A fumaça subiu lenta, preguiçosa, se perdendo na noite.
Levava com ela um pedaço da menina que eu fora até ali. A menina que pedia permissão para viver, que esperava que outros lhe dissessem quem ela deveria ser.
A menina que sonhava com homens que nem sabiam que ela existia, que construía fantasias sobre vidas que nunca teria coragem de viver.
O cigarro queimava entre meus dedos como um pequeno farol na escuridão. Cada vez que o levava à boca, sentia o calor se espalhar pelos pulmões, uma sensação estranha de posse sobre o meu próprio corpo.
Cada tragada era um pacto com essa mulher nova que eu mal começava a conhecer. Uma mulher que não queria mais só sonhar.
Queria estar.
Queria ser.
Queria escolher seus próprios vícios, seus próprios erros, seus próprios prazeres.
Uma mulher que fumava não porque alguém achava sexy, mas porque havia algo de rebelde e adulto naquele ato. Algo que dizia “eu decido” quando o mundo inteiro parecia decidir por ela.
Cada vez que levava o cigarro à boca, sentia o calor se espalhar pelos pulmões, uma sensação estranha de invasão e aceitação. Era como se eu estivesse aprendendo a respirar de novo, de uma forma que era minha. Só minha.
Ali, naquele momento, fumei dois cigarros completos.
Quando terminei o último, joguei a bituca pela janela. Ela caiu na rua como uma estrela cadente minúscula. Fechei a janela, mas não totalmente. Deixei uma fresta aberta, para que o ar pudesse circular. Para que eu pudesse respirar.
E ali, entre as paredes do quarto onde fui menina, dei o primeiro passo para deixar de ser.
Não foi um passo grande, nem dramático. Foi apenas o suficiente.
Foi o começo.

Joyce a próximas historias conta sobre as suas saídas na balada pra fumar
ResponderExcluirQuando se inicia a próxima série?
ResponderExcluirLonga espera
ResponderExcluirTeremos novidades hoje?
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