O ônibus balançava com uma regularidade hipnótica. Sentei ao lado de Ted. A luz dourada da tarde escorria pelas janelas empoeiradas, projetando manchas trêmulas sobre as poltronas. Ted estava com os fones enfiados nos ouvidos e o olhar preso em algo além da janela. Uma música que eu não ouvia. Um mundo que eu não habitava.
Nossos joelhos se tocavam discretamente a cada curva. Recostei-me na poltrona e deixei o corpo seguir o movimento.
Olhei pela janela e me vi refletida no vidro: a Joyce-do-trabalho se dissolvendo lentamente, preparando-se para a metamorfose em Joyce-de-casa. Era uma alquimia exaustiva, essa transmutação diária entre versões de mim mesma.
Com Ted, eu era um elemento em estado de descoberta, volátil, reativa, viva. Em casa, voltava a ser o composto estável que meus pais haviam sintetizado ao longo de décadas de controle cuidadoso.
As duas existiam. Mas não no mesmo corpo.
A vibração do motor me embalou de volta a uma lembrança que chegou sem aviso.
Vi de novo a sala de estar de quando eu era pequena. Os móveis pesados, a televisão sempre ligada em volume baixo, minha mãe passando roupa num domingo à tarde, meu pai sentado na poltrona com o jornal.
E eu, uma silhueta pequena sobre o carpete, encenando diálogos com minhas bonecas. Era assim que eu aprendia a conversar: falando por duas.
Estava no chão da sala, cercada por uma população inteira de brinquedos que eu havia organizado em pequenas sociedades complexas.
Havia a boneca médica, ursinhos-trabalhadores, responsáveis pela infraestrutura do mundo de pelúcia, e carrinhos-exploradores que mapeavam territórios desconhecidos debaixo do sofá.
A infância era aquilo: uma redoma. Um jardim seco onde não se podia correr.
Eu via outras crianças no parque, no caminho da escola, subindo nos brinquedos com os joelhos ralados e as meias tortas. Observava-as como se fossem animais selvagens em liberdade. Não as invejava de imediato.
Primeiro, eu as temia.
Depois, desejei ser como elas, mas em silêncio.
Sussurrei para a Dra. Helena, minha boneca de cabelo desgrenhado, que precisávamos descobrir por que os ursinhos estavam ficando tristes.
Minha mãe perguntou com quem eu falava, e eu explicava que era com a Dra. Helena, que estava muito preocupada com o fato de os ursinhos se sentirem sozinhos mesmo com tanto ursinho por perto.
Minha mãe parou. Aos sete anos, eu já fazia perguntas que a deixavam desconfortável. E ela sempre tentava me convencer de que eu não me sentia sozinha, porque ela e papai estavam sempre ali.
"Todas as imagens aqui expostas são meramente ilustrativas, resultantes da aplicação de Inteligência Artificial generativa, e não correspondem a retratos de pessoas reais."

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