Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de fevereiro, 2026

Mentor Imperfeito (9)

A livraria surgira sem grande intenção, e Ted entrou nela mais por hábito do que por necessidade. O sininho tilintou quando ele empurrou a porta. Entrei atrás dele. Havia um cheiro de livros antigos, e de café também, vindo de algum lugar nos fundos da loja. Ted se perdeu entre as estantes, os dedos deslizando pelas lombadas dos livros em uma busca, não numa escolha. Por fim, deteve-se numa seção junto à janela alta, onde a luz enfraquecida do sol tocava as capas inclinadas. Vi-o puxar um volume, folhear algumas páginas, voltar à contracapa. Quando retornou, trazia nas mãos o pequeno volume encadernado. Pediu dois cafés enquanto nos sentávamos à mesa e, sem cerimônia, estendeu-me o livro: Não Me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro. Senti um aperto lento e insistente ocupar o espaço dentro do peito, até tornar-se difícil sustentar o próprio ar. Ele colocou o livro na mesa, entre as xícaras. O cheiro do café subia, preenchendo o espaço estreito da livraria. Não disse nada de imedi...

Mentor Imperfeito (8)

Ted segurou meus ombros com as duas mãos e me balançou de leve, o suficiente para eu parar de mexer por um segundo. Ele se posicionou em frente ao meu rosto, forçando meus olhos a encontrarem os dele. A voz saiu firme, sem raiva, sem pena: — Não adianta. Eu nunca vou te abandonar. As palavras me atingiram direto onde doía. Quis gritar, quis empurrá-lo. Mas não consegui. Só fiquei ali parada, olhando para ele, sentindo o calor de suas mãos atravessando minha blusa. Ele me puxou para perto. Deixei a testa afundar em seu peito, onde sentia o coração bater devagar, compassado. Tentei me guiar por aquele ritmo, inspirando quando ele inspirava, soltando o ar quando ele soltava. Aos poucos, as bordas da minha visão clarearam. Afastei-me um pouco, sequei o rosto com as costas da mão e olhei para o Ted. Ele não fez perguntas. Apenas esperou. Devagar, Ted retirou as mãos dos meus ombros. Seus olhos buscaram algo no meu rosto e, fitando-me com firmeza, disse que deveríamos caminhar um p...

Mentor Imperfeito (7)

Acomodei-me no banco traseiro do ônibus. A paisagem passava pelas janelas: postes, pessoas, fachadas. Não tínhamos falado muito antes de subir. Ele comprou minha passagem, e foi só. Tentei respirar fundo, mas o ar prendeu na garganta. Olhei pela janela. As ruas se repetiam. Pensei na minha tia, na voz dela ao telefone, no que eu diria quando chegasse. Mas as palavras não vinham. A mão esquerda formigava. Abri e fechei os dedos. Nada mudou. Ted se mexeu. Começou a se levantar. Meu corpo inteiro travou. Ele ia descer. A ideia de ficar sozinha no ônibus me aterrorizou. O peito apertou mais. A visão escureceu nas bordas. Respirei rápido, mas o ar não entrava. Ele me beijou, apertou minha mão, soltou. Quando percebi, ele já estava de pé, a mochila pendurada num ombro só, caminhando em direção à porta enquanto o ônibus reduzia sua velocidade. O chão sumira. Em queda livre, meu peito explodia em taquicardia. Cada batida martelava contra as costelas. O corpo inteiro sibilava em alerta, c...

Mentor Imperfeito (6)

Acordei com o som da porta se fechando. Fiquei deitada, olhando o teto. O quarto ainda guardava o cheiro de tabaco e suor. A luz entrava pelas frestas da cortina, cortando o ambiente em fatias de claridade e sombra. Lá fora, a cidade acordava para mais um dia que não me incluía. Levantei devagar. Lavei o rosto. Era estranho ver-me assim, com o coração em desalinho, sem a força emprestada de sua presença. Tomei um banho demorado, deixando a água cair até a pele ficar vermelha e dolorida. Vesti a mesma roupa, ainda úmida, era tudo o que me restava. Sentei na cama. Deitei de novo. Voltei a sentar. As horas se arrastavam. Pensei na minha tia; era o único fio ao qual podia me agarrar. Saí no horário combinado. A cidade era puro movimento. A rodoviária ficava perto. Caminhei devagar, pernas fracas, corpo pesado. As pessoas iam e vinham carregando malas, correndo para não perder a partida. Procurei um lugar de onde pudesse vê-lo chegar e sentei-me num banco de concreto em frente à plata...

