Abri os olhos no ônibus, observando a paisagem urbana que desfilava pela janela embaçada. Ted. Mesmo agora, tempos depois, o nome dele provocava uma reação física. Um arrepio que começava na nuca e descia pela espinha, instalando-se no baixo ventre como uma promessa não cumprida.
Ele surgira do nada. Tinha uma
presença que contrastava brutalmente com a mediocridade do ambiente. Seus
cabelos ralos nas têmporas conferiam-lhe uma distinção que eu associava aos
professores das minhas fantasias adolescentes.
— Perdida? — perguntara
ele, com os ombros relaxados, a barba por fazer, a camisa amassada. Sua voz
tinha uma qualidade aveludada que me fez estremecer.
Ele me olhou como se já me
conhecesse. E talvez, naquele momento, eu já tivesse decidido que queria ser
conhecida por ele.
Gaguejei uma resposta,
sentindo-me ridícula em meu vestido novo, comprado especialmente para causar
boa impressão.
Ele se aproximou com
naturalidade, fez uma piada qualquer sobre a burocracia, e eu ri. Rir era mais
fácil do que parecer inteligente.
E ele percebeu.
Não minha risada, mas meu medo.
Me ofereceu ajuda, explicou
detalhes do sistema, da papelada, da coordenadora mal-humorada. E tudo isso com
um sorriso, como quem diz: não se preocupe, estou aqui.
Era isso. A presença dele era uma
promessa de chão firme num lugar escorregadio.
Ted me guiou pelos corredores com
a naturalidade de quem conhecia cada canto daquele lugar, oferecendo dicas
sobre os colegas, advertindo sobre as manias da coordenadora, transformando
aquele ambiente hostil em algo navegável.
A atenção dele foi como água para
uma planta ressecada. Eu, que sempre me considerara invisível, de repente me
sentia vista, notada, importante.
Ted não apenas me ouviu falar
sobre minhas expectativas e ansiedades, ele as validou, as tornou legítimas.
E foi assim que começou. Não com
um flerte. Não com um olhar demorado. Começou com alívio. Com o peso da
inadequação sendo suspenso por alguns minutos.
E eu, carente de chão, me
agarrei.

Comentários
Postar um comentário