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Mostrando postagens de abril, 2026

Degredo (10)

A casa estava quieta. Fui até a sala e percorri os dedos pelas lombadas na estante, sem pressa, até encontrar Elis & Tom, 1974 . Tirei da capa com cuidado, segurei o disco pelas bordas e o encaixei no eixo. Baixei a agulha devagar até sentir o momento exato em que ela afundou no sulco: primeiro o chiado quente; depois os estalos; só então a música. O violão, o contrabaixo e a voz de Elis entrando fundo, ferindo o silêncio do recinto. “É pau, é pedra, é o fim do caminho.” A batida do violão e o piano subiram, e logo a voz de Elis começou a desfiar os versos. Fechei os olhos. Deixei que o ritmo circular me envolvesse. O som não vinha apenas das caixas; ele parecia vir do chão, subindo pelas solas dos meus pés. Meus ombros cederam. Inclinei a cabeça para trás, sentindo o peso do cabelo contra a nuca, e permiti que a música ocupasse espaço. Sorri sozinha na meia luz da sala, sentindo o relevo analógico de cada nota. O celular vibrou no chão. A tela do celular iluminou o ambiente ...

Degredo (9)

Levei minhas coisas para o quarto sem fazer barulho. Não havia muita coisa para carregar, mas o gesto de atravessar o corredor com elas nos braços pareceu mais definitivo do que eu esperava. Deixei tudo no chão e fechei a porta. Por um momento fiquei parada, aguardando alguma reação da casa. Depois fui ao banheiro. A água demorou um pouco a esquentar. Fiquei ali esperando, encostada na parede, ouvindo o som do chuveiro bater no piso. Lavei o cabelo, passei sabonete pelos braços e pelo peito, e percebi que não precisava mais esfregar o corpo obsessivamente para tirar o cheiro de cigarro. Meu corpo deixara de ser uma evidência de crime. Certas rotinas terminam sem anúncio. Quando saí, já era noite. No quarto, acendi apenas o abajur. Peguei uma camiseta larga e penteei o cabelo ainda úmido. Então abri a janela. A rua estava silenciosa. Apoiei os braços no parapeito e acendi um cigarro. O primeiro trago veio com uma tontura leve, agradável. A fumaça subiu devagar diante do vidro. O...

Degredo (8)

Então minha tia, que durante toda a história estivera de braços cruzados, encostada no espaldar da cadeira, de cabeça inclinada, processando cada frase sem o interromper, se levantou e abaixou o volume, não desligou, apenas abaixou. De costas, quis saber onde ele morava. Houve uma pausa. Da caixa de som, a voz de Elis vinha baixa agora. Ted respondeu que ainda morava com os pais; as mãos buscaram os joelhos. Minha tia assentiu devagar, olhou-o bem e o chamou para conhecer o resto da casa. Ela saiu, mas Ted seguiu imóvel. Somente quando ela sumia pelo corredor é que ele se rendeu. Eu não me mexi. Ouvi as vozes deles pelo corredor, o tom dela explicando alguma coisa, o tom dele respondendo, a porta do quarto de hóspedes abrindo. A voz dela ficou mais alta por um segundo, animada com alguma coisa, e depois voltou ao normal. Não demorou muito. Quando voltaram para a sala, pararam em frente à estante. Minha tia pegou um porta-retrato. Passou para Ted. Eu me levantei e fui até os dois...

Degredo (7)

Descarregamos as caixas do porta-malas e seguimos para o elevador. O peso das caixas nos braços ocupou o resto do caminho, até pararmos diante da porta que minha tia destrancava. Ted ficou um passo atrás de mim quando entramos. Limpou discretamente a sola do sapato no capacho. Minha tia, pelo canto do olho, acompanhou o gesto e abriu um sorriso silencioso. O apartamento tinha um cheiro adocicado que eu nunca consegui identificar com precisão. Talvez fosse apenas o madeiramento dos móveis velhos aquecido pelo sol da tarde. Ted apoiou a caixa no corredor estreito enquanto eu deixava a bolsa sobre a cadeira. Ele percorreu o ambiente com o olhar contido: os quadros pequenos nas paredes, os bibelôs de cerâmica na estante, a cortina de renda que ondulava sob um vento que não havia, enquanto a luz da tarde atravessava seu grosso tecido, amarelando tudo. Minha tia indicou o sofá. Ted disse que estava bem. Ela insistiu. Ele se sentou. Ela foi à cozinha. Sentei-me ao lado de Ted. Nossa...

