Ao final da manhã, fui ao banheiro e fiquei olhando meu reflexo por mais tempo do que o necessário. A lâmpada fria não perdoava, a pele cansada da insônia de domingo, os olhos procurando algo que não sabiam nomear.
Passei o batom duas vezes, como se a segunda pudesse corrigir a ausência de plenitude da primeira.
Sofia havia estado lá mais cedo. Seu perfume ainda rondava o ambiente, misturado ao vestígio de fumaça que o exaustor velho não conseguiu vencer. Ela deixara, como sempre, uma impressão. Invisível, mas presente. Como as palavras que alguém não diz, mas você jura ter escutado.
Ela não era alta, não precisava ser. Tinha longos cabelos escuros que pareciam arrumados até quando estavam presos de qualquer jeito. Mas o que mais chamava atenção, o que parecia chamar todos os olhos para si como um ímã lascivo, eram os lábios. Carnudos, expressivos, naturalmente desenhados como os das atrizes que pagam caro por um contorno assim. E os seios fartos, sempre acentuados por blusas que pareciam feitas sob encomenda para acender algo nos outros.
Mas nada disso, nem mesmo o conjunto dessa estética provocante, era o que me deixava inquieta. O que me doía era o fato de ela saber o que fazer com tudo isso...

Comentários
Postar um comentário