Na terça-feira, levei café para ele. Um gesto pequeno, doméstico. O modo como segurei a xícara um segundo a mais, o quase toque dos nossos dedos. Era suficiente.
Vi quando ele pegou o café. Vi também quando, num movimento automático, sem hesitação ou curiosidade, apenas o levou até a mesa. Nem me olhou. Nem agradeceu.
Sofia fingiu não ver. Continuou digitando, olhos fixos na tela, corpo imóvel. Mas um leve tremor percorria a rigidez de suas costas. Havia uma tensão no modo como cruzava as pernas. Parecia que seu corpo inteiro, de repente, se lembrara de ser mulher num território de disputa.
Na saída, ela retocou o batom. Agora mais escuro, mais definido. Despediu-se de Ted com um gesto educado e trivial, que, no entanto, pairou no ambiente. Não o tocou, mas o cercou.
Na volta pra casa, a cidade parecia mais quente, mais barulhenta. Os carros que cruzavam as ruas, pareciam saber para onde iam. Eu, não.
Após descer do ônibus, entrei direto na tabacaria. Pedi um Marlboro vermelho. A atendente me entregou o cigarro com indiferença. Nem sequer perguntou se era maço ou box.
Guardei o cigarro na bolsa com um
cuidado quase amoroso. Senti o zíper fechando, a textura do couro falso, a
pressão das minhas unhas batendo no tecido.
Havia um homem encostado no
balcão, escolhendo números da loteria com uma caneta que não funcionava.
Riscava o papel várias vezes no mesmo lugar. Insistia. Como se pudesse mudar o
destino persistindo no traço. Aquela obstinação, tão pequena, tão humana.
Observei aquela cena com uma estranha familiaridade. Era assim que eu também me movia até pouco tempo atrás, repetindo gestos que não levavam a nada.
Mas agora eu, não estava aprendendo a
fumar. Estava aprendendo a seduzir.
Com calma. Com gestos exatos. Sem
culpa.

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