As calçadas refletiam os letreiros em neon. Havia fumaça no ar, risos altos, uma música abafada vindo de algum lugar indefinido. Minhas unhas escuras tamborilavam o couro falso da bolsa. Ted me olhava com desejo transparente, quase impaciente. Seus olhos se inclinavam em direção à minha bolsa com uma súplica muda. Ele queria ver.
Abri a bolsa com calma. O maço estava logo ali. Retirei um cigarro com cuidado, encostei nos lábios. Guardei o maço. Fechei a bolsa. Ah, o isqueiro.
Tinha esquecido o isqueiro.
Ted revirou os olhos como quem diz “não acredito”. Abri a bolsa de novo, vasculhei até encontrar. Quando o peguei, ele soltou um “finalmente” aliviado. Ri com o cigarro ainda nos lábios.
Acendi com certa hesitação. Ele não percebeu.
Fumei sem tragar. Deixei que a fumaça fluísse pela boca num gesto calculado de charme. Ted, devoto, aproximou-se para contemplar uma deusa em transe.
— Isso. Assim. — sussurrou, com os olhos acesos. — Você fica linda fumando.
Ri baixinho. Joguei o cabelo para trás e segurei o cigarro com dois dedos, afastado do rosto, como via nos filmes. Foi ali, com o cigarro aceso entre os dedos, que Ted me beijou. Ele, não eu.
Ted mordeu meu lábio inferior. Um gemido escapou da minha garganta, um som que eu nem sabia existir em mim. Suas mãos subiram pelas minhas costas, os dedos firmes contornando cada vértebra. Meu corpo se arqueou contra o dele.
O cigarro ainda ardia entre meus dedos. Ted segurou minha mão, aproximou-a do nosso rosto sem quebrar o beijo. A brasa pulsava vermelha no escuro, tão viva quanto nossa respiração.
Quando ele pressionou os quadris contra os meus, senti tudo, o desejo dele, duro e urgente, despertando algo primitivo em mim. Minhas pernas se abriram ligeiramente, sem pensar. Ted gemeu contra minha boca.
Seus dedos enroscaram no meu cabelo, puxando de leve, expondo meu pescoço. Sua boca desceu pela garganta, os dentes roçaram a pele. Cada toque era como fogo líquido circulando sob minha carne.
Quando nos separamos, eu tremia inteira. Os lábios inchados, a respiração descompassada. O frio da noite bateu na minha pele ainda quente. Ted me olhava com uma fome que me fez corar, e me molhar.
Por um instante, quis acreditar que era eu que ele via.
Fumei três cigarros naquela noite. Três. Nenhum de verdade. Não deixei a fumaça chegar fundo. Ainda assim, o gosto ficou na boca. A garganta arranhava. Os olhos ardiam. Mas escondi. Não tossi. Não deixei que ele percebesse que eu ainda era só uma aprendiz.
Ted falava e ria. Para ele, o cigarro era um adereço. Um símbolo. Uma performance.
No fim da noite, encostou o rosto no meu pescoço e sussurrou:
— Você foi perfeita.
Mas eu sabia.
Não tinha sido eu.
Tinha sido uma versão cuidadosamente construída de mim. Um disfarce. E o que mais me assustava era o quanto ele parecia preferi-la.

Pra mim este capítulo foi o melhor disparado até aqui, me passou um filme na cabeça, a foto também ficou muito linda.
ResponderExcluirQue bom que está gostando! Eu, particularmente, prefiro o momento anterior. Não consigo esquecer a vergonha que passei quando o Ted comentou que eu parecia ter saído direto do culto. Foi um mico histórico para mim, ainda mais porque eu estava me esforçando tanto para ser sensual! rsrsrs
ResponderExcluirE sobre o malabarismo do Ted para não aparecer na foto? Aquilo não foi feito por IA, é da foto original mesmo, acredita? kkkk
ResponderExcluir