Eu tinha doze anos.
Era uma daquelas tardes chuvosas de domingo que pareciam não acabar. Eu e meu pai estávamos sozinhos no sítio, e ele havia adormecido no sofá, com o jornal aberto cobrindo-lhe o peito.
Entediada, eu vagava pela casa, tomando goles mornos de um chá que nem gostava. Foi quando vi, entre os livros de receita e os romances de banca da minha mãe, um volume discreto: "O Amante", de Marguerite Duras.
O nome soava estrangeiro,
sofisticado. Olhei ao redor, tirei o livro da estante e fui me esconder na
varanda dos fundos, onde ninguém jamais ia. Era ali, atrás de vasos rachados e
da samambaia seca, que eu me refugiava.
O livro não era como os outros.
Não tinha aquela doçura previsível dos romances baratos. Era sóbrio,
inquietante. Comecei a ler entre as pernas cruzadas, devagar. Depois, como quem
escorrega num barranco: rápido, sem controle.
As palavras queimavam os olhos.
Um calor estranho subia pelo pescoço. Aquilo era errado. Era intenso. Era vivo.
A história de uma menina
francesa, pobre, vivendo na Indochina colonial, envolvida com um homem mais
velho. Não era amor, era desejo. Era poder. Era um jogo sem inocência.
“Muito cedo na minha vida foi
tarde demais.” A frase inicial do livro cravou em mim tão profundamente, que
doeu.
Eu não entendia tudo. Mas
entendia o bastante para saber que havia entrado em outra linguagem. Uma que
ninguém me havia ensinado.
Li o livro inteiro naquela tarde,
debaixo das cobertas, os ouvidos atentos a qualquer som. A vergonha misturada
ao fascínio. O medo ao prazer.
Carreguei o livro por semanas.
Repetia certos parágrafos como orações clandestinas. Relia, sentindo o mesmo
calor, o mesmo tremor que não sabia nomear. Havia vergonha. Havia prazer.
Minha mãe nunca soube. E se
soubesse, teria arrancado o livro das minhas mãos como quem afasta um veneno.
Porque naquela casa, desejo era doença.
Aquilo que li, aquilo que senti,
foi trancado a sete chaves dentro de mim. E ali ficou, silencioso, como uma
semente esperando o momento certo para germinar.

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