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Aprendendo a Tragar (34)

Respirei fundo, ajeitei a planilha, voltei a fingir que estava ocupada. Mas por dentro, eu tinha dezessete anos de novo. Sozinha num ginásio feio, de vestido azul-marinho, observando a vida passar por mim.

Só que agora era pior. Porque agora eu sabia como era ser vista. Mesmo que por minutos. Mesmo que de forma confusa. E saber o gosto da coisa torna a ausência muito mais aguda.

Levantei-me abruptamente da mesa, surpreendendo Sofia, que ainda organizava os seus papéis.

Caminhei direto para o jardim, precisando desesperadamente de algo que me arrancasse daquela sensação de estar desaparecendo. O ar lá fora estava pesado; carregado de umidade e de promessas de tempestade.

Acendi outro cigarro. Apenas puxava a fumaça para a boca e soltava, sem tragar. 

Fechei os olhos e, de repente, estava de volta ao laboratório de biologia da escola. Quinze anos. Escondida atrás dos armários de reagentes segurando um cigarro.

Não era meu cigarro. Era de um garoto que sentava na última fileira e sempre cheirava a rebeldia adolescente mal resolvida. Ele havia deixado o maço no bolso da jaqueta durante a aula prática e, quando todos saíram para o intervalo, eu fiquei para trás, fingindo organizar meus materiais.

O maço estava ali, amarrotado e tentador. Peguei um cigarro com a mesma reverência com que manuseava os instrumentos delicados do laboratório. Não acendi. Apenas o segurei entre os dedos, senti o papel rugoso, inalei o aroma seco e promissor do tabaco.

Foi um segredo que guardei dos meus pais. Não porque fosse algo terrível, mas porque eu havia tocado o proibido. Não por acidente. Não por pressão. Porque quis. Porque, por alguns segundos, fui perigosa.

Guardei o cigarro entre as páginas do livro de filosofia. Nunca fumei aquele cigarro. Nunca nem tentei.

O garoto nunca soube do cigarro que desapareceu. Provavelmente nem notou. Mas eu sabia. E saber mudou alguma coisa em mim, plantou uma semente que ficou dormente por anos, esperando o momento certo para germinar.

Agora, debaixo da árvore, a fumaça do meu cigarro se dissolvia no ar úmido. Pensei em Ted. Na sexta-feira. Na forma que ele me olhou quando acendi meu cigarro. Vendo alguém que não esperava encontrar.

Talvez fosse exatamente isso. Ele viu a Joyce que eu mantinha escondida desde os quinze. A Joyce que guardava o cigarro no livro de filosofia. A Joyce que podia ser perigosa desde que ninguém estivesse olhando.

Terminei o cigarro e o apaguei com mais força do que precisava. Quando voltei para dentro, Sofia me olhou com uma curiosidade renovada.

— Melhor? — perguntou.

— Muito melhor — respondi. E, pela primeira vez no dia, não estava mentindo. 

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

Comentários

  1. Boa tarde Joyce, acredito que neste momento a nicotina começava a fazer efeito, mesmo sem sentir ainda necessidade, vontade de fumar, ao passar por um momento estressante precisou de um cigarro para relaxar.

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  2. Ainda não. Mas neste momento especifico eu estava fumando. Talvez por isso não tenha notado. Só fui sentir isso mais para frente.

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