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Mostrando postagens de julho, 2025

O "Segundo" Cigarro (31)

Nunca fui boa em lidar com o público e, ali no trabalho, ainda estava aprendendo os procedimentos, tentando decorar cada etapa enquanto lidava com a impaciência dos clientes. Me confundi durante uma fala , riram de mim , perdi a paciência. Não devia. Não demorou muito e o supervisor apareceu do meu lado. — Joyce, preciso falar com você.  A voz dele cortou o burburinho do ambiente. Alguns colegas olharam de soslaio. Sofia estava ali perto, observando com aquela expressão que não era exatamente maliciosa, mas também não era solidária. — Você precisa prestar mais atenção. Isso não pode continuar acontecendo. As palavras foram ditas em tom baixo, mas firme. Eu senti o rosto esquentar.  Assenti, murmurei um pedido de desculpas, voltei ao trabalho.  Mas aquilo me bastou. Alguma coisa tinha se rompido. Não era apenas a bronca, era a forma como todos tinham presenciado, como se eu fosse uma criança sendo corrigida na frente da turma. O resto do dia passou numa névoa de procedime...

O "Segundo" Cigarro (30)

A quinta-feira amanheceu cinzenta e chovendo fino.  E foi ali, sob a sombrinha torta enquanto esperava o ônibus, que senti o peso dos últimos meses se acumulando nos ombros. Durante o trajeto, o corpo úmido e molhado de Ted, que não se importara em usar um guarda-chuva, se encostava em mim.  Senti o frio.  Não reclamei. Horas mais tarde, no trabalho, eu voltava da copa. E então, vi: Sofia estava sentada à mesa dele . Não apenas sentada, inclinada, próxima demais. O cigarro apagado entre os dedos, como uma arma à espera do momento certo. Ela ria de algo que ele dissera, uma risada baixa, íntima. E, por um segundo, vi Ted sorrir de volta. Aquele vislumbre me embrulhou o estômago. Eu voltei para a minha mesa, mas já não estava ali. O dia se alongou como um peso inútil. O relógio me zombava a cada segundo que passava ... [Sofia] "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retr...

O "Segundo" Cigarro (29)

No fim do expediente, o destino me pregou mais uma peça.  Quando eu já estava exausta do dia e de mim mesma, saindo enclausurada de um pequeno corredor, vi os dois na sombra de uma árvore no jardim.   Ted e Sofia conversavam rapidamente. Palavras banais entre eles, só sobre trabalho, palavras técnicas e vazias que poderiam ter sido ditas a qualquer pessoa. Mas o jeito como ela sorriu para ele, como tragou o cigarro, como cruzou as pernas com aquela naturalidade que só quem sabe que é desejada tem... Como o olhou por cima da fumaça com aqueles olhos que prometiam mundos... aquilo me cortou mais fundo do que qualquer palavra poderia. E eu, parada ali como uma estátua, já não sabia se queria fugir correndo ou chorar. Só sentia que aquela vazão de dentro de mim estava prestes a se romper definitivamente. Quando cheguei em casa naquela noite, encarei minha própria imagem no espelho do banheiro. A mulher pálida, de olhos fundos, me encarava com uma tristeza tão grande que dava noj...

O "Segundo" Cigarro (28)

Pela primeira vez, pensei em desistir dele.  Fugir antes que fosse tarde.  Antes que ele me quebrasse em cacos tão pequenos que nem eu pudesse juntar.  Antes que ele levasse consigo o pouco de autoestima que eu ainda conservava.  Eu sabia que, se ficasse com ele, eu ia sofrer eternamente, que eu nunca seria o que ele desejava de verdade.  Já me imaginava morrendo sozinha, uma solteirona amarga guardando fotografias de um amor que nunca foi completamente meu.  Mas tê-lo ao alcance das mãos e nunca ser suficiente... essa dor eu não suportaria. Essa seria pior que qualquer solidão. Melhor acabar com tudo logo do que morrer um pouco a cada dia ao seu lado. Eu queria me proteger.  Eu precisava me proteger.  Só não sabia como uma menina que nunca aprendera a lidar com os próprios sentimentos poderia fazer isso ... "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspond...

