Eu havia esquecido aquele livro. Até agora.
— Você está bem? — A voz de Sofia
me trouxe de volta ao presente.
— Sim, só... pensando.
Ela apagou o cigarro com um
movimento deliberado, pisando a bituca com o salto como quem sela uma sentença.
Levantou-se, alisou a saia com gestos lentos, calculados, e me olhou com algo
que talvez fosse pena, ou pior, condescendência.
Se afastou sem dizer mais nada,
deixando-me sozinha com meu cigarro mal fumado e a fumaça arranhando a
garganta.
Lembrei do que Duras dizia, que
seduzir não era uma questão de autenticidade, e sim de consciência. Saber o que
se quer. E como conseguir.
Levei o cigarro de volta aos
lábios. Não traguei. Apenas deixei a fumaça pairar entre minha boca e o
silêncio, repetindo os gestos que havia memorizado. Um teatro íntimo.
Ted sabia que eu não sabia fumar
de verdade. Mas isso não importava. O que importava era a imagem. A ideia. A
versão de mim que o cigarro encenava.
Ted era meu. Ele só não sabia
ainda que eu não pretendia deixá-lo partir.
E se Sofia achava que podia
simplesmente "acontecer" na vida dele, estava prestes a descobrir que
há coisas que não se recebem, se conquistam. Na luta. No detalhe.
Terminei o cigarro sem pressa,
saboreando cada instante da queima lenta, cada leve ardor nos lábios. Com
cuidado, deixei a bituca no mesmo lugar onde Sofia havia jogado a dela.
Quando me levantei para voltar ao
trabalho, os dedos ainda cheirando a tabaco, os lábios formigando, já sabia o
que fazer. Ted podia querer manter nosso relacionamento em segredo, mas eu
encontraria um jeito de marcar meu território.
Sutil. Elegante. Inequívoco.
No dia seguinte, compraria um
Marlboro vermelho. E faria dele meu.
Em uma semana, Ted me veria de
forma diferente. Em um mês, seria Sofia quem estaria fumando sozinha debaixo da
árvore.
Aprender a fumar. Eu já havia
dado os primeiros passos. Mas agora precisava dominar. Fazer do cigarro uma
extensão do meu corpo, um adorno, um símbolo.
Precisava que ele acreditasse que
aquele prazer era meu, e não uma imitação mal feita.
Ted tinha um fetiche. E eu, uma
vocação para agradar.
Era uma equação perigosa. Mas eu
estava disposta a resolvê-la.
Construir uma nova versão de mim.
Uma Joyce com curvas de mistério, que falava pouco e olhava mais. Que sabia rir
nos momentos certos e não se desculpava por existir. Uma mulher que eu ainda
não era, mas podia ensaiar.
Como um papel escrito sob medida.
Talvez fosse isso que todos faziam. Talvez o amor fosse isso: uma atuação
convincente.
Viver dividida entre dois mundos.
A mulher que se alimentava à noite, e a filha que tomava café com os pais pela
manhã.
Era uma linha tênue, quase
invisível, entre obediência e mentira. Mas eu havia aprendido cedo a fingir.
Minha vida inteira fora um ensaio para esse papel.
Sofia havia me subestimado. E
isso, percebi com um sorriso, já era o primeiro erro dela.

Já sentia prazer em fumar, ou era ainda para agradar ao Ted e quebrar as regras de casa?
ResponderExcluirSinceramente não sei dizer. Mas se não fosse por Ted não estaria fazendo isso.
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