Voltamos para dentro. E, nesse retorno, algo em mim havia mudado de forma imperceptível, mas já pulsava. Não sabia exatamente o quê, mas era como uma possibilidade perturbadora, uma vibração tênue nas bordas da consciência, que abalava minhas antigas certezas.
Instantaneamente, minha mente buscou refúgio na lembrança da faculdade, onde meu santuário era a biblioteca. Os livros de biologia me ofereciam o que o mundo real nunca foi capaz de oferecer: previsibilidade absoluta. Células se dividiam com lógica inabalável. Reações químicas obedeciam a regras imutáveis. Aquele universo era compreensível. Seguro.
Passei tardes inteiras entre anatomias, fisiologias, atlas e tratados. O bibliotecário me conhecia pelo nome. Cheguei a ganhar um prêmio ridículo por ser a aluna que mais retirava livros. Guardei o certificado. Ainda o tenho. Naquele tempo, estar sozinha era uma escolha. Hoje, parecia uma condenação.
A voz de Sofia me trouxe de volta ao presente. Tentei disfarçar o susto com um comentário técnico qualquer, algo sobre conferir as datas, uma mentira, claro. Eu estava, na verdade, pensando no tempo em que apenas o conhecimento bastava. Em que o mundo era menos ambíguo.
Sofia propôs começarmos pelo primeiro trimestre. Eu queria apenas que ela fosse embora. Preferia lidar com relatórios, mesmo repetitivos, mesmo exaustivos. Pelo menos neles, eu não precisava fingir.
Concordei, e ela abriu a pasta. Fiquei observando seus gestos, atenta, como quem procura sinais. O som do anel dourado no dedo médio batendo contra a mesa começou a me irritar mais do que fazia sentido.
[Sofia]
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."
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