Degredo (6)

A última mala bateu na soleira antes do asfalto. Ted empilhava no porta-malas aberto o que minha tia ajudara a descer. Eu segurava a bolsa contra o peito, sem saber direito o que fazer com as mãos quando elas não carregavam nada. As caixas de papelão foram acomodadas uma sobre a outra. O som oco do impacto me fez pensar nos cabides batendo no armário minutos antes. Ted ajustou o peso, pressionou as laterais para que não cedessem na curva e fechou a tampa com cuidado. Ninguém disse que estava pronto, mas entramos. Sentei no banco de trás. A mala no colo. O cheiro de estofado aquecido pelo sol se misturava com o contorno rígido do ombro de Ted. Quando o carro arrancou, não olhei para o prédio, mas para a sua mão apoiada no joelho. Ainda assim, soube o momento exato em que deixamos a frente do portão. O movimento do carro alterou o peso do corpo contra o encosto. Eu me mantive ereta, as mãos sobre o zíper da mala. Eu ainda sentia o peso do olhar do meu pai. Não era raiva. Raiva eu t...

Degredo (5)

Há uma certa injustiça na forma como a memória trata os espaços. O apartamento dos meus pais eu consigo reconstituir objeto por  objeto;  precisão esta que já se perde para as feições de quem amei . As estantes de carvalho escuro com os livros alinhados e intocados. O cheiro de cera e madeira. As cortinas grossas barrando a luz. Os móveis dispostos em uma rigidez que anulava qualquer tentativa de movimento. Existe uma teoria de que cada vez que acessamos uma lembrança, nós a alteramos. Faz sentido: nunca gostei de voltar àquela sala, mas sempre retornei àquele dia. A porta estava entreaberta. Quando atravessei o umbral, meu pai estava no centro do tapete com os braços cruzados. Minha tia estava diante dele, as mãos cortando o ar e as palavras vindo em fluxo contínuo. Injustiça. Vergonha. Exagero. Ele não respondia. O policial posicionou-se no canto da sala, quieto. Apenas vigiava. Foi quando Ted entrou. Duas ordens de realidade colidiram. Meu pai fixou os olhos nele. ...

Degredo (4)

Meu pai atendeu. Expliquei que precisava entrar para buscar minhas coisas. Não houve o ruído do portão destravando. Apenas a resposta de que não havia nada ali que eu precisasse pegar. O policial deu um passo à frente e se inclinou em direção ao painel. Em um tom alto, calmo e constante, disse seu nome e sua patente. Explicou que eu só ia entrar, pegar minhas coisas e sair, sem confusão. Meu pai respondeu que não acreditava em nada daquilo. Acrescentou que, se eu continuasse insistindo, minhas coisas seriam jogadas pela janela ou simplesmente destruídas. O portão permaneceu fechado. O policial tentou argumentar. Levantei a cabeça. Meu corpo inteiro ficou tenso. Meus olhos iam de uma janela a outra. A respiração falhou; o ar entrava em golpes. Senti o estômago contrair ao primeiro barulho. Pensei nas caixas se abrindo no ar, nas minhas calcinhas expostas no centro da cidade. Só me vinha a sensação do impacto, repetida, antecipada. Por um instante, ouvi algo se abrindo e um estil...

Degredo (3)

Ficamos sentados por algum tempo depois disso. Minha tia vasculhava a bolsa. Ted batia os dedos sobre a mesa. A náusea subiu rápida. Levantei-me e pedi licença. Minha tia perguntou se eu estava bem. Respondi que sim, que só precisava ir ao banheiro. Saí da sala e percorri o corredor até encontrar a placa. Entrei, tranquei a porta e apoiei as mãos na pia. Respirei fundo, esperando que o mal-estar recuasse. O corolário permanecia suspenso. Abri a torneira, joguei água no rosto e me encarei no espelho. Quando retornei, minha tia conversava com a amiga. As duas interromperam a conversa ao me ver. Sentei-me novamente. A amiga se virou para mim e explicou que haviam conseguido uma viatura e um policial para nos acompanhar. Que poderíamos ir naquele momento, se eu concordasse. Levantamos e seguimos pelos corredores até a saída. Do lado de fora havia uma viatura estacionada. Um jovem policial esperava encostado no capô, postura tranquila de quem já repetira aquela tarefa muitas vezes. Di...

Degredo (2)

No trajeto, ela falava ocasionalmente sobre coisas práticas: horários, documentos, procedimentos. Eu concordava com a cabeça, meio ausente, enquanto a cidade se desenrolava pela janela do carro. O prédio da delegacia era uma estrutura moderna de dois pavimentos, onde o branco da fachada contrastava com o marrom das bases e o padrão dos cobogós. Ted nos esperava à porta, posicionado sob as longas fileiras de janelas com esquadrias escuras que recortavam a lateral do edifício. A mulher que minha tia conhecia apareceu poucos minutos depois, cumprimentou-a com familiaridade e voltou-se para mim com atenção profissional. Entramos. O interior emanava suor, papel envelhecido e desinfetante de pinho. Era uma combinação que parecia condensar todas as pequenas tragédias pessoais que passavam por ali. A iluminação branca e inflexível revelava cada detalhe com crueza: as pessoas aguardando em cadeiras de plástico, algumas murmurando entre si, outras simplesmente olhando para o vazio. Uma m...

