No ônibus, escolhi a janela do lado esquerdo. Sempre gostei da sombra da manhã batendo do outro lado. Mas, naquele dia, não era por conforto, era por silêncio.
Encostei a cabeça no vidro frio e fechei os olhos por alguns segundos. Ainda era cedo. O motorista dirigia com a lentidão resignada de quem já havia feito aquela viagem tantas vezes que o caminho parecia sonolento. Quando abri os olhos, a paisagem já começava a mudar.
A estrada serpenteava à borda de uma serra alta, rochosa, recortada por campos ocres. Lá embaixo, o mundo ainda dormia sob um cobertor branco: uma neblina espessa, densa, imóvel, como um lago de algodão estagnado entre mares de morros.
Os topos, no entanto, estavam
livres, ilhas verdes e douradas emergindo do branco. Algumas araucárias
solitárias fincavam suas copas pontiagudas contra o céu. E o céu parecia uma promessa que alguém ainda não ousava cumprir: limpo, vasto, azul
profundo.
Era o primeiro dia de inverno.
Mas o frio que eu sentia não vinha da estação. Era o frio de dentro. Da mudança que ainda não encontrara lugar para repousar.
O ônibus descia devagar. O motor
roncava abafado. Cada curva parecia uma hesitação da própria terra. E eu ali,
imóvel, apenas deixando os olhos serem conduzidos pela paisagem que deslizava
como um pensamento antigo.
Vi uma casa isolada no alto de um
morro. Um casebre cinza, de madeira velha e telhado baixo. Uma fumaça tímida
subia da chaminé, alguém havia acordado antes de mim e feito fogo. Aquilo me
deu vontade de chorar. Não pela casa. Nem pela fumaça. Mas por esse gesto
anônimo, tão íntimo, tão contrário ao que eu sentia: alguém havia se levantado
e aquecido o mundo.

Comentários
Postar um comentário