Na cozinha, a mesa já estava posta. Meu pai lia o jornal. Minha mãe picava uma maçã com um olhar severo e distraído. Sentei. Ninguém me olhou. Ninguém disse bom dia.
— Dormiu mal? — perguntou
minha mãe, por fim, sem tirar os olhos da fruta.
— Um pouco.
— Deve ser esse tempo úmido —
murmurou meu pai.
Falaram do tempo, dos preços, da
política. Eu mastigava o pão sem sabor, numa cadência vazia.
Podia sentir o cheiro do cigarro
sair pelos meus poros. Por um momento, achei que minha mãe fosse levantar o
nariz, farejar algo no ar. Mas não.
Estava ocupada demais com o
próprio desencanto.
Ela não sabia.
Na escada, deixei meu corpo
descer. Na garganta, uma dor seca. Na pele, uma irritação viva.
Com a mão, segurei firme a bolsa
que balançava ao ritmo dos passos. Me lembrei do gosto amargo, mas denso, do
tabaco, aquele gosto que sussurrava:
“Você está aqui. Você existe.”
Do lado de fora do prédio, o
mundo seguia indiferente. Mas por dentro, era como se algo em mim finalmente
tivesse encontrado uma linguagem.
E, pela primeira vez na vida, o
vazio das ruas não me assustou. Me acolheu.

A foto ficou linda. Neste dia já começou a sentir vontade de fumar, aquele calafrio?
ResponderExcluirNão. Na verdade nem sei dizer exatamente quando aconteceu. Mas acredito que foi no segundo maço.
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