Mentor Imperfeito (5)

O som da água corrente deixou de ser um mero ruído branco e se transformara em algo convidativo. Levantei-me, as pernas trêmulas e geladas, e me aproximei em silêncio da porta entreaberta do banheiro. Um vapor morno escapava, carregando o cheiro limpo do sabonete do hotel. Espiei. Ted estava debaixo da ducha, cabeça baixa, ombros largos e tensos. Ali encontrei um ponto firme em meio ao caos. A água escorria lentamente pelas suas costas, delineando a coluna, lavando o pó e o cansaço. Ele não me ouviu. Entrei e apoiei-me no balcão da pia, soltando a fumaça devagar. Ele se virou, interrompendo o curso da água. Os olhos carregados encontraram os meus, depois desceram até o cigarro entre meus dedos. Não disse nada, apenas observou. Dei uma longa tragada, sentindo o fumo nos pulmões. Anestesiante. Com a outra mão, comecei a tirar a roupa, que deslizou pelos meus braços e caiu no chão encharcado. Levei o cigarro aos lábios novamente. A fumaça desceu pela garganta, preencheu meus pulmõ...

Mentor Imperfeito (4)

Respirei fundo. Digitei os números um a um. Quando terminei, fiquei olhando para a tela, o polegar pairando sobre o botão de ligar. Era só apertar. Só isso. Mas parecia que tudo dependia daquele gesto. Encostei o telefone no ouvido e apertei. Toques. Um, dois, três. O som repetido cortava o silêncio do quarto. Até que alguém atendeu. A voz era rouca, cansada. Era minha tia. Falei meu nome. Ela demorou para responder, acredito que tentava me localizar na memória. Então perguntou o que havia acontecido. Contei tudo. Que estava sem casa, sem documentos, sem nada. Que precisava de ajuda. Do outro lado da linha, não houve silêncio. Imediatamente, ela disse que eu podia ir para a casa dela. Não senti alívio, mas meus ombros relaxaram com uma possibilidade pequena e frágil de que talvez houvesse um caminho. Agradeci. Desliguei. Respirei. Observei o quarto à minha volta. Após alguns segundos peguei o maço do Marlboro e o senti na palma da mão. Tirei um cigarro, o examinei, pensei...

Mentor Imperfeito (3)

Ouvi as batidas na porta e me levantei para abrir. Ted entrou com o corpo cansado. Sentamos na beirada da cama, um ao lado do outro, e ele começou a falar sobre o que vinha pela frente. Tinha dinheiro para o hotel. Depois disso, não sabia. Eu precisava de documentos, de algum rumo, de qualquer coisa que me tirasse dali. Ele perguntou se havia alguém com quem eu pudesse contar. Havia passado a tarde toda pensando nisso. Lembrara de uma tia, irmã do meu pai, que eu mal conhecia, um fantasma de infância. Não sabia se ela recordaria de mim. Conseguir o número tinha sido difícil: eu não a tinha nos meus contatos. Contei para o Ted. Ele achou que valia a pena tentar, afinal, eu não tinha nada a perder. Peguei o telefone, mas não conseguia discar. Os dedos travavam. Tinha medo do que viria a seguir: do silêncio do outro lado, da voz que não me reconheceria, da rejeição que eu já conhecia tão bem. Medo de ouvir, mais uma vez, que não havia lugar para mim em parte alguma. Ted não disse ...

Mentor Imperfeito (2)

Ted chegou na hora do almoço. Três batidas na porta. Eu ainda estava deitada, o mesmo cheiro do dia anterior. Nenhuma vontade de levantar. Ele disse que ia me levar para almoçar, um restaurante ali perto, comida de verdade. Hesitei. Abri a porta e ele entrou, trazendo consigo o odor de suor e trabalho. Não sentia fome, apenas vazio. Ele insistiu, calmo, sem pressa. Levantei devagar, passei água no rosto, amarrei o cabelo. Saímos em silêncio. O sol queimava as retinas. Pessoas passavam rápidas, e eu, o contrário de tudo, apenas um corpo solto no meio da pressa alheia. O restaurante era simples. Mesas de fórmica, paredes de vidro, e, ao redor, um jardim calmo e sem flores. Sentamos perto da janela. Arroz, feijão, macarrão, bife, batata frita. Eu não achava palavras. Peguei o garfo, mas não consegui levá-lo à boca. Ele disse que eu precisava comer, e eu concordei, mas não toquei no prato. Ele mastigou devagar, atento ao que fazia. Percebi que ele não sabia o que dizer; estava ali por ...