O "Segundo" Cigarro (27)

No próximo dia, a tensão virou exaustão. Passei o dia inteiro como quem veste uma roupa apertada, desconfortável na própria pele , consciente de cada olhar, de cada palavra sussurrada pelos corredores. Era como se todos soubessem de algo que eu mesma ainda não conseguia admitir: que eu estava perdendo Ted antes mesmo de tê-lo completamente. As colegas comentavam como se eu não existisse. — Ted e Sofia? Formam um casal bonito, né? Têm aquele jeito de quem nasceu pro mundo — disse uma delas, rindo como se fosse a coisa mais óbvia do universo. Elas falavam como se eu fosse invisível , como se minha presença não significasse nada.  Eu assenti. Eu assenti mecanicamente, um gesto automático de quem finge desinteresse, mas por dentro o gosto amargo da invisibilidade queimava como fel na minha garganta... "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

O "Segundo" Cigarro (26)

Naquela noite, chorei sozinha no meu quarto, e, vagando como um fantasma inquieto, abri a janela, respirei o ar frio, espiei os apartamentos vizinhos: luzes amarelas, jantares em família, o azul pálido das televisões. Eu era uma criança olhando as vitrines de uma loja cara. Pensei em Ted.  Pensei em Sofia. Pensei no cigarro escondido no fundo da gaveta, guardado como um segredo que me envergonhava. E, por um instante, desejei profundamente tê-lo ali, entre os dedos.  Não era o gosto que eu queria.  Era a coragem.  Matar a antiga Joyce e nascer, enfim, aquela mulher que eu imaginava nos olhos dele quando ele olhava Sofia.  Transformar-me na mulher que desejava , mesmo que isso custasse minha própria alma. Fechei a janela, deitei de roupa mesmo e esperei o sono que demorou a chegar, como tudo que eu queria na vida ... "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a ret...

O "Segundo" Cigarro (25)

Chorei baixinho, como sempre fiz desde pequena, porque em casa ninguém nunca escutava meus choros. Eu chorei.  Um choro feio, sufocado, desses que arranham a garganta.  Um choro de quem sabe que ninguém vai ouvir e, se ouvir, não vai importar. Meu pai, afogado nas próprias frustrações, mantinha a cerveja sempre gelada e os olhos fixos no jornal. Sussurrava amarguras políticas entre os dentes e, sem me olhar nos olhos, dizia que eu precisava aprender a ser mulher de verdade. Nunca explicou o que isso queria dizer. Minha mãe, sentada sob a luz fraca da cozinha, refugiada em suas palavras cruzadas, vivia alheia ao mundo, como se sobreviver ao casamento fosse o único jogo que lhe restava jogar. "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

O "Segundo" Cigarro (24)

Naquela noite, depois que voltei para casa, tudo desabou. O peso que durante o dia eu carregara com a altivez de quem finge que nada sente, caiu sobre mim assim que a porta do meu quarto se fechou.  Foi como se, de repente, o ar se tornasse espesso demais para respirar, como se o apartamento silencioso conspirasse contra mim.  O silêncio foi um golpe: a ausência de Ted, o vazio das palavras que eu queria ter dito e não disse, o gosto amargo da comparação que eu engoli durante o expediente inteiro. Sentei-me na cama sem tirar os sapatos.  O apartamento estava mergulhado naquela penumbra azulada dos postes da rua, e eu fiquei ali, imóvel, como um objeto esquecido no canto de um quarto, esperando que alguma coisa em mim se quebrasse de vez.  Porque talvez fosse isso que eu precisava: quebrar completamente para depois poder me recompor em algo diferente, algo que merecesse ser olhado da forma como Ted havia olhado para Sofia... "Todas as imagens aqui expostas são meram...

