Na volta para casa, sentamos juntos de novo. Ele quis pegar minha mão. E eu deixei, mas hesitante, com a palma meio úmida, o pulso um pouco tenso. Ele não percebeu. Claro que não. Homens como ele vivem em outro tempo, outro clima.
— Tá tudo bem? — ele perguntou, entreolhando o celular.
— Claro — respondi. E esse “claro” doeu mais do que um não.
O ônibus balançava pelos buracos da avenida e, a cada solavanco, era como se algo dentro de mim se deslocasse também. O cheiro dele grudado na minha roupa se misturava ao perfume leve que borrifei de manhã, um perfume de menina, que ainda acreditava que voltaria para casa a mesma de antes.
As mãos dele, quentes e grandes, cobriam as minhas por completo. Mãos que horas antes tinham me guiado como quem conhece caminhos secretos do corpo. E agora estavam ali, seguras, quase inocentes, como se dissessem “não aconteceu nada”. Mas aconteceu. Acontecia ainda. O gosto do cigarro seguia em minha memória, amargo e doce ao mesmo tempo, como o próprio desejo.
Quando o ônibus parou, ele me deu um beijo, rápido, mas firme. O tipo de beijo que me fazia sentir visível, marcada. A paisagem era a mesma de sempre: o posto onde meu pai comprava bala de hortelã, a padaria onde minha mãe reclamava do preço do pão. Tudo igual. Só eu era outra.
Caminhei até em casa com o rosto quente, consciente demais do olhar das vizinhas, que ocupavam as escadas como se o prédio fosse só delas. E da culpa que crescia com o medo de que meus pais percebessem. Eles não sabiam. Eles jamais poderiam saber. Eles, que nunca deixaram espaço para a filha crescer. Eles, que não se olhavam mais, que se feriam no silêncio e me faziam testemunha de um amor morto...

O cheiro ficou desde o encontro a noite?
ResponderExcluir"O cheiro dele grudado na minha roupa se misturava ao perfume leve que borrifei de manhã"
ResponderExcluirNesta frase, "o cheiro dele" faz referência a Ted, que está sentado ao meu lado.