Saí do quarto para pegar água na cozinha e encontrei meus pais na sala, assistindo ao jornal noturno. Minha mãe ergueu os olhos quando me viu.
— Ainda acordada? — ela disse,
com aquele tom que sempre usava, como se eu fosse uma criança que tinha passado
da hora de dormir.
— Só vim pegar água.
Meu pai baixou o volume da TV.
— Joyce, senta aqui um pouquinho.
Queremos conversar com você.
Meu estômago se contraiu.
Conversa nunca era bom sinal.
— Sua mãe e eu estamos
preocupados — ele continuou, quando me sentei na ponta do sofá. — Você anda
diferente ultimamente. Mais... distante.
— Não ando nada, pai.
— Anda sim — minha mãe interveio.
— Chega tarde do trabalho, fica no celular o tempo todo, tem dia que mal janta
com a gente.
Eles se olharam, daquele jeito
que sempre faziam quando iam dizer algo que consideravam importante.
— Filha — meu pai disse, com a
voz mais séria —, você é muito nova ainda. Tem o mundo todo pela frente, mas...
você não conhece como as coisas funcionam lá fora. Não de verdade.
— Pai, eu tenho mestrado.
Trabalho. Pago minhas próprias coisas.
— Diploma é uma coisa — minha mãe
disse, balançando a cabeça. — Mas saber lidar com o mundo é outra completamente
diferente. Você sempre foi muito ingênua, Joyce. Muito... protegida.
— E isso não é defeito — meu pai
acrescentou rapidamente. — Mas é perigoso. Lá fora tem gente que se aproveita
de meninas como você. Gente que fala bonito, que promete coisas...
Eu senti o calor subir pelo
pescoço. Eles não sabiam de Ted, mas era como se estivessem lendo minha mente.
— Vocês estão exagerando.
— Não estamos — minha mãe disse,
e sua voz ficou mais firme. — A gente te criou direito, Joyce. Te deu educação,
valores. Mas o mundo não liga pra isso. O mundo vai tentar te corromper, te levar
a fazer coisas que você não quer, te meter em situações que você não vai saber
como sair.
Meu pai se inclinou para frente.
— Por isso que a gente precisa
estar sempre de olho. Não é porque não confiamos em você, é porque não
confiamos no mundo. Quantas meninas da sua idade já não se perderam por aí?
Quantas não se envolveram com gente errada, fizeram escolhas que arruinaram a
vida?
— Vocês querem o quê? Que eu
fique aqui dentro para sempre?
— Queremos que você seja
cuidadosa — minha mãe disse. — Que não tome decisões precipitadas. Que conversa
com a gente antes de... sei lá, de sair com pessoas que você não conhece
direito.
Ficamos em silêncio por um
momento. Na TV, o apresentador falava sobre um acidente na rodovia.
— A gente só quer o seu bem,
filha — meu pai disse, mais suave agora. — Você é tudo o que a gente tem. E o
mundo lá fora... ele machuca pessoas como você. Pessoas boas. Pessoas que
acreditam nas outras.
Eles continuaram falando, mas eu
já não estava mais escutando. Estava pensando em Ted no bar, bebendo sozinho.
Ou não sozinho. Estava pensando em Sofia aparecendo, linda e desinibida, sem
pais olhando por cima do ombro, sem medo de tomar as próprias decisões. Estava
pensando em como seria diferente se eu pudesse simplesmente sair, sem
explicações, sem mentiras, sem carregar o peso de ser "protegida" o
tempo todo.
Quando subi para o quarto, me
olhei no espelho do guarda-roupa. Uma menina olhou de volta. Não uma mulher.
Uma menina de vinte e sete anos que ainda precisava pedir permissão para viver.
Peguei o celular e olhei a
mensagem de Ted mais uma vez. "Você fez falta."
Menti pra ele. Ele mentiu pra
mim. Enquanto isso, eu me sentia sufocando numa vida que não era minha,
sonhando com uma liberdade que parecia sempre a um passo de distância.

Este anime ficou muito bom, se puder coloca aquela parte cortada da foto real. Neste dia a vontade foi de sair e fumar, ficou com medo deles estarem desconfiados?
ResponderExcluirsem vontade de fumar. só raiva
ResponderExcluirObrigado pela foto
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