O "Segundo" Cigarro (23)

Seguimos nosso dia assim, ele do lado dele, eu do meu. E, quando mais tarde descemos juntos as escadas, o silêncio entre nós era desconfortável. Eu analisava cada gesto, cada palavra, procurando pistas do que ele realmente sentia. A separação entre o que éramos no trabalho e o que éramos fora dele permanecia intacta, como ele sempre fez questão de manter. Ele perguntou se íamos embora, e eu respondi que sim.  E, enquanto caminhávamos juntos, eu não conseguia parar de pensar em Sofia . No jeito como ela havia se inclinado para acender o cigarro, na maneira calculada e ao mesmo tempo natural com que havia chamado a atenção dele. Era como se ela soubesse exatamente o que fazer, como se possuísse um manual secreto de sedução ao qual eu nunca tivera acesso. Será que Ted pensava nela quando me beijava? Será que, nos momentos mais íntimos entre nós, ele fechava os olhos e imaginava que eu era ela? A dúvida me corroía por dentro, transformando cada carinho numa suspeita, cada gesto de am...

O "Segundo" Cigarro (22)

Por dentro, no entanto, as perguntas se acumulavam, enquanto um Ted despreocupado me perguntava se eu estava bem, pois parecia um tanto distante. Distante. Eu me perguntava se ele não havia reparado no jeito como Sofia parecia dominar o ambiente, ou se sequer imaginava como seus atos reverberavam em mim. Ele havia me jogado a quilômetros de distância, perdida numa espiral de insegurança e ciúme que me fazia questionar tudo: meu corpo, minha personalidade, minha capacidade de ser desejada. Porque, por dentro, a comparação me atravessava como uma lâmina fria e afiada. Eu, com meu batom que nunca durava além do primeiro café. Eu, com meu jeito de menina travada que nunca sabia o que fazer com as mãos. Eu, com meus gestos pequenos, quase invisíveis, como se estivesse sempre pedindo desculpas por ocupar espaço no mundo. E ela... ela, com aquela boca escarlate que parecia ter sido feita para prometer coisas proibidas . Ela, com aqueles olhos que carregavam segredos e ofereciam promessas que...

O "Segundo" Cigarro (21)

Mais tarde, quando esbarrei em Ted no corredor, eu ainda sentia um gosto amargo na boca. A cena com Sofia tinha ficado marcada na memória . Ainda via, como uma imagem queimada na retina, o modo como ela havia passado por ele, com aquele ar confiante, a fumaça do cigarro subindo devagar entre os dois. Eu sorri. Um sorriso pequeno, torto, forçado, que mal chegou aos olhos. Era tudo o que eu conseguia oferecer naquele instante. Ali no trabalho, Ted gostava que eu desempenhasse outro papel: o da colega de equipe, distante, irrepreensível. Não havia espaço para cenas ou confrontos. Ted também sabia disso e, no breve gesto de inclinar-se para me cumprimentar, manteve a naturalidade de sempre, como se fôssemos apenas colegas, como de fato éramos para todos ali. Ele me cumprimentou num tom calmo. Eu observava sua boca se movendo, a mesma boca que, segundos antes, havia se entreaberto ligeiramente quando Sofia passou por ele. A mesma boca que eu havia visto formar um "nossa" quase i...

O "Segundo" Cigarro (20)

Ted gostava de alimentar em mim a ideia de que havia um poder escondido naquele gesto, no tragar, no exalar da fumaça, como se o cigarro fosse um talismã secreto da sedução. Ele sussurrava essas coisas no meu ouvido quando estávamos sozinhos, sempre com aquele tom de quem compartilha um segredo: "Olha como os homens olham para ela" , " Viu o jeito que ela segura o cigarro? ", " É impossível não reparar numa mulher assim ". Mas com Sofia foi diferente. Quando ela passou por ele naquela manhã, fumando com aquela naturalidade estudada, Ted não precisou comentar. Ela era tudo o que ele descrevia. Eu vi. Ela era exatamente o que ele sempre me pintou como irresistível: uma mulher que fumava não como vício, mas como arte. Como sedução pura. E eu estava ali, observando tudo, entendendo finalmente que todos aqueles comentários sobre outras mulheres, todas aquelas tentativas de me convencer a fumar, não eram sobre mim. Eram sobre ele . Sobre o que ele queria ver...

