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Aprendendo a Tragar (20)

Na volta pra casa, peguei o ônibus sozinha. Ted tinha ficado até mais tarde, nossos horários nem sempre batiam, e no trabalho a gente fingia que era só coincidência quando saíamos juntos. 

O ônibus parecia mais lento que o normal. A cidade se arrastava pelos vidros embaçados. Fiquei imaginando como era possível aprender a ser mais... tudo. Mais mulher. Pesquisei no celular durante o trajeto: como se portar com mais confiança, como uma mulher sexy se move, o que elas dizem, onde colocam as mãos, como acendem um cigarro. Assisti vídeos em silêncio, encolhida no banco do fundo. Atrizes. Influenciadoras. Mulheres com saltos altos e olhos afiados. Elas falavam devagar. Sorriam sem mostrar os dentes. Deixavam pausas onde a maioria preenchia com nervosismo. 

Anotei mentalmente tudo.

Desci no centro, mesmo sabendo que ainda faltavam duas paradas até em casa. Precisava de um lugar. Um momento.

Entrei numa praça quase vazia, com bancos de madeira e buganvílias. Os postes já estavam acesos, lançando uma luz morna sobre a calçada. Sentei de frente para o gazebo de onde caíam águas cálidas, vendo a fumaça que subia ao entrar em contato com o ar seco e frio.

Tirei o Marlboro vermelho da bolsa. Peguei o cigarro, senti seu cheiro pela primeira vez. Forte, amargo. Nada como o perfume de Sofia. Tinha um gosto de chão. De realidade. De coisa feita para resistir.

Coloquei nos lábios. O isqueiro tremia um pouco entre meus dedos. Risquei. A chama oscilou. Aproximei. Aspirei com cuidado. 

Sem tragar ainda. 

Apenas deixando a fumaça entrar e sair, como se fizesse parte do ar daquela noite.

Uma mulher passou por mim e me olhou por um segundo. Não com julgamento, mas com aquele tipo de curiosidade que se tem por alguém que parece saber o que está fazendo. Sorri, mesmo sem saber se havia feito certo. Senti o calor no rosto, a leve ardência na boca. Estava chegando perto.

[Meu Deus, que mulherão eu sou! O cigarro, sim, faz toda a diferença.] - Joyce

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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