Nos dias que se seguiram, o ar tornou-se espesso. O trabalho, mais apertado. Os pensamentos ganharam peso, se tocando em silêncio pelos corredores. Sofia movia-se diferente. Uma nova coreografia, mais lenta, deliberada, para que cada passo deixasse um rastro. Os cabelos, antes sempre soltos, agora presos com uma preguiça estudada: um coque frouxo de onde escapavam fios rebeldes, mas não por acaso. Os lábios, antes nus, tingidos com um vermelho que não pedia licença. Um vermelho para ser notado.
Havia algo na forma de ela segurar o cigarro que desafiava todas as convenções do trabalho. Não era o ato de fumar; outros também fumavam, escondidos na área externa, apressados e culpados. Era o ritual. A solenidade silenciosa com que ela transformava cada pausa em sacrilégio.
Ela sempre escolhia o mesmo horário: quando a luz do sol entrava pelas janelas do segundo andar numa preguiça dourada. Levantava-se da mesa com uma lentidão medida. Os dedos longos escorregavam pela bolsa até encontrar o maço.
Fazia questão de passar pela mesa de Ted, sem um motivo aparente. Lançava uma desculpa qualquer, dizia algo alto o bastante para ser ouvido, mas num tom íntimo, uma fala destinada apenas a ele. Ted raramente tirava os olhos da tela, mas ela ria mesmo assim. Um riso que arranhava.
Eu fingia trabalhar, mas meus olhos a seguiam. Sempre a seguiam.
A escada era onde o primeiro ato acontecia. Ela tirava o cigarro do maço com a precisão de um ritual antigo, rolava-o entre os dedos, às vezes o cheirava. Um gesto tão íntimo que me dava vergonha de assistir.
No térreo, caminhava até a área externa ao ritmo de uma música que só ela ouvia. Da janela, eu a via pequena, mas ainda assim magnética. Sempre no mesmo lugar: encostada numa coluna de concreto, sob a árvore, olhando em direção à sala à espera de algo que nunca vinha.
O isqueiro era velho, dourado, marcado pelo uso. Ela o segurava com a reverência devida a uma relíquia. O primeiro clique nunca funcionava, e eu desconfiava de um propósito nisso. No segundo, a chama surgia, pequena, viva, e então acontecia o que eu esperava: o cigarro tocava seus lábios com uma lentidão de caráter profano.
A primeira tragada era sempre longa, profunda, sugando não só a fumaça, mas o ar inteiro à sua volta. Os olhos fechavam só por um instante. Quando abriam de novo, havia neles algo alheio àquele ambiente.
A fumaça saía desenhando o ar antes de se desfazer. Ela não tinha pressa, não queria terminar logo. Saboreava cada minuto, era aquele o único tempo realmente seu no dia.
Quando o vento mudava, às vezes o cheiro alcançava minha janela. Era diferente dos outros cigarros, doce, exótico, misturado ao perfume dela. Um cheiro que grudava na memória. E eu sabia. Ted também notava.
Ela nunca olhava para cima. Nunca me via ali. Talvez fosse melhor assim.
Porque havia algo de sagrado e proibido naquela liturgia.
Seu jogo era claro. E eu queria jogar também. Eu estava com Ted, e o mundo precisava saber. A recepcionista. A moça do café. O corredor.
Ela precisava saber.

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