O "Segundo" Cigarro (19)

Pela manhã, o mundo manteve sua rotina impiedosa. O trabalho, as tarefas mecânicas, os sorrisos automáticos. Encontrar Ted dentro do frio ônibus como se aquilo já fosse um hábito entre nós. Falávamos do clima sobre as ruas cheias de neblina, algo comum naquele horário , de um projeto no trabalho, de um filme que ele sugeriu e que eu disse já ter visto, embora fosse mentira . Preferi soar interessante a admitir minha ignorância. Ele ficava ao meu lado como se nada tivesse mudado. E, talvez para ele, nada tivesse mesmo. Mas dentro de mim havia uma tempestade sem nome. Sofia chegou ao trabalho naquela manhã, mais intensa do que nunca, mais perigosa do que nunca. Usava uma blusa justa, o decote desafiando o frio leve , como se o ar fresco fosse apenas mais um espectador da sua pequena cena. O Marlboro vermelho , equilibrado com desleixo entre os dedos, parecia tão natural quanto os brincos ou o relógio. O cigarro nos lábios era quase um convite . Os olhos semicerrados, sombreados pelo c...

O "Segundo" Cigarro (18)

Dentro das paredes do apartamento, a vida arrastava-se como o último suspiro antes da morte. Minha mãe falava do preço da feira, da novela, do vizinho que se aposentou. Meus ouvidos estavam com ela, mas minha mente estava presa ao eco da voz de Ted dizendo meu nome, e ao som solitário da minha respiração no escuro . — Você nem tá prestando atenção, Joyce — disse minha mãe. — Desculpa, tô ouvindo sim. — Cuidado, viu? Não quero você metida em besteira. Besteira . Se ela soubesse. Se ela sonhasse o que eu já tinha feito.   O gosto levemente amargo do cigarro ainda persistia no fundo da minha garganta; a vertigem que esvaziara minha mente, e a lembrança se agarrava em mim, teimando em não partir. De como me senti ao fumá-lo: diferente, perigosa, adulta de um jeito que me assustava e me excitava ao mesmo tempo. Se ela soubesse de tudo. Que eu havia fumado, que havia deixado ele me tocar, que havia gostado de tudo isso mais do que deveria. Que agora estava aqui, na cozinha, fingi...

O "Segundo" Cigarro (17)

Na volta para casa, sentamos juntos de novo. Ele quis pegar minha mão. E eu deixei, mas hesitante, com a palma meio úmida, o pulso um pouco tenso. Ele não percebeu. Claro que não. Homens como ele vivem em outro tempo, outro clima. — Tá tudo bem? — ele perguntou, entreolhando o celular. — Claro — respondi. E esse “ claro ” doeu mais do que um não. O ônibus balançava pelos buracos da avenida e, a cada solavanco, era como se algo dentro de mim se deslocasse também. O cheiro dele grudado na minha roupa se misturava ao perfume leve que borrifei de manhã, um perfume de menina, que ainda acreditava que voltaria para casa a mesma de antes. As mãos dele, quentes e grandes, cobriam as minhas por completo. Mãos que horas antes tinham me guiado como quem conhece caminhos secretos do corpo. E agora estavam ali, seguras, quase inocentes, como se dissessem “não aconteceu nada”. Mas aconteceu. Acontecia ainda. O gosto do cigarro seguia em minha memória, amargo e doce ao mesmo tempo, como o próp...

O "Segundo" Cigarro (16)

Eu tinha medo.  Medo do cheiro que ainda impregnaria nos meus cabelos, mesmo depois do banho. Medo de meus pais severos, atentos, sentirem algo fora do lugar. Eles ainda me tratavam como uma criança. Eu não podia sair sábado à noite, nem fingir uma dor de cabeça no domingo para escapar da vigilância.  Passei o fim de semana conversando com Ted pela internet, tentando parecer leve, madura, interessante. Mas não contei nada. Nada sobre meus pais. Nada sobre as regras, os horários. Muito menos sobre o vazio afetivo que me definia. Eu não queria que ele soubesse quem eu era. Porque, ao saber, talvez ele também se afastasse. Assim, a segunda-feira aconteceu como um ritual de contenção. Eu não fumei. Não ousaria. Mas pensei, sim . Pensei o tempo todo. No gosto. Na sensação . No poder. E em como isso tudo poderia me destruir. Ou me refazer. E então o vi. No ônibus.  Quando me viu, sorriu com uma familiaridade que me desarmou. E durante todo o trajeto, enquanto fingíamos c...

