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Aprendendo a Tragar (16)

Eu havia esquecido aquele livro. Até agora.

Você está bem? A voz de Sofia me trouxe de volta ao presente.

Sim, só... pensando.

Ela apagou o cigarro com um movimento deliberado, pisando a bituca com o salto como quem sela uma sentença. Levantou-se, alisou a saia com gestos lentos, calculados, e me olhou com algo que talvez fosse pena, ou pior, condescendência.

Se afastou sem dizer mais nada, deixando-me sozinha com meu cigarro mal fumado e a fumaça arranhando a garganta.

Lembrei do que Duras dizia, que seduzir não era uma questão de autenticidade, e sim de consciência. Saber o que se quer. E como conseguir.

Levei o cigarro de volta aos lábios. Não traguei. Apenas deixei a fumaça pairar entre minha boca e o silêncio, repetindo os gestos que havia memorizado. Um teatro íntimo.

Ted sabia que eu não sabia fumar de verdade. Mas isso não importava. O que importava era a imagem. A ideia. A versão de mim que o cigarro encenava.

Ted era meu. Ele só não sabia ainda que eu não pretendia deixá-lo partir.

E se Sofia achava que podia simplesmente "acontecer" na vida dele, estava prestes a descobrir que há coisas que não se recebem, se conquistam. Na luta. No detalhe.

Terminei o cigarro sem pressa, saboreando cada instante da queima lenta, cada leve ardor nos lábios. Com cuidado, deixei a bituca no mesmo lugar onde Sofia havia jogado a dela.

Quando me levantei para voltar ao trabalho, os dedos ainda cheirando a tabaco, os lábios formigando, já sabia o que fazer. Ted podia querer manter nosso relacionamento em segredo, mas eu encontraria um jeito de marcar meu território.

Sutil. Elegante. Inequívoco.

No dia seguinte, compraria um Marlboro vermelho. E faria dele meu.

Em uma semana, Ted me veria de forma diferente. Em um mês, seria Sofia quem estaria fumando sozinha debaixo da árvore.

Aprender a fumar. Eu já havia dado os primeiros passos. Mas agora precisava dominar. Fazer do cigarro uma extensão do meu corpo, um adorno, um símbolo.

Precisava que ele acreditasse que aquele prazer era meu, e não uma imitação mal feita.

Ted tinha um fetiche. E eu, uma vocação para agradar.

Era uma equação perigosa. Mas eu estava disposta a resolvê-la.

Construir uma nova versão de mim. Uma Joyce com curvas de mistério, que falava pouco e olhava mais. Que sabia rir nos momentos certos e não se desculpava por existir. Uma mulher que eu ainda não era, mas podia ensaiar.

Como um papel escrito sob medida. Talvez fosse isso que todos faziam. Talvez o amor fosse isso: uma atuação convincente.

Viver dividida entre dois mundos. A mulher que se alimentava à noite, e a filha que tomava café com os pais pela manhã.

Era uma linha tênue, quase invisível, entre obediência e mentira. Mas eu havia aprendido cedo a fingir. Minha vida inteira fora um ensaio para esse papel.

Sofia havia me subestimado. E isso, percebi com um sorriso, já era o primeiro erro dela.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Já sentia prazer em fumar, ou era ainda para agradar ao Ted e quebrar as regras de casa?

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  2. Sinceramente não sei dizer. Mas se não fosse por Ted não estaria fazendo isso.

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