Naquela mesma noite, inventei um aniversário.
Precisava sair.
Escolhi o melhor vestido que
tinha, um branco leitoso. Tinha mangas curtas, um decote discreto em forma de
gota, e um pequeno botão perolado que fechava delicadamente na altura do peito.
O tecido era espesso, com aquele toque gelado que se molda ao corpo como se
tivesse memória. A barra passava da metade da coxa. Era o máximo de ousadia que
meu guarda-roupa permitia.
Olhei no espelho e me achei
linda. Séria e sensual ao mesmo tempo, exatamente como Kim Basinger. Ora como
em Batman, dependendo de como eu me movia, ora como em Uma Loira em Minha Vida.
Mas, no fundo, desejava ser ela em Los Angeles – Cidade Proibida: perigosa,
enigmática, inatingível.
Estava frio, mas vesti uma
meia-calça preta e uma jaqueta leve que mal aquecia. Eu queria sentir o vento.
Queria me sentir viva. Queria ser notada.
E, naquela noite, quis me
certificar que ele notaria.
Ted me esperava na frente do bar. Estava encostado num poste, mexendo no celular, e só levantou os olhos quando ouviu meus passos.
Por um segundo, ficou paralisado.
O olhar subiu e desceu
devagar pelo meu corpo, como se estivesse tentando decifrar uma equação. Não
disse nada. Sorriu meio torto, como sempre fazia.
Me aproximei para lhe dar um
beijo. Mas, antes que nossos rostos se encostassem, ele olhou discretamente ao
redor, como se procurasse algo no ar. Sorriu de novo, como quem acaba de
encontrar a resposta de uma pergunta.
— Uau. — Foi tudo o que disse.
Mas o que seus olhos diziam transcendia palavras. "Linda", eu pude ler neles. E assim, segui ao lado dele, com uma leveza recém-descoberta nos ombros, sentindo que o futuro, enfim, me sorria.

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