O "Segundo" Cigarro (15)

Sofia contara à avó sobre Ted. A avó, claro, adorara a ideia. Queria vê-la feliz. E algumas colegas de trabalho dele, talvez mais ingênuas ou simplesmente encantadas pela ideia de romance, já haviam tentado empurrá-los um para o outro, como se a vida fosse um tabuleiro de peças perfeitas. Todos torciam para Sofia. Menos ele. Ele a evitava. Com polidez, com cuidado. Mas evitava. E eu? Eu era o caminho pelo qual ele escapava dela. A conclusão me veio como um corte sem aviso. Talvez ele só tivesse me notado porque eu era, naquele momento, o antídoto para a intensidade de Sofia.  Eu era discreta, nova demais no trabalho para gerar rumores, vestida demais para provocar interpretações. E, até há pouco tempo, limpa demais de qualquer desejo. E no entanto… ali estava eu. Com a memória do gosto do cigarro ainda viva na boca . Com a lembrança da mão dele roçando minha cintura quando ninguém via. Com o corpo aceso por um calor novo, feito brasas que não se apagam, apenas se escondem sob...

O "Segundo" Cigarro (14)

Porque era isso, no fundo, o que Ted oferecia a ela. Não a chance de ser boa, mas a chance de ser má de um jeito específico, controlado, desejado. E Sofia, que havia passado a vida toda tentando não ser um problema para ninguém, finalmente encontrou alguém para quem ela podia ser exatamente o tipo de problema que ele queria ter. Eu a invejava por isso, percebi. Invejava a forma como ela havia se entregado completamente àquela identidade, como havia abraçado aquela versão de si mesma sem reservas. Porque eu ainda estava lutando , ainda estava tentando conciliar a mulher que eu achava que deveria ser com a mulher que eu sentia que era quando estava perto de Ted , quando fumei meu primeiro cigarro , quando sentia meu corpo responder aos mesmos estímulos que despertavam tanto desejo nele. E foi ali, sob aquela árvore, que percebi o quanto disso tudo também era meu. O quanto eu me agarrara ao Marlboro como se ele fosse um sinal, um símbolo de que eu podia, enfim, ser outra.  O quanto ...

O "Segundo" Cigarro (13)

Os fetiches de Ted se encaixaram na vida de Sofia como peças de um quebra-cabeças que ela nem sabia que estava montando. Não era só sobre sexo, percebi. Era sobre identidade. Era sobre finalmente encontrar um espelho onde pudesse se reconhecer.   Naqueles rituais íntimos, naquelas pequenas transgressões que compartilhavam, Sofia não estava se perdendo; estava se encontrando . Ou, pelo menos, estava encontrando uma versão de si mesma que fazia sentido, que tinha propósito, que era desejada exatamente como era. E talvez houvesse também algo de punição nisso tudo. Uma punição que ela se impunha por ter sido sempre a filha que sobrou, a neta que precisou ser criada, a mulher que nunca soube direito como amar ou ser amada.  O cigarro queimando em seus pulmões, a fumaça enchendo seu peito, podia ser uma forma de pagar por toda essa culpa que ela carregava sem nem saber por quê. Como se dissesse a si mesma: "Eu sou mesmo errada, eu sempre soube, e agora pelo menos posso ser errada...

O "Segundo" Cigarro (12)

Mas quanto mais eu pensava nisso, mais percebia que não era sobre libertação. Não era sobre Sofia se descobrir livre e selvagem nos braços dele. Era sobre encontrar um lugar onde pudesse ser errada em paz. Onde pudesse ser a pessoa complicada, necessitada, intensa que ela sempre foi, sem que ninguém tentasse corrigi-la ou educá-la para ser melhor . Ted , com seus desejos específicos, com seus fetiches, oferecia a ela uma espécie de sossego, o sossego de quem finalmente encontra alguém que não apenas aceita suas imperfeições , mas as deseja. E foi aí que comecei a entender por que ela havia se jogado tão completamente naquele mundo. Por que o cigarro se tornou para ela mais do que um vício, se tornou uma linguagem. O Marlboro vermelho queimando entre seus dedos não era apenas fumaça; era a materialização de algo que sempre esteve dentro dela , algo rebelde, algo que nunca tivera permissão para existir na casa dos avós, entre os móveis antigos e as rotinas silenciosas. Lembrei da prim...

