada serpenteava à borda de uma serra alta, rochosa, recortada por campos ocres. Lá embaixo, o mundo ainda dormia sob um cobertor branco: uma neblina espessa, densa, imóvel, como um lago de algodão estagnado entre mares de morros.  Os topos, no entanto, estavam livres, ilhas verdes e douradas emergindo do branco. Algumas araucárias solitárias fincavam suas copas pontiagudas contra o céu. E o céu parecia uma promessa que alguém ainda não ousava cumprir: limpo, vasto, azul profundo. Era o primeiro dia de inverno.   Mas o frio que eu sentia não...

Aprendendo a Tragar (2)

Na cozinha, a mesa já estava posta. Meu pai lia o jornal. Minha mãe picava uma maçã com um olhar severo e distraído. Sentei. Ninguém me olhou. Ninguém disse bom dia. — Dormiu mal? — perguntou minha mãe, por fim, sem tirar os olhos da fruta. — Um pouco. — Deve ser esse tempo úmido — murmurou meu pai. Falaram do tempo, dos preços, da política. Eu mastigava o pão sem sabor, numa cadência vazia. Podia sentir o cheiro do cigarro sair pelos meus poros. Por um momento, achei que minha mãe fosse levantar o nariz, farejar algo no ar. Mas não. Estava ocupada demais com o próprio desencanto. Ela não sabia. Na escada, deixei meu corpo descer. Na garganta, uma dor seca. Na pele, uma irritação viva. Com a mão, segurei firme a bolsa que balançava ao ritmo dos passos. Me lembrei do gosto amargo, mas denso, do tabaco, aquele gosto que sussurrava: “Você está aqui. Você existe.” Do lado de fora do prédio, o mundo seguia indiferente. Mas por dentro, era como se algo em mim finalme...

Aprendendo a Tragar (1)

Na manhã seguinte, o quarto ainda cheirava a rebeldia . Eu havia apagado o primeiro cigarro da noite anterior com a ponta dos dedos, dentro de um copo d'água. Em seguida, lancei-o à rua, como quem dispensa um ritual.  Mas o encantamento já estava feito. A boneca de porcelana havia se estilhaçado no chão. Sem pensar, automaticamente tinha acendido outro , impregnando de fumaça toda aquela cela. Agora, mesmo com a janela aberta, restava algo no ar: um odor amadeirado de carvalho defumado. Algo meu. Sentei-me na beira da cama, os pés descalços encontrando o chão frio. Não queria dormir. Queria voltar ao ponto exato de onde eu não podia mais recuar. Precisava de coragem: encarar meus pais, encarar o café, sustentar-me sobre meus próprios pés. No chão, um pouco abaixo da cama, repousava meu maço. Peguei outro cigarro. As mãos trêmulas, mas não como da primeira vez. Era outra tremedeira, mais contida.  Respirei fundo. Segurei. Soltei pelo nariz.  Levei o cigarro aos ...

O "Segundo" Cigarro (38 - Final)

A fumaça subiu lenta, preguiçosa, se perdendo na noite.  Levava com ela um pedaço da menina que eu fora até ali. A menina que pedia permissão para viver, que esperava que outros lhe dissessem quem ela deveria ser.  A menina que sonhava com homens que nem sabiam que ela existia, que construía fantasias sobre vidas que nunca teria coragem de viver. O cigarro queimava entre meus dedos como um pequeno farol na escuridão . Cada vez que o levava à boca, sentia o calor se espalhar pelos pulmões, uma sensação estranha de posse sobre o meu próprio corpo. Cada tragada era um pacto com essa mulher nova que eu mal começava a conhecer. Uma mulher que não queria mais só sonhar.  Queria estar.  Queria ser.  Queria escolher seus próprios vícios, seus próprios erros, seus próprios prazeres.  Uma mulher que fumava não porque alguém achava sexy, mas porque havia algo de rebelde e adulto naquele ato. Algo que dizia “eu decido” quando o mundo inteiro parecia decidir por ela. Ca...

O "Segundo" Cigarro (37)

 A primeira puxada da fumaça veio quente, amarga, invasiva. Tossi, mas não parei. A fumaça subiu lenta, se perdendo na noite. Cada inalação era uma decisão silenciosa, calorosa, amarga, libertadora.  Um ato que era só meu. Não era suave como eu tinha imaginado. Era áspera, invasiva, como tudo que vale a pena na vida. Tossi; mas não parei. Não parei por essa raiva muda que eu carregava há tanto tempo, essa vontade de romper com tudo que era esperado de mim, essa necessidade de provar para mim mesma que eu podia escolher, mesmo que fosse escolher errado ... "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

O "Segundo" Cigarro (36)