Degredo (1)

Acordei com o apito da chaleira. Permaneci deitada, tentando organizar pensamentos que se recusavam a qualquer ordem, observando um quadrado de luz deslocar-se pela parede, milímetro a milímetro, acompanhando a ascensão do sol. Do lado de fora, minha tia refazia seu cotidiano, me incluindo. Eu não. Ainda me sentia provisória. O rádio soava baixo quando entrei na cozinha para o café. Minha tia ergueu os olhos e acenou com a cabeça em direção à mesa, onde uma xícara já me esperava. Sentei. O café estava quente e forte. Entre um gole e outro, ela anunciou que sairíamos mais tarde, quando retornasse de suas vendas. Mencionou uma conhecida que trabalhava na Delegacia de Polícia Civil, alguém que talvez pudesse orientar sobre a recuperação dos meus documentos. Não era garantia de nada, advertiu, mas ficar parada certamente não mudaria a situação. Assenti antes mesmo de perceber o que havia aceitado. Terminei o café. Lavei a louça. Voltei ao quarto e sentei-me à beira da cama. Peguei o ...

Mentor Imperfeito (25 - Final)

O celular acendeu sobre a mesa de cabeceira. A tela iluminou o quarto por um instante. Como você está, dizia a mensagem. Era Ted. Respondi que estava bem. Contei do dia: a manhã lenta, o café forte demais, minha tentativa de reaver os documentos e o dinheiro, o final de tarde fumando com minha tia. Disse que nunca havia experimentado o Hollywood. Que foi bom. Verdade simples. Sentei-me na beira da cama, as costas encostadas na parede fria, e acendi mais um cigarro. Falamos mais um pouco sobre o livro que ele me presenteara, sobre o tempo seco, sobre a casa e seu gato peralta. No copo, as cinzas se acumulavam entre um cigarro e outro. Ele comentou que o dia tinha sido comprido, que perdera um ônibus. Perguntei se ele ainda lia antes de dormir. Disse que às vezes. Rimos de uma lembrança breve, e a conversa foi se acomodando no silêncio que chegava cedo naquele bairro. Houve ternura ali. Nenhum de nós tentou esticar o momento além do que ele comportava. As frases se acomodaram uma...

Mentor Imperfeito (24)

Sentei-me na cama ainda com o corpo quente, sentindo o tecido limpo tocar a pele recém-lavada. Peguei o livro que Ted me dera e o apoiei sobre as pernas. A leitura não pedia pressa; pedia presença. O quarto oferecia solitude enquanto a casa respirava em outro cômodo, distante. Em algum ponto, interrompi a leitura para virar a lâmpada do abajur um pouco mais para baixo. A página ganhou sombra. Continuei. Peguei o maço que estava sobre a mesa de cabeceira, retirando um cigarro. A leitura prosseguiu com o objeto ali, entre os dedos, reconhecido, mas apagado. Quando me dei conta, o marcador avançara algumas páginas. Fechei o livro com cuidado, mantendo o lugar. Ajustei o travesseiro atrás das costas. Acendi o cigarro e inspirei. A fumaça ficou baixa, contida. Voltei ao texto, agora com outra atenção. Kathy descrevia Tommy com delicadeza. Cada gesto dele era ali preservado. Ela falava da forma como ele segurava os objetos, da risada súbita que vinha sem aviso, dos silêncios que se i...

Mentor Imperfeito (23)

Aproveitei o momento e perguntei se ela tinha ficado com raiva do meu pai depois que foi expulsa de casa. Se tinha guardado mágoa todos esses anos. Ela pensou um pouco antes de responder. Disse que no começo, sim; ficara muito magoada, muito ferida. Passou anos sem conseguir entender como a própria família podia virar as costas daquele jeito. Mas, com o tempo, a raiva foi passando e restou apenas a tristeza. Disse que entendia agora que os pais dela, e depois o meu pai, tinham sido criados de um jeito que não deixava espaço para diferenças. Que eles tinham medo daquilo que não conheciam, medo de não seguir as regras. Minha tia apagou o cigarro no cinzeiro de cerâmica. Levantou-se, segurou minha mão por um instante e entrou na sala, deixando a porta entreaberta. Permaneci ali mais algum tempo, atenta ao som dos pássaros. Por fim, me levantei, entrei e, fechando a porta de correr, passei pela cadeira onde o gato continuava dormindo. Ao me ver, minha tia ofereceu mais café, mas recu...