O "Segundo" Cigarro (11)

Naquela tarde, no meio do expediente, caminhei até o jardim, em busca de um pouco de ar. Sentei sob uma árvore antiga, detentora de segredos longínquos, registrados nos anéis do seu tronco. E fiquei ali, deixando o tempo passar um pouco mais devagar. O barulho dos carros na rua chegava abafado, como se o mundo lá fora estivesse longe. Foi ali, no meio do silêncio pontuado pelo farfalhar das folhas, que a palavra me voltou com força: redenção. Redenção de quê, afinal? Do que Sofia precisava ser redimida? Fiquei pensando nisso, demoradamente, como se a resposta estivesse escondida no balançar leve dos galhos. Talvez fosse daquele silêncio que a cercava desde criança, daqueles cuidados medidos, calculados, que os avós lhe davam como quem distribui remédios na dose certa, na hora certa, sem excesso, sem paixão. Redenção de ter crescido como uma planta em vaso pequeno demais, sempre sentindo que havia algo errado com ela, algo que não cabia, que não se encaixava na "vida organizada e...

O "Segundo" Cigarro (10)

Sofia sabia fumar. E pior: havia aprendido por ele. Por Ted. Fora por causa de uma conversa inocente, se é que existe tal coisa entre dois que se desejam, que Sofia descobrira o fetiche. E diferente de mim, que precisei lutar contra a culpa e o medo como quem cava a própria cova para renascer, Sofia se lançou com alegria . Amou o ritual, amou o sabor , amou o fogo. E, de algum modo que eu mal compreendia, passou a amar o cigarro porque ele a fazia se sentir mais próxima dele. Como se fosse uma ponte ardente entre os dois. E ele… bem, ele sabia.  Sabia o que ela queria, sabia o que ela fazia, sabia o porquê. E, ainda assim, mantinha distância. Nunca tocava nela, nunca aceitava um cigarro, nunca devolvia o riso com a mesma intensidade. Havia algo em Ted que era misteriosamente contido diante de Sofia. E por algum tempo, na minha ingenuidade, cheguei a pensar que era desinteresse. Mas com o tempo comecei a entender, não, a intuir, que o que ele sentia não era indiferença. Era ...

O "Segundo" Cigarro (9)

Ao final da manhã, fui ao banheiro e fiquei olhando meu reflexo por mais tempo do que o necessário. A lâmpada fria não perdoava, a pele cansada da insônia de domingo, os olhos procurando algo que não sabiam nomear.  Passei o batom duas vezes, como se a segunda pudesse corrigir a ausência de plenitude da primeira. Sofia havia estado lá mais cedo. Seu perfume ainda rondava o ambiente, misturado ao vestígio de fumaça que o exaustor velho não conseguiu vencer. Ela deixara, como sempre, uma impressão. Invisível , mas presente. Como as palavras que alguém não diz, mas você jura ter escutado. Ela não era alta, não precisava ser. Tinha longos cabelos escuros que pareciam arrumados até quando estavam presos de qualquer jeito. Mas o que mais chamava atenção, o que parecia chamar todos os olhos para si como um ímã lascivo, eram os lábios. Carnudos, expressivos, naturalmente desenhados como os das atrizes que pagam caro por um contorno assim. E os seios fartos, sempre acentuados por blusa...

