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Mentor Imperfeito (14)

Quando terminei, ela apagou o cigarro. Disse que não entendia a violência do meu pai. Que ele havia feito comigo, o mesmo que havia sido feita a ela.

Aos quinze anos engravidou. Seu pai, meu avô, expulsou-a na mesma noite em que descobriu. Chamou-a de vergonha. Disse que não queria mais vê-la. Naquela noite dormiu na rua. Depois, uma amiga a acolheu. Poucos parentes ajudaram. Meu pai não foi um deles. Ela trabalhou limpando casas, teve o bebê sozinha, criou o menino sozinha. Disse que meu pai sabia de tudo. Ele vira o que acontecera com ela. E, mesmo assim, repetia a história, como se fosse natural, como se fosse certo.

Enquanto ela falava da surpresa amarga de ver o irmão reproduzir a violência que destruíra sua juventude, senti algo se “rearranhar” dentro de mim. A ferida do abandono não desapareceu, mas encontrou ali um espaço para respirar sem medo. Minha tia não oferecia conselhos. Oferecia abrigo. Acolhia sem perguntas, reconhecendo em mim a cicatriz que ela também carregava.

Ela se recostou e disse que eu podia ficar o tempo que fosse necessário.

Mostrou-me o quarto, no fundo do corredor: uma cama de casal, um guarda-roupa velho. E eu, apenas com a roupa do corpo. Sentei na beira da cama por alguns minutos, deixando o silêncio se acomodar. Quando voltei, ela estava na cozinha, lavando as xícaras. Perguntei se precisava de ajuda. Disse que não, que já estava terminando. Enxugou as mãos no pano e acendeu mais um cigarro.

Sentamos novamente. Perguntou se eu tinha planos. Respondi que não. Falou que eu deveria pensar nisso. Que não precisava decidir agora, mas que era importante ter uma direção. Afirmou que eu podia ficar à vontade, que a casa era minha também. Que, se precisasse de algo, bastava dizer. Que eu não precisava ter medo nem vergonha.

Olhei para ela. Não era minha mãe, nem alguém de quem eu tivesse lembranças. Mas estava ali. Abrira a porta, me deixara entrar, oferecera um lugar. 


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joyce, essa parte de que ela "não oferecia conselhos, oferecia abrigo" é a definição mais linda de amor que eu já li.

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  2. Cicatrizes reconhecendo cicatrizes.

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