Mentor Imperfeito (1)

Acordei sem saber onde estava. As pálpebras pesavam, os olhos ardiam. Levei um tempo para reconhecer o teto manchado, a lâmpada pendurada num fio descascado. Um quarto de hotel, último abrigo dos que não têm mais nome nem destino. Meu corpo tremia. Não conseguia parar. Coisa que a gente faz quando a alma não dá conta. Puxei a coberta até o queixo, mas ela não aquecia. Virei de lado e encolhi os joelhos contra o peito. A posição fetal. Minha mãe dizia que eu dormia assim quando era pequena. Não podia pensar nela naquele momento. Não podia. O frio subia do colchão, atravessava as costas, descia pela espinha. Ocupava o espaço que antes fora lar. Não tinha mais casa. Nem família. Nem nada. Ainda usava a mesma roupa, era tudo o que eu possuía. Levei a mão ao rosto, senti a oleosidade da pele, o cabelo grudado. As lágrimas vieram sem que eu chamasse. Escorreram mornas, encontraram o travesseiro. Chorei sem ruído. O choro também pode ser silêncio. Ninguém quer ouvir. Abracei meu p...

Cai o Pano (34 - Final)

Devo ter ficado parada mais tempo do que imaginei. O telefone pesava, frio, na minha mão. Fiquei observando a tela escura até que meus dedos começaram a discar o número da minha mãe. O polegar pairou sobre o botão verde. Esperei pelo impulso que nunca veio. Apaguei tudo, dígito por dígito. Deixei o telefone no criado-mudo. A tela apagou. Sem emprego, sem casa, sem família. O desalento vinha através do resquício amargo do tabaco. Percebi, então, que cada lembrança daquela vida com Ted era um gesto emprestado. Um prazer clandestino. Fui ao banheiro. O cubículo nem espelho tinha. Lavei as mãos, mas a sujeira persistia na pele. Voltei ao quarto e me deitei; o colchão cedeu. Questionei se seria forte o bastante para o que quer que viesse. Não houve resposta. Senti, pela primeira vez, que talvez não houvesse retorno. O plano de negação havia falhado; agora só restava a espera. O maço estava no chão, mas não senti vontade de fumar. Não queria mais fumar. Deitei-me de lado e fiquei obse...

Cai o Pano (33)

Faltava um vidro na porta do hotel. No lugar, um papelão preso com fita adesiva tentava conter o calor úmido da rua do ar viciado do saguão. A mulher atrás do balcão parecia a vasta encarnação física do lugar. Seu pesado corpo se derramava sobre a superfície de fórmica; marcado por cicatrizes e os fantasmas de corpos quentes. O rosto, um mapa de veias finas e sulcos profundos; não sugeria idade, mas um acúmulo de horas estagnadas. Seus olhos, pequenos e brilhantes, me avaliaram com um cansaço que dispensava qualquer julgamento moral. Era o olhar de quem já tinha visto todas as versões daquela cena. O balcão baixo, a lâmpada amarelada tremendo no teto, o cigarro queimando no cinzeiro. Nada além do necessário era perguntado. Pedi um quarto e avisei que Ted chegaria no dia seguinte. A mulher apenas assentiu, o movimento do queixo formando ondulações na pele. A mão curta, com unhas descascadas, empurrou a chave pelo balcão. Subi pela escada estreita. Cada degrau exibia uma película de pó e...

Cai o Pano (32)

Ted insistia para que eu não me preocupasse. Repetia, como um mantra, que daríamos um jeito, que eu já tinha passado da idade de viver sob aquela tirania. As frases vinham suaves, mas escondiam uma pressa: precisava encontrar uma saída para mim antes que o relógio o chamasse de volta ao seu próprio mundo. Foi quando ele se lembrou do hotel. Como ele já dormiria perto do trabalho no dia seguinte, o plano se formou: eu passaria aquela noite lá e ele assumiria a reserva quando chegasse. Era um arranjo precário, um paliativo de apenas quarenta e oito horas, mas o único ao nosso alcance. Eu não tinha sequer uma escova de dentes ou uma muda de roupa. Com uma determinação prática que contrastava com o meu estado de choque, Ted me levou ao centro da cidade, que àquela hora já começava a se esvaziar. O mês estava no final, e Ted já tinha esgotado todo o salário. Ele nunca foi bom com dinheiro. Estávamos contando com o cheque especial, que já era pouco e estava perigosamente perto do limite. Ent...

