Dentro das paredes do apartamento, a vida arrastava-se como o último suspiro antes da morte. Minha mãe falava do preço da feira, da novela, do vizinho que se aposentou. Meus ouvidos estavam com ela, mas minha mente estava presa ao eco da voz de Ted dizendo meu nome, e ao som solitário da minha respiração no escuro.
— Você nem tá prestando atenção, Joyce — disse minha mãe.
— Desculpa, tô ouvindo sim.
— Cuidado, viu? Não quero você metida em besteira.
Besteira. Se ela soubesse. Se ela sonhasse o que eu já tinha feito.
O gosto levemente amargo do cigarro ainda persistia no fundo da minha garganta; a vertigem que esvaziara minha mente, e a lembrança se agarrava em mim, teimando em não partir. De como me senti ao fumá-lo: diferente, perigosa, adulta de um jeito que me assustava e me excitava ao mesmo tempo.
Se ela soubesse de tudo. Que eu havia fumado, que havia deixado ele me tocar, que havia gostado de tudo isso mais do que deveria. Que agora estava aqui, na cozinha, fingindo ser a mesma de sempre.
Olhei para o meu reflexo na janela da cozinha. E me vi. Diferente.
Havia uma mulher nova ali. Uma que descobriu o gosto do desejo, sim, mas também da dúvida. Que agora sabia que o prazer vem com rachaduras, e que ser livre não é o mesmo que estar segura.
Naquela noite, o sono não veio.
Levantei da cama às duas da madrugada e fui até a janela do meu quarto; o bairro dormia. Peguei o maço na bolsa, tirei um cigarro e segurei entre os dedos, só para lembrar.
O cheiro do tabaco me trouxe de volta ao momento em que tudo começou a mudar. Não acendi. Mas fiquei ali, sentindo o peso dele, pensando em Sofia, que provavelmente dormia tranquila, sem saber que existia uma Joyce nova no mundo, uma que também estava aprendendo a fumar.
Algumas descobertas não têm volta, e talvez seja exatamente isso que as torne tão perigosas e tão irresistíveis ao mesmo tempo...

Você trata as questões existenciais de forma muito interessante.
ResponderExcluirmuito obrigada. sua opinião é muito importante para mim
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