Ainda estava sentada quando ouvi a porta ranger. Sofia entrou sem pedir licença. Tinha aquele jeito de quem pertence aos espaços antes mesmo de chegar. Trazia um copo de café e o cabelo preso com um lápis. Sentou-se na mesa, fechando a porta atrás de si com naturalidade.
Disse que tinha visto quando eu saí da copa. Comentou que aquele idiota não valia a pena.
Baixei os olhos. Ouvir aquilo era mais incômodo do que o ataque em si. Irritava-me, embora não soubesse bem por quê. Talvez porque Sofia fosse o tipo de pessoa que sabia se mover no mundo. Sabia rir na hora certa. Sabia ser vista sem se mostrar vulnerável.
Não respondi. O suor escorria da nuca até a espinha. A blusa colava na pele.
Ela perguntou se eu estava bem. Assenti, mas o gesto foi automático.
Sofia se acomodou na borda da mesa, de frente para mim. Seus joelhos quase tocavam os meus. Empurrou o copo de café em minha direção. Não toquei.
Quando ergui os olhos, vi que ela me observava com atenção. Havia sinceridade no olhar. Mas também algo suspenso. Mencionou minha tese. Disse que a parte sobre a comunicação entre sementes era bonita. E triste.
Concordei. Expliquei que no mestrado, tudo era mais simples. Ninguém esperava nada além de resultados. Eu não precisava agradar, nem pertencer. Era só eu, o laboratório e o tempo. Um esconderijo limpo, controlável.
Ela passou os dedos pela borda da mesa, distraída. A tinta descascava em lascas pequenas.
Continuei falando, sem saber por quê. Contei que ficava até tarde, sozinha, entre centrífugas. Que tudo ali tinha lógica. Se algo falhava, eu ajustava. Sem plateia. Sem julgamento. Cada dado era uma justificativa para continuar existindo. Não ia a festas, a bares, a casas de amigos. Que amigos?! Não havia espaço para o fracasso emocional. E se algo dava errado, eu recomeçava. Sem vergonha. Sem testemunhas.
Por um instante o silêncio entre nós se adensou. Sofia baixou de leve a cabeça e quase em um sussurro me perguntou:
— E aqui?
Respondi com um riso seco.
— Aqui, tudo é plateia.
Ela permaneceu quieta, os olhos fixos nos meus. O mundo lá fora continuava, indiferente. Os nossos joelhos ainda quase se tocavam.
Sofia se inclinou um pouco, como se fosse falar, mas recuou. Levantou-se com leveza. Ajustou a blusa com um gesto lento. Disse que eu tinha essa coisa, de me esconder atrás da inteligência. Como se pensar fosse mais seguro do que sentir.
Não retruquei. Não consegui. As palavras não vieram. E ela, mais uma vez, acertava um ponto que eu nem sabia que existia.
Acrescentou, quase num pedido, que eu não precisava estar sozinha o tempo todo.
Quis responder. Abri a boca. Nada. O ar parecia mais espesso. Os olhos dela não se desviavam. Esperavam.
Passei os dedos pela borda do copo, procurando ali alguma resposta. Encontrei apenas calor.
Desviei o olhar. Devagar. Recuando, sem admitir derrota.
Ela não insistiu. Apenas se afastou, com movimentos calmos. Disse que ia voltar para a sala. Mas ficou parada por um segundo além do necessário... Depois, saiu.
Fiquei ali, olhando o copo de café. O vapor já não subia. Encostei a testa na mesa. O pulso acelerado. Nenhuma voz. Mas o calor persistia. E eu, ali, sem saber o que fazer com aquilo.
[Sofia]
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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