Seguimos nosso dia assim, ele do lado dele, eu do meu. E, quando mais tarde descemos juntos as escadas, o silêncio entre nós era desconfortável. Eu analisava cada gesto, cada palavra, procurando pistas do que ele realmente sentia. A separação entre o que éramos no trabalho e o que éramos fora dele permanecia intacta, como ele sempre fez questão de manter.
Ele perguntou se íamos embora, e eu respondi que sim.
E, enquanto caminhávamos juntos, eu não conseguia parar de pensar em Sofia. No jeito como ela havia se inclinado para acender o cigarro, na maneira calculada e ao mesmo tempo natural com que havia chamado a atenção dele. Era como se ela soubesse exatamente o que fazer, como se possuísse um manual secreto de sedução ao qual eu nunca tivera acesso.
Será que Ted pensava nela quando me beijava? Será que, nos momentos mais íntimos entre nós, ele fechava os olhos e imaginava que eu era ela? A dúvida me corroía por dentro, transformando cada carinho numa suspeita, cada gesto de amor numa possível mentira.
Na volta para casa, o ônibus estava cheio. Não conversávamos sobre nós dois, ainda mantendo a discrição vinda do emprego, o que me causava um desejo contraditório: ao mesmo tempo em que queria ficar ali para sempre, queria desaparecer, dissolver-me naquele instante para não ter que suportar a comparação, o sentimento de insuficiência na minha vida, na casa dos meus pais e agora com o Ted.
Era como se eu pudesse ver, refletida no vidro embaçado da janela do ônibus, uma versão minha que ele esperava e que eu jamais conseguiria alcançar. Uma Joyce que fumava com naturalidade, que sabia usar o corpo como arma, que não precisava se esforçar para ser desejada.
E, no fundo, a certeza amarga que me rasgava por dentro: Sofia não precisava se esforçar para ser aquela mulher. Ela simplesmente era. E eu? O que eu era?...
[Sofia]

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