Na copa, o cheiro de arroz requentado e gordura velha pairava no ar. As garrafas térmicas, rotuladas com etiquetas desbotadas, “forte” e “fraco”, ofereciam variações igualmente ruins.
Escolhi o forte. Servi num copo de plástico já deformado pelo vapor.
Encostei-me à parede, observando o movimento. Dei um gole. Morno, amargo, triste. Engoli assim mesmo.
A voz que veio em seguida era alta demais para a intimidade do espaço. Comentava sobre minha seriedade, sobre como eu raramente falava. Dizia que ninguém sabia ao certo se eu era metida ou só muda mesmo. O tom era de brincadeira, mas o alvo era claro.
Reconheci o dono. Um homem de meia-idade, sorriso torto, cheiro de desodorante vencido. Estava sempre por perto. Esperava uma brecha. Achou.
Continuou dizendo que eu parecia sempre sozinha, cara fechada. Gargalhou, seco. Comentou que eu devia odiar gente.
Alguns riram. Outros fingiram não ouvir. Ninguém disse nada.
Coloquei o copo no balcão com mais força do que pretendia. O café espirrou no tampo manchado. Saí da copa sem olhar para trás.
No corredor, a luz fria refletia no piso encardido. Cartazes tortos, colados com fita crepe, anunciavam palestras sobre “inteligência emocional” e “liderança positiva”. Ironias que feriam.
Entrei na sala vazia da equipe. A cadeira giratória rangeu sob meu peso. Fiquei ali, imóvel. O mundo girava lá fora. Aqui dentro, só ruído branco.
O ataque fora pequeno, mas preciso. Não doía pelo conteúdo, e sim pela naturalidade com que me diminuíam. Bastava um erro, um silêncio, um café ruim. E eu já não contava.
Tentei pensar no laboratório. Nas bancadas limpas, nas centrífugas. Lá, tudo fazia sentido. Havia método, lógica, controle.
O mestrado me ensinara a desaparecer com alguma dignidade. Entre dados e protocolos, eu era alguém, ou, ao menos, não precisava fingir ser nada para ninguém.
Mas naquele lugar, inteligência não bastava. Era preciso sorrir, falar, pertencer. E minha erudição silenciosa, minha postura contida, eram afrontas à cultura do cafezinho e do “bom dia animado”.
Do lado de fora, passos e risos. O mundo seguia. Eu, ainda quente de raiva e vergonha, tentava lembrar por que escolhera estar ali. Por que saíra do que era seguro. Por que me expus.

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