Sofia quis saber se eu já tinha trabalhado com relatórios daquele tipo. Respondi que sim, e quando ela perguntou se eu gostava da experiência, limitei-me a dizer que era apenas trabalho. Ela riu, um riso breve, que soou mais por obrigação que por graça genuína. Comentou que, às vezes, sentia que passava mais tempo na burocracia do que em algo realmente útil.
Não respondi. Nunca soube distinguir se palavras assim vinham de uma tentativa de aproximação ou apenas da necessidade de preencher o silêncio. Interações sociais sempre me pareceram um idioma estrangeiro: sei dizer "olá", "obrigada", mas ignoro a gramática real, os subtextos, as cortesias disfarçadas, os jogos encobertos.
Em algum momento, ela quis fazer uma pergunta pessoal. Meu corpo reagiu antes que eu pudesse pensar. Disse que dependeria da pergunta. Mais uma tentativa de manter algum controle.
Ela quis saber se eu sempre fui assim; reservada.
“Reservada”. Um eufemismo generoso. Queria dizer “estranha”. “Antissocial”. Neguei, sem negar. Disse que não sabia do que ela estava falando. Ela insistiu, observando que eu parecia sempre distante. Como se preferisse estar em outro lugar.
E ela estava certa. Sempre preferi. Minha cama. Um livro. Um filme ruim. Qualquer lugar onde eu não precisasse me explicar.
Afirmei que estava bem ali. Outra mentira. Uma das tantas.
Sofia me olhou por tempo demais. Depois voltou aos papéis, encerrando a tentativa de conversa com um retorno ao trabalho.
A próxima hora foi feita de silêncio tenso, entre cliques de teclado e o som frio do ar-condicionado. Eu pensava em Ted. Em sexta-feira. No cigarro. Nas mãos dele tremendo.
De tempos em tempos, ela perguntava algo técnico sobre os dados. Eu respondia o mínimo. Não por grosseria. Ou talvez sim. Talvez fosse defesa. Instinto.
Quando finalmente começou a guardar os papéis, comentou que havíamos feito um bom progresso. Perguntou se poderíamos continuar no dia seguinte. Assenti. Ela se levantou, hesitou como se fosse dizer algo, depois apenas acenou com um gesto contido.
Observei seu caminho até o setor onde Ted trabalhava. Notei como diminuiu o passo. Como o corpo se reorientava, discretamente, na direção dele.
Sozinha outra vez, com planilhas e números, entendi o que talvez sempre soube: não era só trabalho. Nunca é só trabalho.
Sofia queria algo.

Vixi, acho que não era para ter sido postado hoje, dei sorte, ficou muito bom!
ResponderExcluirDia 30 do 12. por enquanto é tudo que escrevi. Vou programando primeiro depois vou revisando.
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