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Aprendendo a Tragar (26)

Entramos. Um lugar pequeno, quente, ainda não muito cheio. O bar tinha uma estética rockabilly dos anos 50: paredes vermelhas, uma jukebox brilhando ao fundo, um carro conversível azul-bebê enfeitando o canto. Sobre a parede principal, aquele quadro em que Elvis, Marilyn Monroe e James Dean estão sob uma luz dourada. O ar tinha um leve cheiro de nostalgia.

Quando entramos, senti os olhares se voltarem para mim. Nada escancarado. Mas houve um segundo de suspensão, uma pausa no movimento do bar. O estabelecimento inteiro pareceu esquecer o que fazia. Copos pararam no ar, garfos hesitaram nos pratos. Depois, tudo voltou ao normal. Ou quase.

Algumas meninas de jaqueta de couro e batom escuro me olharam por cima dos copos, com olhos que demoraram um pouco demais. Uma delas sussurrou algo para a amiga e riu baixinho. Os caras no balcão não riram, mas também não sorriram. Um deles ajeitou o boné e virou levemente o corpo, como se desse passagem.

Ted caminhava à frente, sereno. Mas lançou um olhar rápido por cima do ombro, não exatamente para mim, mas para o que me cercava. Checando se algo estava fora do lugar. 

O garçom nos abordou com um pequeno sobressalto, perdendo o compasso. Depois sorriu e nos levou até uma mesa perto da jukebox, onde tocava Long Tall Sally, do Little Richard.

Ted puxou a cadeira para mim. Sentei com cuidado. Senti o vestido subir um pouco ao cruzar as pernas. Passei a mão pelo tecido, ajustando-o em uma tentativa de elegância silenciosa. Era minha noite. Meu momento. Eu queria que todos olhassem. E eles estavam olhando.

Pedimos dois chopes. A bebida era um pouco amarga na garganta, mas não recuei. Sorri. Fiz o possível para parecer leve. Interessante. Desejável.

Ted ria, tocava meu joelho de vez em quando. Falava de coisas banais e depois ficava sério. Seu olhar demorava demais na minha boca.

— Trouxe o cigarro? — ele perguntou.

Assenti, tirando o Marlboro da bolsa. 

— Quero te ver fumando hoje. Quero que você fume bastante, se depender de mim.

Sorri com cuidado.

— Vamos com calma.

Pelo resto da noite, me esforcei para compensar. Apoiei o cotovelo na mesa, calcanhares firmes no chão, queixo na palma da mão, igual a Marilyn Monroe posando para uma revista. 

Ted falava sobre a importância de Little Richard para o rock and roll. Mudei de posição: cotovelo direito apoiado, cabeça inclinada, sorriso pensativo. Ele continuou falando. Troquei novamente: os dois cotovelos na mesa, queixo apoiado nas mãos entrelaçadas.

— Você tá bem? — Ted perguntou, parando no meio de uma frase sobre como o visual andrógino de Richard foi muito mais impactante, dado o contexto da época, do que o de Prince, de quem ele particularmente gostava por causa de uma única música que eu não conhecia.

— Claro. Por quê?

Cruzei as pernas. Depois descruzei. Cruzei do outro lado. Ted seguiu falando, agora sobre como a performance enérgica de Little Richard unia pessoas brancas e negras numa América ainda segregada. Joguei o cabelo por cima do ombro esquerdo. Três frases depois, para o direito. Mais duas, de volta para a esquerda.

— Tá ventando? — ele perguntou, olhando ao redor.

Ri baixinho, como se tivesse entendido uma piada interna. Ele tinha acabado de comentar que o garçom era simpático.

Tentei pegar o copo com elegância: dedos delicados na borda, pulso firme. O chope pesou mais do que esperava. A mão tremeu. Ajustei o grip, agora com a palma inteira. Ted me observava.

— Ginástica? — ele perguntou, apontando para minhas mãos.

Sorri, misteriosa. Inclinei-me para frente quando ele começou a falar sobre como Elvis, os Beatles e até Bowie deviam muito a Little Richard. Eu não entendia exatamente o que ele queria dizer. Eu não entendia nada, mas ele falava com tanta paixão que aquilo se tornava fascinante. Meu cotovelo escorregou um centímetro na mesa molhada. Me recompus rapidamente.

Quando Ted foi ao banheiro, pratiquei uma pose: queixo na mão direita, olhar perdido na janela. Ele voltou por trás.

— Pensando em quê?

Virei-me devagar, em câmera lenta.

— No piano. Gosto do piano. Queria que mais músicas usassem piano. Tentando mostrar que tinha prestado atenção, uma aluna admirando o professor.

Ele piscou duas vezes.


"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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