Chorei baixinho, como sempre fiz desde pequena, porque em casa ninguém nunca escutava meus choros.
Eu chorei.
Um choro feio, sufocado, desses que arranham a garganta.
Um choro de quem sabe que ninguém vai ouvir e, se ouvir, não vai importar.
Meu pai, afogado nas próprias frustrações, mantinha a cerveja sempre gelada e os olhos fixos no jornal. Sussurrava amarguras políticas entre os dentes e, sem me olhar nos olhos, dizia que eu precisava aprender a ser mulher de verdade.
Nunca explicou o que isso queria dizer.
Minha mãe, sentada sob a luz fraca da cozinha, refugiada em suas palavras cruzadas, vivia alheia ao mundo, como se sobreviver ao casamento fosse o único jogo que lhe restava jogar.

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