Pular para o conteúdo principal

Aprendendo a Tragar (6)

Então fechei os olhos. Coloquei os fones de ouvido e, inspirada pelas roupas de Ted, escolhi Suedehead, do Morrissey. A guitarra entrou arrastada e melancólica, e logo a voz veio, suave, quase carinhosa, mas cheia de veneno: “Why do you come here, when you know it makes things hard for me?”

O vidro gelado contra a minha testa parecia acalmar uma febre invisível. Mas, por dentro, a música mexia em nervos que eu não queria mais expor. Pensava no cigarro da madrugada. No gosto que deixara na boca. No jeito como minha mão tremia menos, mas o coração mais.

O ônibus mergulhou na neblina. Eu entrava em outro mundo. Branco. Opaco. Suspenso. As janelas embaçaram por dentro. Meus pensamentos também. Ali, envolta por aquele silêncio úmido, eu me dei conta de algo que até então evitava: eu não sabia mais voltar. A antiga Joyce ficava para trás, curva após curva, como folhas secas soltas na estrada.

Ted se mexeu ao meu lado. Não acordado, não consciente. O corpo dele buscava o meu por hábito. A cabeça deslizou no meu ombro, a respiração quente contra meu pescoço. Senti seu nariz roçar de leve minha pele. E mesmo dormindo, ele me tocava, sonhando com o que já tem.

Fiquei imóvel, temendo espantar um animal selvagem. Mas meu corpo não era medo. Era presença. Era atenção. O calor de Ted, misturado ao frio do vidro, criava em mim uma tensão morna, viva, quase cruel. Passei os dedos lentamente pela barra do seu casaco. Queria tocá-lo. Apenas com a ponta dos dedos. Apenas para ver o que acontecia. Mas não toquei. Não ainda. Havia algo mais forte naquele instante: o desejo de ser tocada sem pedir. De ser vista mesmo em silêncio. De ser desejada sem ter que implorar.

Suas pernas encostavam nas minhas. A proximidade era natural, mas nada ali era neutro. O tecido da calça dele contra minha coxa, uma fricção sutil, repetida pelo balanço do ônibus. E eu sentia. Sentia tudo. Fechei os olhos. Não para fugir, mas para ampliar. Para deixar que o desejo crescesse dentro de mim com a mesma lentidão da névoa lá fora. Na penumbra atrás das pálpebras, Ted se aproximava. Me olhava. Me dizia com os olhos fechados o que nunca tivera coragem de dizer com a boca.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Prazer...

Meu nome é Joyce (pelo menos por aqui rsrsrs). Simples assim. Sem segredos no nome, embora eu os tenha de sobra na alma. Tenho entre 30 e 40 anos, e um currículo impecável em todas as áreas que não envolvam vida social. Até os 25 nunca namorei. Nunca fui popular. Nunca fui o tipo de mulher que alguém olha duas vezes na rua e, sinceramente, por muito tempo achei que isso era uma virtude. Fui criada numa família onde aparência valia mais que afeto, e onde ser uma "boa moça" era o destino final, não o ponto de partida. Cresci achando que desejo era uma espécie de doença e que o silêncio era a linguagem mais segura. E talvez tenha sido mesmo. Pelo menos até eu conhecer Ted. Mas não quero parecer trágica. Trágico é o que nunca muda. E eu, bom, eu mudei. Ou estou tentando. É por isso que resolvi contar essa história. Porque às vezes é preciso escrever para entender. E às vezes é preciso acender o primeiro cigarro para, enfim, respirar. [Essa foi a primeira foto que tirei fumando,...

O Dia em que Fumei Pela Primeira Vez (7)

Na volta para casa, depois do almoço, porque na sexta só trabalhávamos pela manhã, passei mais uma vez em frente à tabacaria. Parei por mais tempo na vitrine. É só um maço , pensei. Não significa que vou virar fumante. É só... uma experiência . Mas não entrei. Não ainda . Dei uma volta no quarteirão. A ansiedade aumentava a cada passo, até que, sem nem perceber, meus pés me levaram de volta até a porta da loja. Parei por apenas alguns segundos, respirei fundo e entrei. O coração batia como se eu estivesse prestes a cometer um crime. Lá dentro, o cheiro de tabaco e papel, que eu esperava detestar, me trouxe um estranho conforto. O homem no balcão me olhou com curiosidade discreta. "Boa tarde. Posso ajudá-la?" " Marlboro Light", respondi, com uma firmeza que me surpreendeu. "Maço comum ou carteira?" Não fazia ideia da diferença. "Comum", arrisquei. "Vai precisar de isqueiro?" Isqueiro. Como não pensei nisso? "Sim, por fav...

Bem-vindos ao Novo Lar do Smoking Fetish no Brasil!

 É com imensa satisfação que inauguramos este espaço dedicado a todos os entusiastas e curiosos do smoking fetish no Brasil! Há muito tempo, percebemos uma lacuna na comunidade: o antigo blog "smokingfetishbrasil", embora tenha sido um ponto de encontro importante, foi infelizmente abandonado há anos. Comentários se acumularam, ultrapassando a marca dos 500 em muitas postagens, transformando a discussão em um emaranhado difícil de seguir e participar. Pensando nisso, criamos este blog com um propósito claro: facilitar a reunião e a troca de ideias entre as pessoas . Queremos que este seja um ambiente novo e vibrante onde todos possam se sentir à vontade para compartilhar suas perspectivas, discutir sobre o tema e se conectar com outros que compartilham esse interesse. Nosso objetivo é proporcionar uma plataforma intuitiva e dinâmica, onde os comentários sejam organizados e as conversas fluam naturalmente. Chega de se perder em centenas de respostas; aqui, a interação será si...