Certa manhã, o sol batia na janela quando vi Sofia se aproximando da escada. Decidi descer com ela. O coração quase saltou do peito quando ela tirou o maço da bolsa ali mesmo, diante de mim. Seus dedos acariciaram o cigarro com a mesma delicadeza que eu costumava observar da janela. Por um instante, achei que fosse acendê-lo no corredor. A ideia me deixou tonta.
— Você fuma? — perguntou, sem me olhar, alheia à minha presença.
Eu fumava?
— Às vezes.
Ela sorriu. Um sorriso que
carregava o peso de todos os cigarros que eu a havia visto fumar. De todas as
manhãs que passei observando, invisível, da janela.
— É um vício terrível — disse. Mas sua voz não condenava. Havia algo ali que sugeria o contrário: não vício, mas liberdade.
Ela caminhou até o lugar de sempre, e eu a segui de longe, fingindo mexer no celular. Dessa vez, estava perto o suficiente para ouvir: o clique do isqueiro, a aspiração sutil da primeira tragada, o sussurro da fumaça expelida.
Quando ela se virou, me pegou olhando.
— Você não vai fumar? —
perguntou.
Hesitei. Não tinha cigarro. Mas ali, observando a forma como ela o segurava, o modo como a fumaça escapava lentamente de seus lábios entreabertos, entendi que estava diante de uma oportunidade.
— Quer um? — ofereceu, estendendo o maço.
— Por que não? — respondi,
surpresa com a naturalidade da minha própria voz.
Nossos dedos se tocaram quando peguei o cigarro. Uma descarga silenciosa cruzou o espaço entre nós.
— Use o meu isqueiro — disse.
A chama tremulou. Aproximei-me mais do que o necessário, mais do que a prudência recomendava. Por um instante, respiramos o mesmo ar, dividimos o mesmo espaço impossível entre a chama e a ponta do cigarro.
— Assim — murmurou, sua mão sobre a minha, guiando o gesto. — Devagar. Sempre devagar.
A primeira tragada foi um
desastre. Tossi. Os olhos lacrimejaram. Sofia riu, um riso baixo, quase
íntimo.
— É sempre assim no começo —
disse. — Depois você aprende a gostar da queimação.
Ela tragou profundamente. A
fumaça saiu dos seus lábios como uma prece pagã.
— Você parece tensa hoje —
comentou, me observando com olhos que decifravam mais do que eu gostaria.
— Trabalho — menti.

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