O "Segundo" Cigarro (8)

Desde que apareci, percebi que Sofia se tornara mais ousada. Como se minha simples existência fosse uma provocação.  Ela passara a se aproximar mais, a rir alto das piadas dele, a tocar seu braço como quem não pede permissão. A fumar mais, mais perto, mais lento. Como se dissesse: “Lembre-se de que me contou primeiro.” Não era exatamente ciúmes o que me corroía. Era insegurança. Um tipo de invisibilidade nova: a que vem quando você finalmente se torna visível, mas teme não sustentar o olhar. Vi como ele olhava para outras. Mulheres que fumavam com naturalidade , cruzando as pernas com uma confiança líquida, inalcançável. Mulheres que, eu imaginava, tinham anos de experiência em dominar corpos e ambientes, enquanto eu ainda tremia ao acender um cigarro ... [Sofia] "Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

O "Segundo" Cigarro (7)

Sofia parecia ter decorado o roteiro da mulher que Ted desejaria: fumava devagar, com tragadas longas e sensuais, soltando a fumaça como se estivesse lançando feitiços. Fazia questão de estar por perto quando acendia um cigarro , como se quisesse impregnar o ar, as paredes, a memória dele com aquele aroma. Ela gostava de chegar perto, muito perto. Seu perfume era quase secundário ao cheiro do tabaco, e isso não era acaso, era cálculo. Ted, por sua vez, não a incentivava. Conversavam pouco, com uma naturalidade quase fraterna que me confundia mais do que aliviava. Ele já havia falado com ela sobre o fetiche, isso eu sabia. E isso me corroía. Como podia ele ter confiado nela com esse segredo que parecia tão íntimo, tão raro, tão... nosso?    Por que ele escolheu abrir comigo aquele desejo tão íntimo? Logo eu, tão errada para isso, tão distante de tudo o que ele parecia querer... e mesmo assim confiou em mim. E, mais que isso: por que ele não queria Sofia? Ela era tudo que ele p...

O "Segundo" Cigarro (6)

Chegamos ao trabalho. A sala de descanso estava fria, iluminada demais. E o mundo, cruelmente igual ao de sempre. Menos eu. Durante o dia, senti as primeiras rachaduras internas. Não eram culpa exatamente, mas um mal-estar sutil, como quem usa sapatos apertados que pareciam lindos na vitrine.  O desconforto tomava forma principalmente quando os olhos dele pousavam, ainda que por segundos, naquela que eu secretamente chamava de a devassa,   Sofia. Sofia era funcionária e sempre estava por perto, criando pretextos para aparecer. Tinha talvez quatro anos a menos que eu, e um mundo inteiro a mais em desinibição. Bonita, claro, mas o que mais chamava atenção era a maneira como vestia seu corpo como se fosse um direito político. Usava decotes como quem defende uma causa. Caminhava com os quadris pontuando frases que ninguém ousava dizer em voz alta. Descobri por acidente, ou talvez por algum tipo de punição cósmica, que ela era completamente apaixonada por Ted.  Que, ao saber...

O "Segundo" Cigarro (5)

E se eu estivesse me viciando? Não só no cigarro, mas em tudo aquilo que vinha com ele: o beijo, a vertigem, o poder. A maneira como o olhar de Ted se acendia ao me ver tragando , como se naquele gesto estivesse escondida uma mulher que nem eu conhecia. E então chegou a segunda-feira. Voltei ao trabalho com o corpo dividido entre a culpa e o desejo. A calça era larga, a blusa mais fechada que o necessário. Cabelos presos. Rosto limpo. O oposto exato da mulher que ele conheceu na sexta. Naquela manhã, quando Ted entrou no ônibus, ele trazia consigo aquele jeito despreocupado de quem nunca precisou pedir desculpas por ser exatamente o que é.  Sorriu ao me ver, andou vagarosamente por entre as poltronas e sentou ao meu lado. E, dentro de mim, um pequeno silêncio nasceu. — Dormiu bem? — ele perguntou, com a voz ainda rouca da manhã. Assenti. Uma palavra qualquer teria soado errada. Ele falou sobre música, sobre um projeto novo no trabalho, sobre um documentário que tinha assistid...

