Eu tinha medo.
Medo do cheiro que ainda impregnaria nos meus cabelos, mesmo depois do banho. Medo de meus pais severos, atentos, sentirem algo fora do lugar. Eles ainda me tratavam como uma criança. Eu não podia sair sábado à noite, nem fingir uma dor de cabeça no domingo para escapar da vigilância.
Passei o fim de semana conversando com Ted pela internet, tentando parecer leve, madura, interessante. Mas não contei nada. Nada sobre meus pais. Nada sobre as regras, os horários. Muito menos sobre o vazio afetivo que me definia.
Eu não queria que ele soubesse quem eu era.
Porque, ao saber, talvez ele também se afastasse.
Assim, a segunda-feira aconteceu como um ritual de contenção. Eu não fumei. Não ousaria. Mas pensei, sim. Pensei o tempo todo. No gosto. Na sensação. No poder. E em como isso tudo poderia me destruir. Ou me refazer.
E então o vi. No ônibus.
Quando me viu, sorriu com uma familiaridade que me desarmou. E durante todo o trajeto, enquanto fingíamos conversar sobre banalidades, algo em mim gritava em silêncio.
Você precisa decidir quem quer ser. Antes que alguém decida por você...

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