A lembrança se dissolveu e se recompôs em outro momento. Estávamos no parque, eu, minha mãe e meu pai flanqueando-me como guarda-costas discretos. Havia um grupo de crianças brincando de pique-esconde entre as árvores, correndo, gritando, caindo e levantando com os joelhos ralados e sorrisos enormes.
Eu as observava com fascínio. Elas pareciam operar segundo leis diferentes das minhas.
— Posso brincar com elas? — perguntei, o coração acelerado com a própria ousadia.
Meus pais trocaram aquele olhar que eu conhecia bem. O olhar da conferência silenciosa, onde pesavam minha segurança contra minha vontade.
— Não conhecemos essas crianças, amor — disse minha mãe, a voz gentil, mas definitiva. — E se elas forem muito brutas? E se você se machucar?
Fiquei ali, assistindo àquela festa de liberdade da qual eu era eternamente plateia.
Uma das meninas tropeçou e ralou o joelho. Em vez de chorar, ela riu, limpou o sangue com a mão e continuou correndo. Eu senti algo que só muito mais tarde aprendi a nomear.
Eu queria estar lá.
Queria descobrir o que era aquela liberdade de sangrar um pouco e continuar brincando.
Queria aprender a física do risco calculado, a química da espontaneidade.
Em vez disso, voltei para casa e criei uma nova brincadeira com meus brinquedos.
Inventei um parque imaginário onde a Dra. Helena podia correr sem se machucar, onde os ursinhos-trabalhadores podiam se sujar sem decepcionar ninguém, onde os carrinhos-exploradores podiam se perder sem causar pânico.
Era um mundo mais seguro. E infinitamente mais solitário.

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