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O "Segundo" Cigarro (34)

Quando finalmente reconheci as ruas perto de casa, experimentei um despertar turvo. Desci sob a chuva fina, com o coração batendo num ritmo estranho. 

Meus pés tocavam o asfalto molhado.

Entrei silenciosamente pela porta. O apartamento permanecia em seu ritual noturno familiar.

Passei direto pela sala, onde minha mãe assistia ao noticiário com aquela expressão de quem está presente, mas não realmente ali. Meu pai, como sempre, parecia mais atento ao som do próprio prato do que a qualquer coisa ao redor. 

Eles nem levantaram os olhos quando passei. Eu era parte da mobília, parte da rotina, parte daquele cenário que nunca mudava.

— Chegou tarde hoje — disse minha mãe.

— O ônibus demorou por causa da chuva — respondi.

Meu pai me olhou de cima a baixo. Eu conhecia bem aquela expressão. A expressão de quem precisava encontrar algo errado.

— Olha como você está. Toda molhada, parecendo uma mendiga. Que exemplo é esse?

Tirei os óculos para limpar as gotículas de chuva.

— Pai, eu só...

— Só o quê? Mulher direita não anda por aí desse jeito, a essas horas. Sua mãe nunca chegou em casa parecendo uma "desgraçada".

Minha mãe não levantou os olhos da tevê. 

Continuou assistindo à novela como se nada estivesse acontecendo, como se aquela conversa fosse apenas mais um ruído de fundo.

— Eu não sou uma desgraçada. Só está chuve...

— Está respondendo agora? Está me desrespeitando?

A voz dele subiu um tom. Entendi que era melhor calar a boca, subir para o quarto, deixar a tempestade passar. Mas aquilo ali, que possa parecer tão vazio, tão banal a outras pessoas, tinha me deixado uma marca.

— Não estou desrespeitando ninguém.

Foi quando ele se aproximou. Não foi um tapa forte, mais um empurrão brusco, que me fez cambalear. Não doeu fisicamente, mas o gesto carregava todo o peso da humilhação, da pequenez, da posição de quem só serve para ser corrigida.

— Vai pro seu quarto. E não quero ouvir mais nenhum pio hoje...

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Nos primeiros relatos, você descrevia morar em um apartamento

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  2. Mas é um apartamento.
    Minha casa é maneira de falar. É uma expressão.

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