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Aprendendo a Tragar (24)

O sábado se arrastava como um animal doente. 

O tempo parecia mofado, parado, com aquele cheiro de tarde inútil. Eu andava de um cômodo ao outro sem saber por quê. Tentava ler, não conseguia. Colocava música, trocava. Deitava, levantava, sentava na beira da cama. Tomava água sem sede. A janela do quarto virava espelho. Meu reflexo vinha e ia com a luz das nuvens.

Olhei o celular dezenas de vezes. Nenhuma mensagem. Nenhum sinal de Ted. Nenhuma pista. Meu estômago doía como se esperasse por um golpe, desses que a gente já sabe que vai vir, mas finge que não.

Deitei, levantei, rolei pela cama. Entrei nas redes, saí, voltei.

O dia não acontecia.

Era como se o mundo inteiro ainda estivesse preso na noite anterior. Minha mente não descansava. Via Ted num bar qualquer, rodeado de vozes, risos e luzes amareladas. Sofia entrando descompromissadamente, esbarrando nele. Imaginava o sorriso dele se abrindo leve, enquanto ela jogava os cabelos. Via os olhos dele brilhando, capturados sem perceber, enredados num encanto silencioso. Via o rosto dele rindo de alguma piada dela.

E tudo por quê? Porque eu, mais uma vez, estava presa naquela casa.

Até que meu celular vibrou. Uma notificação qualquer. Nem era dela. Mas meus dedos sabiam o caminho. Um movimento automático me levou até o perfil de Sofia.

Era uma publicação nova. Uma foto borrada. Uma mesa de bar. Um copo com gelo.

A legenda: "Com ele."

Sem marcação. Sem rosto. Só a sugestão. Como se dissesse: "Alguém está comigo, e é ele. Vocês só não sabem."

Eu congelei. Por fora, nada. Mas dentro de mim, algo se partiu com delicadeza. Era isso. Ela ria da minha cara.

Corri para a cozinha, mesmo sem nada para fazer lá.

Minha mãe lavava louça após limpar a casa. Fui pegar um pouco de café. Ela nem olhou.

Ajeite essa cara amassada disse, sem mudar o tom.

Tava dormindo respondi, seca.

O som da água bateu mais alto na pia.

Você está estranha hoje. Aconteceu alguma coisa?

Parei com o copo na metade do caminho.

Aconteceu que vocês me tratam como uma criança de quinze anos — cuspi as palavras antes de pensar.

Minha mãe se virou devagar, com a toalha na mão.

Joyce...

Não começa! interrompi, e virei o copo de uma vez.Eu tenho mestrado, trabalho, pago minhas contas, e ainda assim tenho que pedir permissão para viver.

Ela ficou em silêncio. E eu saí da cozinha sem esperar resposta.

Voltei para o quarto com o coração batendo nos ouvidos. Fiquei olhando a parede por um tempo que não sei medir.

Peguei o celular. 

Desbloqueei. 

Entrei nas redes. 

Vi novamente a publicação. Três curtidas.

Só uma certeza se formou com nitidez. Fechei o celular com força. Respirei fundo. Olhei o reflexo na janela.

Eu não ia deixar acontecer de novo.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Joice depois que vc aprendeu a tragar quando tempo demorou pra vc fumar a quantidade que vc fuma hoje?

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  2. Não sei precisar ao certo. Mas demorou bastante.
    Mas tem dias que fumo muito pouco. Na minha última viagem fiquei alguns dias sem fumar. Nem lembrei.

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