Pela manhã, o mundo manteve sua rotina impiedosa. O trabalho, as tarefas mecânicas, os sorrisos automáticos. Encontrar Ted dentro do frio ônibus como se aquilo já fosse um hábito entre nós. Falávamos do clima sobre as ruas cheias de neblina, algo comum naquele horário, de um projeto no trabalho, de um filme que ele sugeriu e que eu disse já ter visto, embora fosse mentira. Preferi soar interessante a admitir minha ignorância.
Ele ficava ao meu lado como se nada tivesse mudado. E, talvez para ele, nada tivesse mesmo. Mas dentro de mim havia uma tempestade sem nome.
Sofia chegou ao trabalho naquela manhã, mais intensa do que nunca, mais perigosa do que nunca.
Usava uma blusa justa, o decote desafiando o frio leve, como se o ar fresco fosse apenas mais um espectador da sua pequena cena. O Marlboro vermelho, equilibrado com desleixo entre os dedos, parecia tão natural quanto os brincos ou o relógio. O cigarro nos lábios era quase um convite. Os olhos semicerrados, sombreados pelo cabelo que caía de lado: ela sabia o que queria, e o que provocava.
Quando passou por Ted, fez questão de inclinar-se um pouco mais do que o necessário para acender o isqueiro, e a fumaça subiu entre os dois, lenta e densa, como um véu íntimo, separando-os do resto do mundo por um instante que pareceu durar além do tempo.
Ted olhou.
Olhou sem disfarçar. Sempre olhava para mulheres que fumavam. Não o fazia apenas por prazer próprio, mas como uma artimanha silenciosa, quase cruel, para atiçar em mim aquilo que ele tanto desejava: que eu me rendesse ao cigarro.
Sempre que via uma fumante, não perdia a oportunidade de apontar, comentar, quase saborear em voz alta a visão daquelas mulheres que, com um cigarro entre os dedos, se tornavam, aos olhos dele, irresistíveis. Falava do modo como elas atraíam olhares, como despertavam nos homens um desejo súbito, quase instintivo, ainda que eles próprios não soubessem o motivo...

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