Então fechei os olhos. Coloquei os fones de ouvido e, inspirada pelas roupas de Ted, escolhi Suedehead, do Morrissey. A guitarra entrou arrastada e melancólica, e logo a voz veio, suave, quase carinhosa, mas cheia de veneno: “Why do you come here, when you know it makes things hard for me?”
O vidro gelado contra a minha
testa parecia acalmar uma febre invisível. Mas, por dentro, a música mexia em
nervos que eu não queria mais expor. Pensava no cigarro da madrugada. No gosto
que deixara na boca. No jeito como minha mão tremia menos, mas o coração mais.
O ônibus mergulhou na neblina.
Eu entrava em outro mundo. Branco. Opaco. Suspenso. As janelas embaçaram
por dentro. Meus pensamentos também. Ali, envolta por aquele silêncio úmido, eu
me dei conta de algo que até então evitava: eu não sabia mais voltar. A antiga
Joyce ficava para trás, curva após curva, como folhas secas soltas na estrada.
Ted se mexeu ao meu lado. Não
acordado, não consciente. O corpo dele buscava o meu por hábito. A
cabeça deslizou no meu ombro, a respiração quente contra meu pescoço. Senti seu
nariz roçar de leve minha pele. E mesmo dormindo, ele me tocava, sonhando com o que já tem.
Fiquei imóvel, temendo espantar um animal selvagem. Mas meu corpo não era medo. Era presença. Era
atenção. O calor de Ted, misturado ao frio do vidro, criava em mim uma tensão
morna, viva, quase cruel. Passei os dedos lentamente pela barra do seu casaco.
Queria tocá-lo. Apenas com a ponta dos dedos. Apenas para ver o que acontecia.
Mas não toquei. Não ainda. Havia algo mais forte naquele instante: o desejo de
ser tocada sem pedir. De ser vista mesmo em silêncio. De ser desejada sem ter
que implorar.
Suas pernas encostavam nas
minhas. A proximidade era natural, mas nada ali era neutro. O tecido da calça
dele contra minha coxa, uma fricção sutil, repetida pelo balanço do ônibus. E
eu sentia. Sentia tudo. Fechei os olhos. Não para fugir, mas para ampliar. Para
deixar que o desejo crescesse dentro de mim com a mesma lentidão da névoa lá
fora. Na penumbra atrás das pálpebras, Ted se aproximava. Me olhava. Me dizia
com os olhos fechados o que nunca tivera coragem de dizer com a boca.

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