Cai o Pano (31)

Voltei para dentro, o corpo ainda trêmulo. Ted estava sentado na mesa da cozinha tentando entender o que tinha escutado. Quando levantei os olhos para ele, as palavras saíram secas: fui expulsa. Ele ergueu o rosto, incrédulo, e depois riu nervoso. Fiquei ali, as mãos vazias, ombros curvados. Ted disse que era coisa do momento, uma reação exagerada que logo passaria. Que eu era adulta, que logo os ânimos baixariam, que tinha direito às minhas escolhas, que era um absurdo me tratarem como criança. Ele disse que meus pais iam se arrepender, que nenhum pai expulsa uma filha de verdade. Para ele, era questão de orgulho ferido, nada mais. Falou sobre esperar os ânimos baixarem para tentar uma conversa racional, classificando a atitude deles como um absurdo completo. Suas palavras eram um remédio amargo que eu queria desesperadamente engolir, mas que não conseguia descer pela garganta. A realidade, crua e inevitável, se impôs naquela tarde. A casa de Ted não seria um refúgio possível. Ted mor...

Cai o Pano (30)

De repente, a campainha soou, estridente e dissonante. Ted abriu os olhos, irritado. Fiquei imóvel, torcendo para que o ruído se dissolvesse no silêncio, mas ela tocou novamente, desta vez mais insistente. Ted saltou da cama em um movimento brusco. Agarrou um short no chão e o vestiu apressadamente, com o corpo ainda úmido. Ele saiu do quarto tropeçando. Sentei na beira da cama, observando o cigarro mal apagado no cinzeiro improvisado. O quarto abafado: fumaça, suor e calor. Um frio súbito tomou meu peito. Levantei-me devagar, pus o vestido e o segui, mantendo distância, mas perto o bastante para ouvir. Quando ele abriu a porta, uma voz feminina, firme e inconfundível, soou pelo corredor. — Chama a Joyce para mim — ordenou. O silêncio que se seguiu foi uma espera sufocante. Ted não mentiu; ele apenas se afastou, revelando-me ao fundo. As palavras que minha mãe proferiu em seguida foram baixas, brutais e definitivas. Não houve espaço para súplicas ou negociação. Nenhuma lágrima seria ...

Cai o Pano (29)

O isqueiro acendeu. Aspirei profundamente, sentindo a primeira tragada invadir meus pulmões, densa, ansiosa, doce. Ted me observava com uma mistura de fascínio e surpresa. Avancei dois passos, lentamente, soltando a fumaça que envolveu seu rosto antes de se dissipar no quarto abafado. Cada movimento meu tinha peso e direção: os dedos correndo pelo tecido da cortina, a respiração mais profunda, os olhos fixos nos dele. O cigarro ardendo entre meus dedos marcava um ritmo interno, um sinal de que a cena era minha. A cinza pendia, longa e frágil, tremendo, prestes a cair. Aproximei-me o suficiente para sentir o calor de sua pele no mínimo espaço entre nós. Seu cheiro invadiu minhas narinas. Suávamos sob o sol de fim de inverno que entrava pela janela. Com o cigarro entre os dedos, percorri devagar o contorno do seu ombro. Não era uma carícia explícita, mas um toque que afirmava domínio. O cigarro, quase no fim, já estava quente demais para ser segurado, mas eu o mantinha ali, deixando que ...

Cai o Pano (28)

Ao chegar à casa, liguei para Ted. Ele abriu a porta com um espanto discreto, sem entender por que eu estava tão leve, com roupas frescas e quase nada nas mãos. Apenas sorri. Em resposta, ele me deu um sorriso nervoso que achei encantador. Ele me conduziu pela residência, mostrando cada cômodo. Eu apenas o seguia, absorvendo cada detalhe: a lâmpada nua, a toalha esquecida sobre o tanque, o chinelo solitário no canto da sala. Então, ele me mostrou uma fotografia restaurada e colorizada, em uma moldura de madeira rústica. Disse que era a única foto de seu pai na infância, tão pequeno que a espingarda ao seu lado parecia ser bem maior do que ele. A imagem, tirada em alguma roça, mostrava o menino sobre a grama, em frente a um Ford 1930. Ao lado, havia outro porta-retrato, esse de Ted, com apenas cinco meses. Todo fofinho, com um sorriso que não cabia no rosto. Havia algo de íntimo naquele tour, algo que transformava uma simples visita em um elo de conhecimento mútuo. Ele me guiou até seu ...