Respondi que preferia entender o material, antes de dividir qualquer coisa. A firmeza da minha voz me surpreendeu, e, ao que parece, surpreendeu a ela também. Percebi quando ela piscou, um pouco confusa. Os olhos dela sempre me deram a impressão de estarem pesando, medindo, calculando tudo.
Depois de um tempo ela se remexeu na cadeira e cruzou as pernas, espalhando novamente seu perfume. Era uma fragrância floral, sim, mas com uma base densa e adulta, bem diferente da minha, quase imperceptível.
Ela sugeriu uma pausa no jardim para fumar, e a ideia me soou como um alívio. Eu nunca fui boa nesses jogos de colaboração; sempre funcionei melhor sozinha. Meus livros sempre foram mais interessantes que os cochichos dos corredores.
Quando ela se levantou, eu permaneci sentada, já sentindo o alívio da solidão. Ao perceber que eu ainda estava ali, Sofia perguntou se eu não queria acompanhá-la.
A ideia me deixou nervosa e curiosa.
Eu ainda estava aprendendo, ainda desajeitada com aquele ritual. Já havia treinado, mas não tinha a naturalidade dela.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, ela já guardava os papéis e se erguia. Havia algo coreografado em seus gestos, parecia que cada movimento foi pensado para impressionar, mesmo sem plateia.
Fomos até o jardim, um espaço pequeno, com mesas de compensado. Sofia escolheu a mais afastada, longe das janelas, e se sentou ao meu lado.
Tirou um maço do bolso. Movimentos precisos. Sem hesitação, sem pressa. Acendeu o cigarro com seu velho e riscado isqueiro dourado e deu a primeira tragada com os olhos semicerrados.
Entendeu o maço e me perguntou se eu queria.
Peguei um cigarro tentando imitá-la, mas sentia minha própria inexperiência. Minhas mãos tremiam ligeiramente. Sofia percebeu.
— Aqui — disse, inclinando-se. — Deixa eu ajudar.
Segurou minha mão com uma das suas e, com a outra, trouxe o isqueiro. Senti o calor da chama, mas também o da pele dela, o perfume mais intenso, o contato macio dos dedos.
— Respira devagar — murmurou, íntima. — Não precisa ter pressa.
Obedeci, tentando não tossir. Ela se afastou, mas não muito.
— Muito melhor — disse, sorrindo. Era a primeira vez que o sorriso parecia real, não daqueles distribuídos no escritório.
Ficamos em silêncio. Eu a observava. Ela parecia tão à vontade, pertencendo àquele momento. Havia sensualidade em cada gesto: ao tragar, ao soltar a fumaça, ao existir.
— Você está se saindo bem — comentou, sem me olhar. Fitava a brasa do cigarro. — Ted está de mau humor.
A forma como pronunciou o nome dele carregava algo sutil, indefinido. Nem sarcasmo, nem ciúmes. Mas algo.
— Você o conhece há muito tempo?
— O suficiente — disse, tragando. — Ted é interessante. Mas às vezes acho que não sabe o que quer.
Aquilo me desconcertou. Havia uma intimidade inesperada naquela afirmação. Tentei responder com uma frase filosófica, mas que não revelasse demais:
— Todos temos nossas incertezas.
Sofia finalmente me olhou. Seus olhos carregavam uma gravidade que pesava mais que as palavras. Ela concordou, mas acrescentou que nem todos são igualmente francos consigo mesmos. Aquilo ficou suspenso no ar.
Senti uma pergunta não formulada, como se me desafiasse a permanecer na verdade. Disse que tentava ser honesta. Era o máximo que eu podia afirmar com segurança.
A resposta dela veio com um peso inesperado:
— Eu sei. É exatamente isso que eu “admiro” em você.
Aquela palavra permaneceu entre nós como um rastro de fumaça, sutil e denso ao mesmo tempo. Vi quando ela apagou o cigarro com lentidão quase cerimonial e me lançou um olhar que me desarmou. Não soube decifrá-lo. Havia algo ali que me ultrapassava.
— Devíamos voltar — disse, mas não se moveu.
— Devíamos — repeti, imóvel.
Ficamos assim por alguns segundos, o silêncio mais denso do que qualquer palavra. Depois ela se levantou, alisou a calça agradeceu pela companhia e sorriu.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."
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