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Aprendendo a Tragar (2)

Na cozinha, a mesa já estava posta. Meu pai lia o jornal. Minha mãe picava uma maçã com um olhar severo e distraído. Sentei. Ninguém me olhou. Ninguém disse bom dia.

— Dormiu mal? — perguntou minha mãe, por fim, sem tirar os olhos da fruta.

— Um pouco.

— Deve ser esse tempo úmido — murmurou meu pai.

Falaram do tempo, dos preços, da política. Eu mastigava o pão sem sabor, numa cadência vazia.

Podia sentir o cheiro do cigarro sair pelos meus poros. Por um momento, achei que minha mãe fosse levantar o nariz, farejar algo no ar. Mas não.

Estava ocupada demais com o próprio desencanto.

Ela não sabia.

Na escada, deixei meu corpo descer. Na garganta, uma dor seca. Na pele, uma irritação viva.

Com a mão, segurei firme a bolsa que balançava ao ritmo dos passos. Me lembrei do gosto amargo, mas denso, do tabaco, aquele gosto que sussurrava:

“Você está aqui. Você existe.”

Do lado de fora do prédio, o mundo seguia indiferente. Mas por dentro, era como se algo em mim finalmente tivesse encontrado uma linguagem.

E, pela primeira vez na vida, o vazio das ruas não me assustou. Me acolheu.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. A foto ficou linda. Neste dia já começou a sentir vontade de fumar, aquele calafrio?

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  2. Não. Na verdade nem sei dizer exatamente quando aconteceu. Mas acredito que foi no segundo maço.

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