O "Segundo" Cigarro (4)

 No domingo, ele insistiu. Um convite tímido, depois outro mais direto. — Me diz a verdade. Você tá me evitando? E eu menti de novo. — Não, só tô mesmo ocupada. Passei o resto do dia inventando desculpas e, quando não estava mentindo para ele, mentia para mim mesma. Dizia que fazia isso para proteger algo delicado, que precisava crescer devagar. Mas no fundo eu sabia: era medo. Medo de ser descoberta. Medo de me perder. Medo, principalmente, de que ele percebesse quem eu realmente era. Porque eu não era aquela mulher que fumava com naturalidade embaixo do luar. Aquela que beijava com fome e passava a mão nas costas dele como quem conhece os mapas do próprio corpo. Aquela era um esboço. A verdadeira Joyce morava ainda na casa dos pais, guardava segredos como joias falsas, e lia romances antigos sem nunca ter vivido um. Por isso, também, não toquei mais no maço. Ele ficou ali, no fundo da bolsa, como um amuleto proibido. Mas sua presença me inquietava. Como se, mesmo fecha...

O "Segundo" Cigarro (3)

A partir daquele momento, o final de semana foi um teatro de contenções . No sábado, Ted me escreveu logo cedo. Queria me ver de novo, tomar um café, andar por aí, quem sabe repetir o que aconteceu ou, pior ainda, fazer diferente, mais intenso. Melhor. Menti.  Disse que tinha compromissos. Que precisava ajudar em casa, limpar o quintal, cuidar da vida. E embora isso fosse, tecnicamente, verdade, a única coisa que realmente fiz foi me encolher no quarto, conversar com ele pelo celular e sentir, em silêncio, uma falta que beirava o desespero. Eu queria vê-lo.  Muito.  Como nunca quis nada antes.  Sempre sonhei com um amor desses, que aparecesse sem eu pedir, que tomasse forma no meio do cotidiano, que fosse descomplicado e, ao mesmo tempo, visceral.  Mas agora que estava diante de mim, havia uma muralha entre o desejo e a realidade , uma muralha feita do olhar do meu pai, das perguntas silenciosas da minha mãe, do modo como tudo no meu lar dizia não ... "Todas...

O "Segundo" Cigarro (2)

Mas o cheiro… Ah, o cheiro. Na noite anterior durante a volta para casa, cada movimento meu era uma inspeção disfarçada, uma investigação feita com o zelo dos culpados.  A blusa estaria contaminada?  O cabelo, traria vestígios do pecado?  O hálito, denunciaria minha boca profanada por nicotina e beijos? O pânico nasceu miúdo. Como uma formiga caminhando pelas costelas. Mas à medida que me aproximava do prédio, ele crescia. Como sempre crescia diante da casa dos meus pais. Um grande e frio apartamento no terceiro andar. No coração da cidade. De onde, por janelas tão altas quanto intransponíveis, eu costumava observar. Como quem assiste a um filme. A felicidade dos casais que riam logo em frente. No bar da esquina. Do outro lado da rua. Ao entrar pela porta, me senti como um contrabandista. Andei devagar, cabeça baixa, tentando não fazer barulho com os saltos. Joguei a bolsa no quarto com a pressa de quem descarta provas.  Tirei a roupa devagar, sentindo cada p...

O "Segundo" Cigarro (1)

O dia seguinte amanheceu em mim como um espelho trincado. Acordei com o cheiro dele ainda impregnado em minha pele, uma mistura de suor e fumaça, de desejo e confusão. Minha boca ainda lembrava o gosto do beijo, aquela mescla inusitada de tabaco e saliva , de urgência e ternura disfarçada. Mas havia algo no ar. Algo mais denso do que o prazer da véspera. Era o retorno da velha voz. A que sempre me acompanhou, mesmo calada, como uma sombra dócil. Agora, porém, ela falava. O que você fez, Joyce? Não tive resposta.  Apenas me vesti com cuidado exagerado, blusa de gola alta, calça opaca, cabelo preso com severidade matemática, como se meu corpo precisasse ser escondido novamente, como se pudesse desfazer o que havia sido aceso. O cigarro, no entanto, estava lá. No fundo da bolsa, em um maço amassado que se tornara símbolo e cicatriz. O vício ainda não era físico, mas emocional.  Era o gesto que me fazia lembrar que, por uma noite, fui livre. Que, por uma noite, alguém me quis....