O jardim dos fundos era pouco usado. Quase sempre vazio. Um corredor estreito de sombra entre a lateral do prédio e o muro alto da instituição. Ali, entre samambaias, era possível esquecer o ruído do resto. Sentei-me encostando as costas na parede áspera.
O vento trazia o cheiro de terra seca e folhas queimadas de sol. O silêncio ali era bem-vindo.
Ted apareceu minutos depois, como sempre, sem pressa. Veio sem palavras, sentou-se ao meu lado. Perto o bastante para que nossos ombros quase se tocassem, longe o suficiente para manter a ilusão de casualidade.
Ele não me olhou; eu também não.
— Café ruim hoje?
Olhei para as minhas mãos, onde ainda sentia o fantasma da textura do copo de plástico.
— Do pior tipo.
Sua voz era baixa. Sem fúria, sem urgência. Como tudo nele.
Disse a ele que não precisava falar sobre aquilo. Que eu não queria. Mas ele insistiu com delicadeza, não com perguntas, mas com um pensamento.
— Chico Xavier tem uma bela frase, da qual eu sempre gosto de me lembrar: “Que eu seja sempre o ofendido, nunca o ofensor.”
O silêncio que se seguiu não foi incômodo. Era como se o ar entre nós absorvesse o que as palavras não conseguiam nomear.
— É sobre escolher que tipo de pessoa você quer ser quando o mundo te dá a opção de ser cruel.
Olhei em sua direção. Um gesto rápido, furtivo. Como quem busca um ponto de equilíbrio. E encontrei.
— Mas dói — confessei, com a voz abafada. — Não pela piada. Pelo jeito como todo mundo deixou passar. Como se eu merecesse.
Ele demorou a responder. Quando falou, foi com a mesma calma que me desarmava.
— Você é forte. E isso assusta os fracos.
Levantei a cabeça devagar, os olhos nele. A luz filtrada pelas folhas desenhava manchas móveis em seu rosto. Os olhos eram serenos, mas havia neles uma tristeza antiga, silenciosa.
Mordi o lábio inferior, sem perceber.
— Você tem esse talento irritante — murmurei. — De fazer tudo parecer menos grave do que é.
— É que quando olho pra você, já basta pra querer que as coisas fiquem mais leves.
Não respondi. Apenas estendi a mão por trás do banco, num gesto quase escondido. A ponta dos meus dedos roçou a camisa dele. E aquilo foi suficiente.
Ele sorriu de leve e comentou que tudo era uma questão de perspectiva. Útil, segundo ele, para uma cientista teimosa. Fingi que era uma acusação. Respondi baixinho que era obstinação metódica.
Ele riu. Eu também. Um som pequeno, mas real.
Disse, então, que eu era brilhante. E que o mundo sabia disso, por isso me atacava. Que a mediocridade reconhece a excelência, e reage com agressividade.
Olhei para o céu. Algumas nuvens se formavam num padrão que parecia obedecer a uma lógica secreta.
— Às vezes me sinto de outra espécie — confessei. — Como se tivesse sido programada pra um mundo que ainda não existe.
Ele respondeu, que talvez fosse isso mesmo. Ou talvez eu pertenceria ao mundo que está por vir, e os outros, ao mundo que está ficando pra trás.
Ficamos ali por mais alguns minutos, em silêncio. Um silêncio diferente dos anteriores. Um que dizia mais do que qualquer palavra poderia dizer.
Se eu era cientista, Ted era meu único experimento que sempre dava certo.

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