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Aprendendo a Tragar (36)

Saí da sala menor do que entrei. Fui ao bebedouro. Inclinei-me sobre a pia de alumínio e deixei a água escorrer pela garganta, deixando um gosto metálico.

Percebi Sofia encostada na parede, a poucos passos de mim. Braços cruzados, expressão neutra, levemente divertida. Não disse nada. Não precisava. Sua presença bastava para tornar o desconforto mais nítido. 

Aproximou-se com um meio sorriso, o tipo de gesto que tenta suavizar o constrangimento coletivo, e comentou que também odiava aquelas dinâmicas. Tentei rir, mas meus olhos ainda ardiam. Ela me olhou de lado, me enxergando por um ângulo que os outros ignoravam.

Foi então que ela disse que eu era inteligente demais para aquele lugar. E mencionou minha tese. A tese. A parte em que eu discutia os mecanismos de dormência e germinação sob condições extremas. Como certas sementes, mesmo esquecidas por décadas, ainda guardam vida dentro de si. “Afilado”, foi o termo que ela usou. Aquilo me imobilizou. Ninguém jamais havia mencionado minha pesquisa. Na verdade, ninguém nunca demonstrara ter lido uma linha de qualquer coisa que escrevi.

Confessei a dificuldade em escrever, mas a conclusão foi ainda mais árdua. Veio aquela sensação de vazio, de desocupação. Tive a impressão de ter passado anos erguendo uma casa meticulosa, e ao finalizá-la, descobri que ninguém a ocuparia.

Sofia demorou um pouco para responder. Quando falou, havia suavidade no tom. Comentou que, às vezes, a gente tentando construir barreiras. Quanto mais difícil de entender, menos gente entra. E, entrando menos gente, é mais fácil esconder o que realmente sentimos.

Naquele instante, olhei para ela. A luz do fim da tarde atravessava o vidro e se derramava sobre seu rosto. A definição dos lábios, os contornos das pálpebras, tudo parecia mais nítido. Havia algo no olhar dela. Uma ternura que não pedia explicação. 

Sofia apenas sorriu. Entre o ruído do bebedouro e os passos dispersos no corredor, o silêncio entre nós se adensou. Um silêncio quente, suspenso, quase tangível. Saímos dali caminhando juntas. Um passo a mais e estaríamos em outro lugar. Mas não demos o passo. Voltamos ao trabalho. 

Antes de se afastar, ela ergueu uma sobrancelha e disse, com uma certeza tranquila, que eles não sabiam o que tinham nas mãos.

Observei enquanto ela dobrava o corredor e desaparecia. Só então voltei a respirar fundo.

"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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