O ônibus estava quase vazio. Poucos passageiros dispersos pelos bancos, cada um carregando seu próprio peso de fim de tarde. Sentei no fundo, encostada na janela. O vidro estava embaçado pela respiração dos viajantes silenciosos e pela diferença de temperatura entre o interior aquecido e a noite fria lá fora.
Eu podia ver apenas os contornos das ruas, das fachadas, dos postes, tudo borrado. A cidade inteira era uma aquarela que alguém deixou na chuva.
As gotas desciam pelo vidro feito lágrimas transparentes, carregando consigo pequenos fragmentos da luz dos postes e dos semáforos. Cada gota que escorria parecia arrastar um pedaço de mim, tudo aquilo que eu já não conseguia mais segurar.
Peguei os meus fones de ouvido e liguei na primeira música que apareceu. Sem ver, sem pensar.
"Under the Milky Way", murmurou uma voz ao meu lado.
Uma senhora idosa, com um sorriso triste, apontou para o meu celular.
"The Church", ela disse, como se fosse importante que eu soubesse.
A melodia encheu o ar abafado do ônibus, e eu me vi tão pequena quanto aquelas luzes distantes lá fora.
A música parecia saber alguma coisa que eu não conseguia nomear. Cada nota carregava o peso do dia, da semana, dos meses em que eu me sentira sempre um passo atrás do que deveria ser. O cansaço, o vazio, a solidão que me acompanhava mesmo quando eu estava rodeada de pessoas.
O mundo inteiro se tornou um lugar distante, e eu apenas um grão de poeira perdido no escuro, olhando para cima, desejando fazer parte de algo maior.
Os olhos arderam. Senti o gosto salgado que vem antes das lágrimas, mas não chorei. Não mais.
O ônibus fez sua rota circular, passando por bairros que eu não conhecia, carregando-me por uma cidade que, de repente, parecia outra.
[Joyce]

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