O sábado se arrastava como um animal doente.
O tempo parecia mofado, parado, com aquele cheiro de tarde inútil. Eu andava de um cômodo ao outro sem saber por quê. Tentava ler, não conseguia. Colocava música, trocava. Deitava, levantava, sentava na beira da cama. Tomava água sem sede. A janela do quarto virava espelho. Meu reflexo vinha e ia com a luz das nuvens.
Olhei o celular dezenas de vezes. Nenhuma mensagem. Nenhum sinal de Ted. Nenhuma pista. Meu estômago doía como se esperasse por um golpe, desses que a gente já sabe que vai vir, mas finge que não.
Até que meu celular vibrou. Uma notificação
qualquer. Nem era dela. Mas meus dedos sabiam o caminho. Um movimento
automático me levou até o perfil de Sofia.
Era uma publicação nova. Uma foto
borrada. Uma mesa de bar. Um copo com gelo.
A legenda: "Com ele."
Sem marcação. Sem rosto. Só a
sugestão. Como se dissesse: "Alguém está comigo, e é ele. Vocês só não
sabem."
Eu congelei. Por fora, nada. Mas
dentro de mim, algo se partiu com delicadeza. Era isso. Ela ria da minha cara.
Corri para a cozinha, mesmo sem
nada para fazer lá.
Minha mãe lavava louça após
limpar a casa. Fui pegar um pouco de café. Ela nem olhou.
— Ajeite essa cara amassada —
disse, sem mudar o tom.
— Tava dormindo — respondi, seca.
O som da água bateu mais alto na
pia.
— Você está estranha hoje.
Aconteceu alguma coisa?
Parei com o copo na metade do
caminho.
— Aconteceu que vocês me tratam
como uma criança de quinze anos — cuspi as palavras antes de pensar.
Minha mãe se virou devagar, com a
toalha na mão.
— Joyce...
— Não começa! — interrompi, e
virei o copo de uma vez. — Eu tenho mestrado, trabalho, pago minhas contas, e
ainda assim tenho que pedir permissão para viver.
Ela ficou em silêncio. E eu saí
da cozinha sem esperar resposta.
Voltei para o quarto com o
coração batendo nos ouvidos. Fiquei olhando a parede por um tempo que não sei
medir.
Peguei o celular.
Desbloqueei.
Entrei nas redes.
Vi novamente a publicação. Três curtidas.
Só uma certeza se formou com
nitidez. Fechei o celular com força. Respirei fundo. Olhei o reflexo na janela.
Eu não ia deixar acontecer de
novo.

Joice depois que vc aprendeu a tragar quando tempo demorou pra vc fumar a quantidade que vc fuma hoje?
ResponderExcluirNão sei precisar ao certo. Mas demorou bastante.
ResponderExcluirMas tem dias que fumo muito pouco. Na minha última viagem fiquei alguns dias sem fumar. Nem lembrei.