Na quinta-feira, Sofia chegou com uma blusa que deixava os ombros à mostra. Estava frio, mas ela tremia com orgulho. A pele arrepiada parecia dizer: sim, estou sentindo, e é de propósito.
Na copa, enquanto conversava com
duas colegas riu mais alto que o necessário, falando sobre um filme que tinha
visto no fim de semana. Ted estava ali perto, quando ela disse com exagerada
naturalidade:
— Ah, o Ted também gosta desse
tipo de filme. — A frase ficou no ar. Uma isca, delicada e óbvia.
— Sério? Qual foi? Eu tô sempre
procurando indicação boa. — ele disse.
Eles começaram a falar sobre
cinema, ele conhecia até os pormenores mais obscuros que ela mencionava, fazia
piadas que só ela entendia. Riam juntos. E eu ali, observando aquela conversa
fluir com tanta naturalidade, percebi que eu não fazia parte daquele mundo onde
eles habitavam.
Quando ela jogou o cabelo e virou
o pescoço para trás que percebi: Sofia não queria só um homem. Sofia queria o
mundo. Queria ser notada, falada, adivinhada. Queria ocupar todos os espaços
com sua presença. E eu ali, observando tudo de longe, me sentia como uma sombra
tentando competir com o sol. Não havia disputa real, eu simplesmente não
existia naquele campo de batalha onde ela brilhava sem esforço.
[Sofia]

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