Quando o relógio marcou duas da manhã, abri a janela. O ar frio da madrugada entrou cortando o cheiro de roupa guardada e lembrança velha. Lá fora, a cidade dormia, mas eu podia sentir que havia algo mais além daquelas janelas fechadas. Além dos quartos pequenos. Além das vidas pequenas. Peguei o maço da bolsa. Tinha ficado ali, parado, sem dizer nada, mas sempre me esperando.  As mãos tremiam menos do que eu esperava. Tirei um cigarro, coloquei nos lábios.   O papel era áspero contra a pele, estranho e familiar ao mesmo tempo.  Acendi com o isqueiro que tinha comprado junto com o maço. A chama dançou por um segundo no escuro, iluminando meu rosto como se eu fosse uma atriz num filme noir... "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

O "Segundo" Cigarro (35)

Fui para o quarto, trancando a porta atrás de mim como se isso bastasse para me proteger do mundo. E fiquei ali, parada, ouvindo o som da novela, a voz do meu pai ainda resmungando alguma coisa, a chuva batendo na janela. Na solidão do meu quarto, tudo parecia menor.  A cama onde eu sonhava com vidas que não eram minhas, a escrivaninha onde eu fingia estudar, as paredes que guardavam segredos de uma adolescência que se estendia além dos seus limites naturais.  Mas naquela noite, pela primeira vez, o quarto não me pareceu um refúgio.  Parecia uma prisão. Deitei na cama com roupa e tudo, olhando para o teto.  A casa foi ficando silenciosa aos poucos.  Primeiro o pai, depois a mãe, depois apenas o som da chuva lá fora ... "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

O "Segundo" Cigarro (34)

Quando finalmente reconheci as ruas perto de casa, experimentei um despertar turvo. Desci sob a chuva fina, com o coração batendo num ritmo estranho.  Meus  pés tocavam o asfalto molhado. Entrei silenciosamente pela porta. O apartamento permanecia em seu ritual noturno familiar. Passei direto pela sala, onde minha mãe assistia ao noticiário com aquela expressão de quem está presente, mas não realmente ali. Meu pai, como sempre, parecia mais atento ao som do próprio prato do que a qualquer coisa ao redor.  Eles nem levantaram os olhos quando passei. Eu era parte da mobília, parte da rotina, parte daquele cenário que nunca mudava. — Chegou tarde hoje — disse minha mãe. — O ônibus demorou por causa da chuva — respondi. Meu pai me olhou de cima a baixo. Eu conhecia bem aquela expressão. A expressão de quem precisava encontrar algo errado. — Olha como você está. Toda molhada, parecendo uma mendiga. Que exemplo é esse? Tirei os óculos para limpar as gotículas de chuva. — Pa...

O "Segundo" Cigarro (33)

O ônibus estava quase vazio. Poucos passageiros dispersos pelos bancos, cada um carregando seu próprio peso de fim de tarde. Sentei no fundo, encostada na janela. O vidro estava embaçado pela respiração dos viajantes silenciosos e pela diferença de temperatura entre o interior aquecido e a noite fria lá fora.  Eu podia ver apenas os contornos das ruas, das fachadas, dos postes, tudo borrado. A cidade inteira era uma aquarela que alguém deixou na chuva.  As gotas desciam pelo vidro feito lágrimas transparentes, carregando consigo pequenos fragmentos da luz dos postes e dos semáforos. Cada gota que escorria parecia arrastar um pedaço de mim, tudo aquilo que eu já não conseguia mais segurar. Peguei os meus fones de ouvido e liguei na primeira música que apareceu. Sem ver, sem pensar.  "Under the Milky Way" , murmurou uma voz ao meu lado. Uma senhora idosa, com um sorriso triste, apontou para o meu celular. "The Church" , ela disse, como se fosse importante que eu sou...

O "Segundo" Cigarro (32)

Não fui direto para casa.  Andei sem rumo pelas ruas molhadas, as luzes dos postes borradas pela garoa nos meus óculos , como se até o mundo quisesse esconder as coisas de mim. A cidade parecia conspirar contra mim. Cada esquina que eu dobrava revelava mais do mesmo: pessoas apressadas, carros que passavam respingando água suja, vitrines que refletiam uma versão distorcida de mim mesma.  Caminhei por mais de uma hora, sem destino, apenas deixando que meus pés me levassem para longe daquela tarde. Quando finalmente parei, estava diante de um ponto de ônibus.  As placas traziam nomes de lugares que eu nem sabia que existiam.  Entrei no primeiro que chegou, sem perguntar, sem pensar, só para escapar do frio, da cidade, de mim mesma.  O trajeto era outro . Ruas desconhecidas, esquinas que eu nunca tinha visto ... "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos ...