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O "Segundo" Cigarro (2)

Mas o cheiro…

Ah, o cheiro.

Na noite anterior durante a volta para casa, cada movimento meu era uma inspeção disfarçada, uma investigação feita com o zelo dos culpados. 

A blusa estaria contaminada? 

O cabelo, traria vestígios do pecado? 

O hálito, denunciaria minha boca profanada por nicotina e beijos?

O pânico nasceu miúdo. Como uma formiga caminhando pelas costelas. Mas à medida que me aproximava do prédio, ele crescia. Como sempre crescia diante da casa dos meus pais. Um grande e frio apartamento no terceiro andar. No coração da cidade. De onde, por janelas tão altas quanto intransponíveis, eu costumava observar. Como quem assiste a um filme. A felicidade dos casais que riam logo em frente. No bar da esquina. Do outro lado da rua.

Ao entrar pela porta, me senti como um contrabandista. Andei devagar, cabeça baixa, tentando não fazer barulho com os saltos. Joguei a bolsa no quarto com a pressa de quem descarta provas. Tirei a roupa devagar, sentindo cada peça deslizar, e me entreguei ao meu toque, à quietude do meu espaço, onde a noite ainda pulsava.

Quando a realidade bateu em mim novamente, peguei as roupas do chão, enfiei tudo dentro do cesto, prendi o cabelo num coque severo e, então, resignada, fui para a cozinha.

Eles estavam lá.

Meu pai, lendo o jornal, com a mesma expressão de quem suspeita do mundo; e de mim. Minha mãe, reorganizando armários que já estavam organizados, como se pudessem conter, entre potes e panos de prato, o caos silencioso que há muito habita nosso lar. 

— Chegou tarde. disse ela, sem olhar para mim.

— A peça atrasou. — menti, como se estivesse treinando uma nova língua.

Peguei um copo d’água. Voltei para o quarto. Fechei a porta. Abri a janela. Quis que a brisa noturna levasse embora o cheiro de quem eu fui.

Dessa janela, até então, eu apenas assistia. Via as multidões escorrerem pelas calçadas, exaustas e compactas, como um óleo espesso impregnando o lajedo, exatamente como descreveu Drummond. Alta o bastante para me isolar do mundo, mas baixa o suficiente para me forçar a contemplar tudo o que eu não podia ter.

Naquele quarto, como uma Rapunzel, ainda me tratavam como se eu tivesse quinze anos. 

Olhei para a bolsa. Lembrei do cigarro. Pensei em ressignificar a janela, ressignificar o gesto. 

Mas não tive coragem...

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."


Comentários

  1. Pelo que entendi seus pais não sabem que vc fuma....pretende contar a eles um dia?

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    Respostas
    1. Adriano essas histórias tem 10 anos. Eles sabem mas não fumo perto deles.
      Obrigada pelo interesse

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