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Aprendendo a Tragar (33)

Quando Ted se levantou para buscar café, Sofia não perdeu tempo. Em menos de um minuto, já caminhava ao lado dele, meio passo atrás, inclinando a cabeça sempre que ele falava, rindo de qualquer coisa que ele dissesse. Fiquei observando de longe, como sempre.

Foi aí que me ouvi dizendo, quase sem pensar, jogando palavras ao vento:

Já te contei da minha formatura do ensino médio?

O faxineiro passava pano ali por perto, nem sei se ouviu direito. Mas continuou ali, então continuei também.

Ginásio da escola, luzes piscando, papel crepom desbotado. Eu, de vestido azul-marinho que minha mãe escolheu. “Clássico e apropriado”, ela disse.

Ele parou de esfregar o chão por um instante. Talvez tenha estranhado o rumo da conversa. Talvez tenha se interessado. Não sei.

Fiquei duas horas sentada numa cadeira de plástico, vendo os outros dançarem. Rindo. Se beijando. Parecia que todos tinham recebido um manual de instruções que esqueceram de me entregar. 

Meus pais disseram que eu precisava focar no vestibular. Que essas distrações não eram pra mim. Agiam como se namorar fosse um vírus capaz de contaminar o cérebro.

Parei por um segundo. Olhei pra ele, que agora fingia organizar uma pilha de panos numa cadeira.

O Marcus dançou com a Cláudia. Ele sempre foi gentil comigo. Mas nunca passou disso. Nunca olhou diferente. Marcus Vieira e Cláudia Santos.

Voltei os olhos para o computador. Ted já estava de volta, Sofia ainda orbitando a cadeira dele.

A pior parte foi quando tocou música lenta. Casais se formaram em um instinto animal. E eu ali, com meu coque ridículo e cara limpa, porque “meninas da sua idade não precisam se pintar”.

Imitei minha mãe com a voz. O faxineiro murmurou um “sei como é” que pode ter sido só educação. Mas serviu.

Minha mãe ficou satisfeita naquela noite. Disse que pelo menos eu não tinha me distraído com besteiras.

Balancei a cabeça devagar, como se estivesse tentando soltar algum pensamento antigo preso na nuca.

O problema é que as notas não abraçam a gente depois.

Ele não respondeu. Nem precisava. Já tinha falado mais do que a maioria.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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